A viagem que quase não foi (parte 4)

Há algo de mágico em entrar no avião, esse mundo paralelo e extraordinário onde coisas incríveis acontecem. É como se estivéssemos entrando numa zona livre, onde as regras do mundo real não se aplicam. Por exemplo: No avião pode dormir tarde! Pode jantar às 11 horas da noite, pode dormir de roupa. Pode assistir filme. No avião pode tudo.

E, bom, se você parar pra analisar é uma coisa realmente incrível: a porta fecha e você está no Brasil, mas quando ela abre de novo (e se tudo der certo) você está em outro país. Tem noção? Santos Dummont realmente era um homem de visão.   

Em todo o caso, depois de fazer uma horinha no duty free, dar um lanche e levar todo mundo no banheiro (duas vezes), entramos no avião. As crianças estão num êxtase tão grande que me pergunto para que ir até a Disney. Podíamos ter feito só uma ponte aérea SP-RJ que já seria incrível.

Além disso, as crianças entram em trégua. De repente estão se tratando com tanta civilidade e afeto que me pergunto se estão doentes.

Tiro os casacos das malas de mão, os livros e os lanches e guardo as bolsas quase vazias no compartimento superior. Alguns passageiros olham pra mim preocupados. Sei que eles têm medo das crianças abrirem o berreiro e atrapalharem o vôo. Tento sorrir e passar a sensação de que tenho tudo sob controle. Sou a Angelina Jolie, sou a Angeline Jolie.

As aeromoças são gentis comigo. Uma delas até vem até mim para se apresentar e dizer que posso contar com ela se precisar de ajuda durante o vôo. Fico tão emocionada que quase dou um abraço nela. As crianças aproveitam a atenção dela para enchê-la de perguntas. Fico com medo de perder o vale-ajuda.

Só faltavam perguntar a cor da calcinha e sobre o imposto de renda.

Reviro os olhos, meio rindo. “Chega crianças, deixem a Roberta trabalhar.”

Roberta ri e diz que mais tarde volta pra conversar mais.

Sentamos, apertamos os cintos. As crianças estão eufóricas, os olhinhos arregalados explorando cada botão que encontram. Lea mordisca seu macaquinho de plástico, feliz. A mamadeira dela está pronta, preparei numa cafeteria do aeroporto, antes de entrar no avião.

A ideia é amamentá-la durante a decolagem.

Eles estão exaustos, já passa das 22h, e sei que logo todos estarão dormindo.

Tudo está dando certo! Só há um pequeno porém: a Angelina Jolie aqui tem um pequeno pavor de andar de avião. A sensação de estar fechada num tubo de ferro a 12 mil pés da terra firme me apavora. Quero dizer, se der qualquer pepino, não tem jeito. Acabou. Fim. Não é como um acidente de carro, ou de bicicleta, ou de moto.

É um avião. Caiu, já era.

Engulo em seco quando a aeromoça começa a explicar, com toda a calma do mundo, sobre as atrocidades que podem acontecer nas próximas horas. Os passageiros a minha volta estão completamente alheios ao seu discurso. Bocejam, assistem filmes e mandam mensagens no celular.

Tento me distrair com outra coisa – qualquer outra coisa – enquanto ela explica monotonamente o que fazer em caso de pouso na água (!!!) ou caso as máscaras caiam dos compartimentos superiores. (!!!!) Como vou colocar máscara em três crianças?! Olho para o Simon e me pergunto se ele tem capacidade de colocar em si mesmo.

E a Lea, que está no colo? Tem máscara pra ela?

Melhor rezar.

Tudo dá certo.

Chegamos em Miami em pouco mais de sete horas de um vôo – graças aos céus – tranquilo, sem maiores turbulências e onde os três dormiram praticamente o vôo inteiro.

Adivinha quem foi a única que não dormiu?

Se você respondeu você querida mãe, você acertou.

Estou exausta.

Mas, bom, mãe exausta é quase uma redundância, não é mesmo? Ainda mais após um vôo intercontinental. Eu devo ter fechado os olhos por uma hora e meia, entre levar um no banheiro, preparar mais uma mamadeira, e administrar uma crise de soluço da pequena.

Pelo menos pousamos!! E não atrapalhamos os outros passageiros.

Mas algum tipo de interação deve ter acontecido durante a noite entre Stella, de cinco anos, e Roberta, a aeromoça gentil que nos serviu o jantar… porque nós estávamos passando pela porta do avião quando Roberta diz, acenando pra Stella:

Jussara?

Ao que minha filha responde apenas TCHAU.

Pergunto para Stella da onde a aeromoça tirou o Jussara. Mas ela apenas levanta os ombrinhos como quem não faz a menor ideia. Estou tão cansada que não insisto.

Saímos do avião e sinto o calor abafado e convidativo da Flórida varrendo o meu rosto.

Miami, aqui vamos nós…

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