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A viagem que quase não foi (parte 2)

Ou, O Check In

“Está tranquilo, vai dar tudo certo” era meu mantra naquele dia de viagem. Arrumei as malas – duas grandes, uma de mão, e uma bolsa para a bebê. Estava tudo previamente combinado: eu iria puxar as malas grandes e a da pequena, enquanto o Simon empurraria o carrinho, e a Stella puxaria a mala de mão.

Todos estavam felizes e satisfeitos com suas funções.

Dani, meu querido marido, nos leva para o aeroporto e nos acompanha na fila do check in. É tudo um pouco dramático demais. Ele está triste que nós vamos partir, e as crianças agem como se nunca mais fôssemos nos ver na vida.

Choram e agarram-se às suas pernas.


#Drama é o nosso lema.

Entrego meus documentos para a moça do check in. Mara é o seu nome.

– Então é só você e as crianças?

– Isso mesmo.

– Você está com a autorização do pai? Sem a autorização do pai você não viaja.

– Estou, sim. – Trouxe duas vias impressas PARA CADA FILHO, com firma reconhecida no cartório.

– Dos três? – Ela quer saber.

– Mãe a gente já está chegando no avião? – Stella aparece do meu lado e pergunta.

– Já, meu amor, espera um minuto, tá? – Olho para Mara – sim, dos três.

Vasculho a mala de mão atrás das autorizações. Sei que está aqui em algum lugar.

Tiro mamadeira, brinquedo, chupeta extra, roupa limpa, casacos de todos, pacote de bolacha, e vou enfileirando tudo aos olhos de Mara. Até que encontro. Minha linda pastinha da viagem – quando eu quero, eu sou organizada, juro.

Mas eu preciso querer muito.

Alcanço as cópias da autorização que estão dobradas e impecáveis num plástico só para elas e coloco-as em cima do balcão. Olho vitoriosa para Mara.

Ela encara minhas autorizações por meio segundo.

Agora as crianças já estão correndo pelo saguão do aeroporto, abaixando-se para passar entre as filas, e gargalhando felizes.

Dani está atrás deles.

Limpo a garganta e tento usar a minha voz mais gentil.

– Como funciona a questão do bercinho para a minha bebê? Tentei reservar, mas não consegui. – Na verdade, falaram que eu podia pagar 399 dólares e garantir, ou tentar reservar na hora do check in.

399 dólares dá praticamente uma passagem nova. Optei pela segunda opção.

Mara digita um pouco mais no computador. Nisso Stella cai e machuca o joelho, mas o Dani está com ela. É tudo um caos, mas é um caos controlado.

Vai dar tudo certo!

Mara segue digitando. Simon vem até mim e diz que quer ir no banheiro.

– Pede para o papai te levar, amor, que eu estou um pouco ocupada agora, tá?

Me pergunto se Mara está jogando paciência.

Será que as outras mães pagaram 399 dólares pelos seus berços e eu sou a única que deixei para fazer no check in? Dou um suspiro e olho para meu pacote gorducho de sete meses. Vamos juntinhas na cadeira, eu e você, você e eu.

Agradeço a Mara, pego as passagens e é isso.

Bagagem despachada, check in realizado. Hora de partir. Olho para meu marido, de repente me sinto insegura. Acho que ele percebe, porque pergunta:

– Mas Dé, você tem certeza de vai ficar bem com os três sozinha no avião?

Dou o meu sorriso mais confiante. Sou a própria Angelina Jolie com sua dúzia de filhos biológicos e adotados. Plena, determinada, linda e meio misteriosa.

Por dentro estou: Meu santo D’us me ajuda… espero que ninguém faça birra, que os ouvidos não fiquem entupidos, que eles durmam a noite toda, que não atrapalhem os outros passageiros. Que eu tenha sanidade mental.

Verifico a mala de mão de novo. Leite em pó suficiente para seis mamadeiras. Muitas fraldas e lenços umedecidos. Trocas de roupas para todos. Um livrinho de atividades para cada um e muitos, muitos lanches.

Como sou otimista, ainda coloquei o meu livro junto.

Vai que eu tenho alguns minutos livre, não é mesmo?

Continua…