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À mãe de maiô verde na praia ontem,

Também sou mãe.

Eu era a de azul que estava na barraca atrás de você, enquanto você abraçava e tentava ninar a sua bebê. Quanto tempo ela tem? Uns oito, nove meses? Ela estava quase dormindo no aconchego do seu abraço e quando algum vendedor ambulante passava, ou alguma criança gritava… e ela punha-se a chorar.

Sei bem o que é isso.

Senti sua apreensão ao tentar colocá-la – pela terceira vez – com todo o carinho e cuidado na colcha estendida abaixo do guarda sol. Para que ela dormisse sossegada, afinal, pela piscininha e os brinquedos ao seu lado, presumi que ela já tinha se divertido e visto muita coisa nova por hoje. Era hora de descansar.

Também era o seu momento de se estirar um pouco no sol, tomar uma água de côco, talvez dar um mergulho ou caminhar. Quem sabe abrir o livro que você, otimista, trouxe na bolsa, na esperança de talvez conseguir ler uma ou duas páginas enquanto ouvia o som do mar.

É difícil esse dilema entre ser mãe e mulher, a gente se perde um pouco. Amamos testemunhar cada sorriso e conquista de nosso bebê, mas também ansiamos por nossa hora do respiro. Nosso momento, sagrado. São dois sagrados, o tempo com o bebê e o tempo com nós mesmas. Difícil conciliar.

Ela dormiu, depois de muita resistência – bebês em geral não gostam de dormir, mesmo. Pelo menos os meus também eram assim. E você foi fazer suas coisas. Foi ser um pouco você. Lembrei de quando minha vida era assim, de quando eu podia existir entre as sonecas deles.

É uma fase difícil. Maravilhosa e única, sim! Arrebatadora, divina, apaixonante… mas às vezes tão dura e solitária.

Eu estava atrás de você, olhando os meus pequenos enquanto eles construíam seus castelos e bolos, cavavam buracos pra caçar siri e brigavam pela pá vermelha – mandei brigar baixo para não acordar a sua bebê.

Depois, fui ao mar com eles, e quando voltei, a sua pequena já tinha acordado. Pronta para uma nova aventura sagrada, quem sabe perseguir os passarinhos ou comer mais um pouquinho de areia.

Você conseguiu relaxar um pouco?

Espero que sim.

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Tudo bem vai… Serei mais realista. Abaixo, uma ilustração mais precisa da nossa calma e tranquila manhã na praia:

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O tênis na sala

Chego em casa daquele jeito depois de um dia lotado. Me jogo no sofá. Começo a relaxar o pescoço, sentir os músculos descansarem, quando…. me deparo com eles.

Os sapatos do meu filho.

Como sempre, eles adornam a minha sala de estar, quase como um objeto de arte moderna contemporânea. Sabe? Uma coisa meio conceitual, esparramada entre o sofá e a poltrona.

Mas será possível? Há nove anos (quase dez) ele é meu filho, e há nove anos (quase dez) me pronuncio contra este hábito diário. E olha que não sou das mães mais obcecadas por organização. Aliás, me considero bastante liberal e receptiva à falta de ordem.

Mas não consigo deixar de me perguntar, ali naquele ensolarado fim de tarde, sobre aonde está a dificuldade do meu baixinho (que já não é tão baixinho) em descalçar os raios dos sapatos no quarto. Não estou nem pedindo para que os guarde dentro do guarda roupas – longe de mim!! – peço apenas que os deixe no quarto, e não aqui.

O hábito está tão enraizado nele que secretamente desconfio de que, alguma vez, já deve ter acontecido dele chegar em casa, correr até o quarto e notar que ainda está com os sapatos nos pés. E então dar um suspiro e dizer: “Ah, não!! Esqueci de deixar os meu tênis na sala. Vou lá tirar e já volto”.

Será? Não duvido.

Mas sabe, temos de escolher nossas batalhas, não dá para exigir tudo o tempo todo. Por exemplo, no momento estou focando na causa-toalha-de-banho. Depois de anos muito tempo pedindo e explicando a importância de pendurar a toalha após o uso (deixá-la seca para amanhã, manter o mínimo de organização no lar, etc) eu finalmente consegui!

