O último dia na terra do Mickey (parte 9)

Pego meu carrinho tamanho família e entro, otimista, no Publix.

Mas o otimismo dura pouco. O caos reina diante dos meus olhos: o mercado está tão lotado que é impossível circular. As filas para pagar dão a volta pelos corredores. As prateleiras estão metade vazias. Uma loira magrinha gesticula no telefone em tom agoniante, enquanto joga para dentro do carrinho qualquer item que esteja disponível nas prateleiras. Biscoito, batata, e latas de amendoim.

É engraçado como nesses momentos de desespero agudo toda a civilidade é deixada de lado. Como se um lado mais gutural nosso desabrochasse por instinto de sobrevivência. Não há com licença, por favor, obrigada. Não há convenções sociais.

Há apenas o medo.

Com muito esforço, acabo conseguindo me embrenhar até a sessão de bebidas. Vamos começar comprando água. Água me parece algo vital para se ter nesse momento.

Mas a sessão de bebidas está vazia.

Todas as prateleiras de água estão vazias.

Acabou a água.

Pela primeira vez a gravidade da situação me atinge: estou sozinha com três crianças num país estrangeiro que é rota de um furacão categoria cinco. Nem o Mickey, nem a Disney, nem todos os pozinhos mágicos de toda a Flórida podem resolver o meu problema.

É engraçado como a gente se fecha para as coisas que não quer ver. Somos obstinados até não poder mais quando se trata de algo que não queremos enxergar.
No caminho de volta, não sei o que fazer.

Devo adiantar minha passagem? Ou pegar o carro e dirigir com as crianças para bem longe? Talvez esperar quietinha no hotel enquanto o furacão passa, e rezar para que ele seja gentil e pacífico?

Começo a pesquisar preços de passagens, mas estão exorbitantes. Não vai dar para voltar para casa. Pesquiso então opções para outras cidades dos Estados Unidos – mas também, tudo caro.
Estou com medo.
É nessa hora que meu celular apita, com uma mensagem do Dani, meu marido.
Sabe príncipe encantado no cavalo branco?

Sei que estamos na era do empoderamento feminino, de sermos mulheres independentes e auto suficientes, que se viram nos 30. E acho isso excelente. Acho que nós mulheres temos que nos virar sozinhas MESMO. Ensino isso para as minhas filhas todos os dias (enquanto ensino meu filho que ele deve fazer tudo pelas irmãs.)

Mas preciso confessar que me senti a própria princesa em perigo sendo salva pelo seu cavaleiro. Fiona meets Shrek! Aurora meets Phillip! Branca de Neve meets Florian – aposto que você não sabia o nome dele!! Sabia? Eu não! Acabei de jogar no google.  

Agradeço pelo meu marido sensato e (ultra)paciente – enquanto envio para ele telas inteiras de sorrisos e corações. Ligo para ele e conversamos um pouco. É tudo surreal demais. É minha terceira noite em solo americano, em uma viagem que estava indo tão bem mas de repente teria de ser mudada. Aliás, interrompida.  

A vida é assim.

Ela nunca sai do jeito que a gente planeja.

No dia seguinte, o céu já não está azul. Toda a serenidade do dia anterior evaporou-se numa névoa cinzenta, fresca, mas pacífica. E chove. Não uma chuva forte e torrencial, mas uma chuva insistente.
Arrumo a mala cedo. Metade da minha bagagem ficou em Miami – e lá ficaria até sabe-se lá quando. Mas por alguma sorte do destino eu trouxe para Orlando todos os nossos passaportes. No dia em que cheguei aos Estados Unidos, cogitei deixar os passaportes das crianças em segurança em Miami, afinal, não iria usá-los. Mas como as coisas da vida às vezes também dão certo, eu por acaso estava com todos os passaportes comigo.
Termino de organizar as coisas e aviso as crianças que teremos de ir embora.

Fico com pena… Era o parque que ele mais queria ir.  
“Vai ter que ficar para a próxima viagem, meu amor. Agora temos de ir pra casa.”

Nosso vôo é só as dez da noite, então ainda dá tempo de um último passeio rápido (brasileira, né?). Acabamos indo para a fabrica da Crayolla, onde as crianças divertem-se derretendo lápis de cera, colorindo historinhas e criando suas próprias embalagens de giz de cera. 

No parque da Crayolla, todos os adultos estão preocupados, enquanto as crianças brincam, felizes. E é assim mesmo que tem que ser…

As quatro da tarde (seis horas antes do vôo) chegamos no aeroporto.
E o caos reina.
As filas do check in fazem a espera na Disney parecer minúscula. Há pessoas sentadas no chão, deitadas em mochilas, todo mundo desesperado para ir embora dali. Entro na fila com os três e esperamos nossa vez.
As crianças colaboram. Já entenderam que há algo muito errado, e cooperam. Não brigam. Mas ainda são crianças – discutem porque um está respirando o ar do outro e por quem irá pegar a primeira bolacha do pacote. Precisam ir ao banheiro justamente quando é nossa vez no check in.
 


Os atendentes das companhias aéreas estão nervosos e abatidos. Vê-se que eles querem ajudar todo mundo, mas que não é possível. Simplesmente não cabe todo mundo dentro dos aviões. Outra lei inviolável da vida (e da física): dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.
Há gente chorando, gritando. Mas há também gente calma e otimista. Há grupos de jovens achando tudo o máximo: filmando em volta e colocando nas redes sociais. De repente sou tomada por uma onda de tranquilidade muito grande. Está tudo bem. Se eu não conseguir embarcar, tudo bem. Vou me virar do mesmo jeito que todo mundo aqui vai se virar. Um sentimento coletivo de apoio mútuo e boas vibrações prevalece de alguma forma acima do caos, do medo e da incerteza.
Diferente da noite anterior no mercado, há uma aura de paz.
E tento me agarrar à ela.

São quase oito hora quando conseguimos fazer check in, despachar as malas e passar pelos detectores de metal. Eventualmente conseguimos. Entramos no avião. Sentamos.
O vôo está lotado e o clima tenso. De preocupação, de medo. Uma criança chora com medo de nosso avião ser levado pelo furacão no céu – e me pergunto se isso é possível.
A atendente me garante que não.
“Mamãe, a gente vai conseguir chegar em casa?”
Eu honestamente não sei. Mas espero que sim.
“Vai, sim, filho.”
Dou play no filme dos Minions e descanso a cabeça no encosto atrás de mim, finalmente soltando todo o ar que segurava, tenso, dentro do meu pulmão. 
Nós estamos indo para casa.


Essa é uma história real que aconteceu no ano de 2017, durante a passagem do furacão Irma pela Flórida. 


Irma tirou 7 milhões de pessoas de suas casas naqueles dias de setembro de 2017. O furacão devastou regiões do Caribe, North Caroline, Cuba, México, Florida Keys, Miami… Estima-se que Irma matou 60 pessoas de forma direta e 90 pessoas de forma indireta. 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s