A viagem que quase não foi (parte 3)

Ou, O Detector de Metais.

Nos despedimos de papai. Uma despedida digna do filme ET – O Extraterrestre. Parece que nós vamos para outro planeta, ou para a guerra. Ou que faremos um intercâmbio de um ano fora.

Mas não, serão apenas alguns dias longe e, bom, 9 mil quilômetros de distância.

Secretamente, imagino-o se divertindo horrores, ligando para os amigos e combinando um chopp. Talvez até um jantarzinho.

Tudo bem, também estarei me divertindo com o Mickey.

Entramos nos detectores de metal. Estou carregada de tralha. Tenho esperanças de que o policial me veja e se compadeça do meu estado. Mas…

Quero pedir pra ele deixar do jeito que está. Quero dizer “Moço, pelo amor divino, olha o meu estado, olha quanta tralha, já está tudo esquematizado. Por favor, me ajuda aqui…” Mas já viajei outras vezes, e sei que não adianta chorar. Preciso tirar a Lea do carrinho e fechá-lo, e eles precisam comprovar que eu não estou carregando armas ou facas ou qualquer outro objeto cortante.

– Filho, segura aqui sua irmã por favor?

Simon, do alto de seus 7 anos, pega ela no colo. Tiro a bolsa que estava pendurada, tiro o pacote de salgadinhos que alguém abriu e deixou em cima do carrinho, tiro a chupeta dela que estava fixada ali. Aí alguma mágica acontece que começa a surgir tralhas surpresas no carrinho: um pacote de salgadinhos que alguém abriu e deixou ali, uma chupeta, uns brinquedos.

Dobro o carrinho – veja bem, não é nenhum desses modernos que você dobra num passe de mágica com uma mão enquanto carrega o bebê com a outra. Não. É um estilo guarda chuva, daquele que você usa as duas mãos E o pé para fechar.

Mas tudo bem, vamos que vamos!

Carrinho fechado, e toda nossa bagagem de mão espalhada pela esteira do detector de metal. Mala de mão, a bolsa de mão, a mochila das crianças e as tralhas que já estão fora das bolsas só Deus sabe por quê.

Atravesso o detector de metais com a pequena no colo. Os policiais estão bem humorados, as crianças estão colaborando. Todos riem a minha volta, a moça faz piada com Simon,

Tudo está dando certo.

– Senhora, você pode vir aqui um minuto? –  o policial com o rosto mais sério me chama – precisamos verificar o seu carrinho. Você pode abri-lo?

Meu carrinho?

O que pode ter dentro do meu carrinho?

Me pergunto se deixei uma mamadeira de leite, ou, sei lá, uma papinha esquecida lá dentro. Abro o carrinho fazendo alguma piadinha infame sobre “essas coisas sempre acontecem comigo he-he o que será que eu esqueci agora?” (porque, de fato, acontecem. Sempre me param. As últimas vezes foram por uma garrafa de água mineral e por um Hipoglós.)

Estou curiosa para saber o detector de metais encontrou lá dentro hoje.

Acho essa parte da viagem até excitante!!

O policial se abaixa e começa a remexer no bolsão inferior do carrinho – também conhecido por Compartimento de Tralhas. Ele fica ali alguns instantes, eu e as crianças olhando fixamente para ele. Quando o rapaz tira de lá de dentro uma…

Chave de fenda.

Juro.

Não faço a menor ideia de como ela foi parar ali. Mas em sua mão há uma chave de fenda gigantesca, que deve medir uns 30 cm, e faz parte do jogo de ferramentas que tenho em casa, cada uma com o cabo de uma cor.

Lembro que senti tão adulta quando comprei esse conjunto de ferramentas.

Olho incrédula para a chave.

“Gente, quem colocou isso no carrinho? Que loucura, moço, não sei como ela foi parar aí!” As crianças me olham com cara de espanto, eu me pergunto se ele vai chamar a polícia e mandar me prender. Quão fora da lei pode ser levar uma chave de fenda no avião, honestamente? E, bom, olhe para mim. Duas crianças. Um bebê. Uma camiseta meio regurgitada. Ele realmente acha que eu tenho alguma agenda criminosa em mente?

Simon: “Mãe! Vamos ligar para o papai e entregar para ele! Ele deve estar por aqui!”

Simon é meio apegado às coisas. Ele sempre sofre quando separo roupas para ou brinquedos que não usamos mais e coloco na caixa de doação. Quando nos mudamos de apartamento ele literalmente adoeceu.

Encaro seus olhinhos ansiosos e digo: “Tudo bem, pode ligar!”

Os policiais gostam da ideia, as crianças também, e todos dão sorrisos comemorativos.

Ligo para o papai e o celular toca, toca, toca… e nada. Tentamos mais uma vez, já que a fila está tranquila. E então lembro que ele esqueceu o celular em casa.

Sem chance.

Ele não vai atender.

“Filho, vamos ter que jogar fora a chave de fenda…” Digo, sinalizando a grande caixa transparente com tudo o que outros viajantes já tiveram de deixar por ali. Canivetes, tesouras, alicates, saca rolhas, isqueiros.

(Nota: Não há nenhuma chave de fenda.)

Ele olha para a caixa dos objetos abandonados com um pesar palpável.

Sei que é difícil para ele, mas não tem jeito. Também estou chateada pela caixa de ferramentas, mas, bom, estamos indo para Disney. Disney!!

Vamos colocar as coisas em perspectiva, né?

Ele arrasta os pés até lá, desanimado, e joga com gentileza a chave de fenda pelo buraco. Ela cai em queda livre por metade da lixeira e bate nos outros objetos proibidos que tem alguma história, um dia tiveram um dono, mas que hoje pertencem a ninguém.



Pronto, estamos novamente dentro da lei. Que alívio, que alegria!

Agradecemos os policiais, devolvo a Lea no carrinho, arrumo a tralha, e lá vamos nós!

Passo a mão nas costas de Simon, tentando confortá-lo. 
Ele vai superar. 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s