Muito me perguntam sobre como é ser mãe de gêmeos. Dá muito trabalho? (dá) Você está bem? (tô!) Você está viva? (da última vez que verifiquei, estava!). É impressionante a quantidade de vezes que escuto essa última.
Tento responder com toda a verdade que cabe a mim, mas para ser honesta, até hoje não consegui encontrar as palavras certas pra descrever como eu tô. Cansada? Chocada? Encantada? Sobrecarregada? Hormonalmente desequilibrada?
Nada define com exatidão.
Difícil isso, porque se tem uma coisa que eu gosto é de me expressar – e me compreender – com clareza.
Hoje cedo, transitando pela casa entre as milhares de tarefas que me cabem, passei pelo meu banheiro e me deparei com algo inusitado.
Em cima da minha pia estava ela: minha escova de dentes, com a pasta devidamente colocada, só esperando pra ser usada.
Paro por alguns segundos em frente a tal cena, como se estivesse aterrissando de volta ao Planeta Terra. Eu já escovei os dentes hoje, não? Tenho certeza que sim. Mas então… Como foi que…
Ou ainda não?
Não sei. Não faço ideia.
Sou a própria Renata Sorrah naquele meme das fórmulas matemáticas voando. Na boa, perdi o controle da minha vida.
Como se não bastasse a escova de dentes misteriosa, outra incógnita: uma mensagem enviada pelo whatsapp.
Abri o meu Whatsapp e lá estava uma resposta a uma pessoa querida que eu não me recordava de ter dado. Data: ontem, 19h31. Olhei para a mensagem e me perguntei “fui eu que mandei isso? EU?” havia meus trejeitos emojigráficos, então com certeza fui eu. Às 19h31.
Devo me preocupar?
Será amnésia temporária um efeito colateral da maternidade gemelar? Será sequer temporária?? Não sei. Só sei que caos define. Perdi o fio da meada, a noção do dia, o controle da minha vida. Se a vida fosse um texto, eu seria um narrador não confiável.
Da próxima vez que me perguntarem como é ser mãe de gêmeos vou contar isso. E só por via das dúvidas, vou tirar uma foto de mim mesma escrevendo essas linhas. Sei lá, nunca se sabe.
Você já parou pra perceber quantas coisas acontecem dentro do elevador? Um cubículo tão pequeno, sem janela, praticamente um caixão de concreto onde ninguém passa mais do que, vai, dois minutos?
Meus filhos sempre acabam de se vestir no elevador. É um tênis que precisa amarrar, um casaco que precisa abotoar. Aliás, eu mesma as vezes acabo de me vestir no elevador.
O elevador também é um ótimo refúgio dos cafés da manhã mal terminados. Quem nunca entrou comendo uma torrada apressada, uma bolachinha, uma banana?
E os retoques de batom, as olhadas no espelho pra verificar a maquiagem, o look, o cabelo, a sobrancelha, as linhas de expressão…? O elevador é testemunha da eterna insegurança feminina. Aposto que, se pudesse, ele diria o quanto todas estão lindas.
Espectador de selfies discretas, tiradas no espelho, que vão logo em seguida para as redes sociais. “#Partiuacademia” “#Bomdia” “#domingou”.
Refúgio de algumas lágrimas seguradas, de bocejos cansados, de desabafos silenciosos, o elevador sabe mais sobre a gente do que muita gente.
E os vislumbres de histórias que ele vê? A moça que entra com roupa de festa as 6 da manhã. O menino que sobe cabisbaixo com mochila e roupa da escola. O rapaz que saiu esbaforido com lágrimas nos olhos. A senhorinha que entrou distraída no celular. E por falar em celular… e as conversas de telefone entrecortadas, interrompidas, sem contexto?
“Mas João Carlos, nós já falamos sobre isso tantas vezes…” “Eu não sei o que te dizer, Guilherme…” “Você sabe muito bem o que você fez!!” Se eu fosse um elevador eu morria de curiosidade. Eles nunca sabem como as histórias terminam.
Enquanto isso, nós, sempre reclamantes, temos apenas coisas negativas a dizer sobre eles: Como demoram! Como são apertados. Quebrou, DE NOVO. E o termo “conversa de elevador”? Mais pejorativo, impossível
O elevador é um eterno observante. Do tempo que passa, das crianças que crescem, da vida que segue, e da intimidade de cada um de nós.
Eis que o carro quebrou. Foi assim, uma bela manhã:
“Mãe, que barulho é esse?”