Considero uma batalha quase vencida. Meus futuros genros e noras poderão reclamar do que for, mas não da toalha jogada na cama.

Já o tênis no armário… essa ainda não posso garantir.

Escuto-os conversando alegremente no meu quarto. Pelo papo, sei que estão brincando de montar um forte na minha cama. Penso em ir lá dar oi, conversar um pouquinho, chamar ele pra recolher o tênis… Como a mãe responsável que eu deveria ser. Que busca sempre educar os filhos, ensinar as coisas…

Mas… não vi eles o dia todo. Não quero chegar assim, já reclamando. Não dá para bancar a mãe chata agora. Aliás, é tão exaustivo ser uma mãe chata. Você não acha? Por mim eu seria sempre uma mãe legal. Quer faltar na escola? Sim! Ver TV a tarde toda e desencanar da lição de casa? Estou dentro! Tomar sorvete para o jantar? Com certeza!

Posso escolher ignorar: simplesmente fingir que nunca vi o sapato aqui, todo errante, entre o sofá e a poltrona. A ideia me parece tentadora.. afinal, amanhã cedo ele já vai ter de usá-lo para ir à escola, mesmo, que diferença faz? Assim, já está mais próximo da porta para ir embora. Será quase um desserviço às nossas atrapalhadas manhãs eu mandá-lo guardar o tênis agora. Oras.

Seria o sapato jogado um sinal de minha negligência materna? Talvez um símbolo da desordem natural da vida? Seria um displicente ato de rebeldia pré adolescente? Ou quem sabe, penso, olhando de relance minha bolsa e casaco que acabei de largar no sofá, seja apenas um ato de entrega, tão doméstico, que nos concedemos ao chegar em casa depois de um dia cheio?

Hoje não será dia de vencer batalhas. Hoje será dia de me unir aos meus pequenos e adoráveis “inimigos” no forte, de repente estourar umas pipocas quentinhas e pedir uma pizza para o jantar.*

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*O jantar foi carne com legumes, arroz, feijão e salada de tomate com palmito. Mas cá entre nós, eu adoraria que tivesse sido pizza. 

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O dia que era para ir de roupa de festa

Sexta feira passada minha filha de 7 anos tinha de ir de roupa de festa na escola. Seria uma comemoração entre todas as classes, e ela estava empolgadíssima para este momento. Na noite anterior falamos durante o jantar inteiro sobre assunto, pensando nas possibilidades do que vestir.

O problema foi que no dia seguinte acordamos e, na correria, acabamos esquecendo de vestir a roupa de festa. Eu não lembrei. Ela não lembrou. Ninguém na casa lembrou. Então vestimos o bom e velho uniforme de todo dia, fizemos um rabo de cavalo com elástico da bandana, e lá foi ela.

Sem vestido. Sem sapato. Sem tiara.

E eu segui para o meu dia. Foi uma manhã em que atipicamente eu não estava atarraxada ao celular. Então não percebi quando ele tocou com a seguinte mensagem:

“Oi Debora. Hoje era para vir com roupa de festa.. a sua filha está um pouco triste, será que você tem como trazer uma para ela?”

EU, horrorizada, e para ninguém em específico: CARAMBA, A ROUPA DE FESTA!!!

Eram 9 e meia da manhã. Já fazia quase duas horas que a professora havia mandado.

Imagino minha pequena chateada por ser a única de uniforme em toda a escola. Onde eu estava com a cabeça MEU SANTO PAI DO CEU!!?

Sorte que eu estava perto de casa. Largo tudo e saio desajeitada correndo pela rua com a bolsa numa mão, o casaco na outra, a garrafa de água numa terceira mão que surgiu do nada.

Chego em casa e vou direto para o seu armário, pegar o vestido que ela mencionou ontem. Mas não me recordo direito qual foi… Ela tem três prediletos. Na dúvida, pego os três. Decido levar também uma saia florida e uma camisetinha de lantejoulas douradas que ela tem usado TODO FIM DE SEMANA no último mês.

Saio em disparada para o carro. A escola é perto mas resolvo usar o waze para conferir o melhor caminho.

Droga. Como sempre acontece nessas horas, é óbvio que meu celular não está comigo. Vasculho a bolsa, remexo os bolsos, olho embaixo do banco. Ficou em casa. Ou sei lá aonde. Faço uma prece mental para não tê-lo deixado cair no meio da rua em minha corrida maluca, e sigo para a escola. Lá vamos nós tentar salvar a manhã da menina.

No caminho sou completamente tomada pela culpa, essa inimiga minha de longa data, que vem acompanhada dos pensamentos mais destrutivos possíveis: primeiro, começo a me questionar se na Vara da Infância e Juventude uma falha deste porte pode ser considerada justa causa para uma possível retirada de guarda (sei que não, mas respeite a veia dramática dessa mãe que vos escreve. Obrigada)

Depois, imagino ela na classe sozinha, sentada ao canto, com o rosto vermelho e os olhos inchados. Um olhar vazio para o nada, refletindo sobre o seu infortúnio e sobre a grande injustiça que é a vida. Talvez, duas ou três amigas apontam para ela, tirando um malicioso sarro de sua situação, daquele jeitinho que só as crianças sabem fazer. Imagino os anos de terapia que estão por vir. A perturbação. Que tipo de pessoa ela vai se tornar? etc

Finalmente, estaciono na frente da escola. Aviso o segurança que será rapidinho.

EU: Prometo, só vou entregar isso aqui para minha filha.

Engraçado esse hábito que ele tem de chamar todo mundo de mãe. A gente é mãe mesmo.. só não é mãe dele.

ELE: Mas só pode subir se eu te anunciar.

EU: Por mim ótimo! Anuncia por favor? Eu espero.

Mas a sorte não sorri para nós, e o interfone não está funcionando bem neste dia.

ELE: Mãe, deixa que eu entrego lá em cima.

Explico pra ele a situação, e digo que preciso muito subir e me certificar pessoalmente de que ela vai sobreviver está bem.

Ele me olha complacente e tenta mais uma vez o interfone. Não consegue falar com ninguém, mas fica com dó de mim (ou se cansa de minha insistência) e me libera.

Lá em cima, vejo meninas de várias turmas, todas lindas e arrumadas em vestidos plissados, estampas florais, laços e tiaras de fita na cabeça, sapatilhas coloridas. Droga, esqueci o sapato! Paciência, vai ficar de tênis mesmo. Há mesas retangulares formando um grande círculo. Aparentemente eles estão organizando todas as classes para iniciar a comemoração.

De repente a vejo! Andando com sua turma em direção a última mesa vazia.

Ela é única de uniforme no meio de todo mundo, mas não está sozinha podada num canto, e sim, conversando animada com uma amiga.

Ela me vê, dá um sorriso, e vem correndo pra mim. Estou tão aliviada que por um instante fico sem reação.

Mas aí abro os braços e digo:

EU: FILHA, A GENTE ESQUECEU!!!!!

Ela me abraça. Entramos no banheiro e mostro as opções que eu trouxe. Sem hesitar, ela escolhe a saia florida com a blusa de lantejoulas. BINGO! Sabia.

Enquanto ela tira o uniforme, percebo que, no turbilhão das emoções, não me dei conta de que precisava fazer xixi. Olho para as micro privadas infantis que batem na altura do meu joelho e penso, já que estou aqui, né? A situação é um tanto precária. Mas beleza, tudo dá certo.

Enfim. Ajudo-a a se trocar. Feliz, ela me conta um pouco sobre sua manhã, e diz que a comemoração vai começar JUSTO agora.

EU: Mamãe sabe de tudo!! – Respondo, brincando, enquanto ajudo a fechar sua saia.

Mas ela não capta meu ar de deboche e me dirige um olhar admirado, cheio de respeito. Sorri satisfeita com minha resposta, repleta de auto confiança, proteção e expectativa de um futuro melhor.

Enquanto me dá um beijo de despedida e se junta às amigas, me pergunto quando será que ela vai descobrir que eu estava apenas brincando… e que na verdade, mamãe sabe de muito pouco.

Até lá, seguimos tentando.

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PS: EM TEMPO, compartilho que, com muito alívio, acabei encontrando meu celular!! Não estava em casa, nem no carro, nem na bolsa, nem na rua.. Conseguir localizá-lo foi outra saga, mas vou deixar para relatar quem sabe num futuro post  =)

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Quando a polícia me parou

Essa é uma daquelas histórias em que eu peço para você, caro leitor, se despir de todo e qualquer julgamento. Eu sei que é normal julgar os outros, que fazemos isso o tempo todo, etc, mas hoje preciso de um pouco de amor de você.