“Não sei.. estranho né?”
Entramos no carro e… parece que estamos nas cataratas do iguaçu. Há um suave som de água jorrando, mas é só o som mesmo. Não consigo localizar a água.
Confesso que é um som relaxante (principalmente se você considerar a zona de guerra que é meu carro – spotify a todo volume, crianças conversando entre si, um brigando com o outro por espaço e atenção. (Regra universal sobre filhos: todos querem ser ouvidos, ao mesmo tempo, o tempo todo.)
Após um exame apressado, percebo que o tapete do carona está simplesmente encharcado.
Solução? Sentar e chorar ligar para o mecânico, o Eduardo, que sempre salva o rolê.
“Xii.. melhor trazer aqui..” Eduardo diz, preocupado.
Levo o carro no dia seguinte. Nos despedimos dele como se fosse um membro querido da família embarcando numa longa jornada.
Mais tarde, Eduardo me manda um áudio
(adoro pessoas que usam o whatsapp em vez de ligar. Você não? Gente do século XXI!)
Ele me explica o plano de ação. Acato – afinal, não entendo nada de carro. Se ele disser que vai precisar revestir o carro de rosa pink, eu acredito.
Todos os dias ele manda vídeos com as notícias. As crianças ficam em êxtase a cada vídeo. A remoção do porta luvas, UAU! A remoção do painel! A remoção do banco, IRADO! (De fato, há uma piscina embaixo dos bancos. Socorro!!.)
O mais… “inesperado” de tudo, são as coisas que ele encontra lá dentro… Pente de cabelo de Barbie, cartelas de adesivos, e – juro – um grão de milho que brotou. Nem lembro quem comeu milho lá, nem quando… só sei que, do nada, Eduardo me manda:
Realmente, não tem condição. Não sei nem o que responder pra ele. Só sei que o meu carro criou todo um ecossistema próprio!! Fala sério.
“Ah, é coisa das crianças, he-he” digo fingindo normalidade.
Em todo caso, alguns dias depois, o carro retorna ao lar, e é recebido como se fosse um familiar que acaba de voltar da guerra. Que emoção!
As crianças entram alvoroçadas, como se fosse a primeira vez – e de certa forma, é. Afinal, conhecemos partes muito íntimas do carro, até então desco-nhecidas. Muitos de seus segredos foram revelados.
No banco do carona, uma sacola preta. “Com todos os pertences que estavam no veículo” disse Eduardo. Agradeci, já morrendo de vergonha por antecipação, afinal, depois do milho, eu já não sei mais o que esperar.
“Filha, abre aí a sacola” peço, as mãos no volante, já saindo da garagem rumo à escola.
A sacola
Ela começa a rir enquanto anuncia os achados:
Meia barra de chocolate, um pacote de balas.
Um advil vencido
Uma pomada de corticoide que meses atrás eu precisava passar no pé do Simon 3x por dia
Dezenas de elásticos e prendedores de cabelo
”Meu óculos da American Girl!!” comemora a pe-quena, que estava atrás dele há tempos.
Bilhetes de escola (que eram pra ser assinados em novembro de 2022 (não me julguem)
kit de mini alcool em gel e mini protetor solar
1 óculos escuros meu que sumiu há tempos
Um leque (??). Uma tesoura de cozinha (???)
Uma meia preta. (A outra? Só Deus mesmo.)
Um celular velhinho (aqueles da nokia com jogo da cobrinha.) Estávamos procurando há meses.
duas caixas de papel yes pela metade
lápis de cor aleatórios
A cada item que ela tira da sacola os irmãos morrem de rir, tentando lembrar da ocasião do esquecimento. Não sei se choro ou rio junto, só consigo imaginar o pobre do Eduardo juntando a bagunça do meu carro. Socorro.
Sou um caso perdido? Deixo as crianças na escola e eles saem do carro ainda às gargalhadas.
Mais tade, já sozinha, vasculho os objetos na sacola.
De fato, são muitos. E completamente aleatórios. Tenho amigas que teriam um troço só de olhar… E sem dúvida levei o prêmio Mico do Ano da oficina! Apesar disso, é preciso reconhecer: sozinhos eles de fato são desconexos, mas juntos.. juntos eles contam um pouco sobre a nossa história.
Caótica, desorganizada, meio dramática. Mas sem dúvida, 100%… nossa. E isso é mágico 🙂
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(Abaixo deixo o vídeo do Eduardo. O tal do milho que brotou)