Pronto? Parou de julgar? Então vamos lá.

Era uma tarde quente, e eu levei as meninas para tomar um sorvete.

Saindo da lá (com alguns chocolatinhos a mais do que o previsto), acomodei as duas no banco de trás, sentei no meu lugar, tranquei o carro, liguei e quando comecei a dar marcha ré, o alarme do carro disparou.

Sabe aquele alarme insuportável e alto que atrapalha todo mundo? E que a gente xinga quando escuta tocando por mais do que 10 segundos? Então. Esse.

O que essa mãe inteligente que vos escreve fez então?

a) Parou, desceu e tentou resolver o problema.

b) Como estava muito próxima de casa, pensou “bom, deixa eu chegar em casa que a gente resolve isso”

Se você escolheu a primeira opção, devo dizer que você superestima muito a minha maturidade.

E se você optou por B, você acertou.

Não desci para resolver o problema. Estava todo mundo me olhando. Que vergonha. Eu queria ir embora, e como eu estava muito próxima de casa, pensei “bom, deixa chegar em casa que a gente resolve isso”

E então segui dirigindo, com o alarme disparado até em casa.

As meninas brincando no banco de trás, totalmente alheias à situação. Parei no semáforo e tentei desligar o carro, ligar de novo. Destrancar e trancar. Tentei apertar o botãozinho da chave. Enfim, tentei o que dava para tentar naquele momento. Estava distraída nas minhas vãs tentativas de fazer o alarme parar, quando percebo pelo retrovisor que há pessoas se aproximando do meu carro.

Agachadas. Uniformizadas.

E com armas em punhos.

Tipo cena de filme, quando os agentes se aproximam de uma porta ou de um corredor abaixados tentando se proteger porque não sabem se serão surpreendidos pelos ladrões, sabe?

Imagina a cena.

Antes de entrar em pânico, noto que são policiais. Seis deles. SEIS. Dois vem pelo lado direito do meu carro, quatro pelo esquerdo. Uma viatura policial está estacionada bem atrás de mim, com as luzes piscando. Gente, da onde surgiu isso???

Se o carro está com a sirene ligada ou não, não sei dizer, pois minha audição está toda tomada pelo impiedoso alarme do meu próprio carro. Um policial de cabelo castanho que parece o líder do grupo enfia a arma no meu vidro (que é escuro) e faz sinal para eu abrir.

Estou meio em choque, sem entender. Mas bom, quando um policial armado com cara de mau te manda abrir o vidro você faz o que? Abre, é claro.*

Eis que ele grita para os colegas:

TEM CRIANÇAS!!

Como se ele tivesse acabado de dizer alguma palavra mágica, todo mundo baixa as armas e as esconde.

E então ele olha para para mim e diz, agora mais gentilmente:

Atordoada, encosto ali. Entendo o que está rolando: ele acha que eu roubei o carro e fugi com o alarme tocando. Oras, mas isso faria de mim uma fora da lei muito burra mesmo, né?

Começo a me desculpar, me sentindo envergonhada e totalmente culpada, com a certeza de que provavelmente há algum crime ocorrendo neste EXATO MINUTO em algum lugar nas redondezas e todos esses SEIS policiais não estão ajudando quem precisa de verdade porque foram distraídos por uma motorista sem noção, ou seja, eu.

Minhas filhas olham curiosas para o grupinho fardado que se juntou do lado do carro.

Desligo o carro. Mas o barulho continua.

BIII-BIII-BIIII

EU: Moço, mil desculpas. O carro começou a apitar e como eu estava muito perto de casa decidi voltar correndo, pra ver se resolvo isso lá.

O policial me olha como se eu tivesse algum problema mental. Mas suspira, dá um sorriso e pergunta:

ELE: O carro é seu? Você tem os documentos certinho?

Digo que sim.

BIII-BIII-BIIII

E aí sou tomada por uma ideia. Tiro a chave do contato – que, para ajudar no mico, é enfeitada por um penduricalho colorido de lego, golfinho e coração – dou na mão dele e peço:

EU: Será que você pode virar a chave aí na porta pra mim? Agora me ocorreu, talvez isso resolva.

Com firme delicadeza ele encaixa a chave no buraco, vira e magicamente, para meu alívio total, o insuportável barulho cessa.

O policial sorri.

O grupo de policiais comemora o silêncio com sorrisos compreensivos e palavras encorajadoras.

Peço desculpas novamente. Eles dizem que tudo bem, acontece, mas que um carro com alarme disparado andando pelas ruas de SP é um tanto suspeito, então para tomar cuidado da próxima vez.

Quero enfiar minha cabeça na terra e sumir. Agradeço de novo, peço desculpas de novo. E dirijo as duas quadras que faltavam até chegar em casa tentando não causar mais.

Fico feliz em constatar que chegamos sãs e salvas, sem novos dramas pelo caminho.
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* Estou ciente de que poderiam ser ladrões disfarçados de policiais. Mas estava muito real e exagerado para ser mentira… e eu sabia que eu estava fazendo algo de errado. Enfim. Que bom que não eram.

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Pijama na escola

O drama da vez é que minha pequena recusa-se a trocar de roupa para ir à escola. Toda manhã para tirar o pijama é um escândalo, com direito à lagrimas, gritos, fugas pela casa, etc.

O que é totalmente compreensivo: tirar o pijama quentinho de manhã cedo para se trocar é um martírio, vamos falar sério? Eu, se pudesse, passava o dia todo de pijama também. E mais algumas horinhas na cama. Mas a vida real não permite isso, a vida real obriga a gente a madrugar, escovar os dentes, vestir algo decente e estar em lugares nos horários certos.

Então lá vamos nós para a batalha diária que é vesti-la antes de ir pra escola… A luta é real. Envolve todo um trabalho de argumentação e convencimento, muito diálogo e paciência . Um tempo que certamente não dispomos em nossas corridas e atarefadas manhãs.

Sei que tem cara de birra, mas o sofrimento dela parece genuíno. Ela chora, as lágrimas escorrem nas bochechas gorduchas enquanto ela implora pelo pijaminha. E bom, meu coração mole de mãe diz: qual o problema de uma menininha de dois anos usar o seu pijama feliz e contente, oras? Não é algo que ela vá poder fazer pra sempre na vida dela.

Eu, por mim, deixava ela passar o dia de pijama mesmo.

Mas… vida real, né?

Às vezes ela aceita trocar a calça do pijama, mas faz questão de manter a parte de cima. O que pra mim já é uma grande vitória!

Às vezes, muito raramente, ela topa ir fantasiada de princesa da Disney

Mas não é o ideal, porque lá ela brinca na areia, com tinta e esses vestidos de princesa não são nada práticos.

Outra técnica que eu uso é contar a história da linda menina que só gostava de usar pijama, então as roupas dela, coitadas, viviam tão tristes e solitárias esquecidas na gaveta. Pobres roupas. Queriam tanto ser usadas. Queriam ver a luz do sol, passear, conhecer o mundo… (momento mamãe dramática em ação)

Às vezes funciona. E ela, relutante, diz:

Espero não estar traumatizando a menina…

E, bom tem dias, quando o apego está mais intenso e já estamos atrasados, que eu mando ela de pijama mesmo, com uma roupinha extra na mochila.

Não é o cenário ideal, mas é o que temos para hoje.

Essa semana, a escola mandou um bilhetinho na agenda “Querida mamãe, favor tirar o pijama e vestir roupa para vir à escola. Obrigada!”

Se fosse meu primeiro filho, eu me sentiria completamente julgada, a mãe mais relapsa do planeta. Mas como se trata do terceiro ser humaninho que coloco no mundo, só consigo pensar em responder algo como: “Nossa, ela foi de pijama? Que loucura, eu não percebi!! Na verdade, eu estou mandando ela de pijama deliberadamente, porque acho que integra o ambiente escolar e o familiar. Assim, a escola se torna mais íntima para ela. Aliás, pijama não é a última moda em Paris?”

Mas escrevo apenas: “Queridas professoras, tentarei! É uma dolorosa luta diária. Obrigada, Mamãe”

Pensando em imprimir e anexar este post na agenda dela amanhã….

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PS: Hoje ela foi com a parte de cima do pijama. Vamos que vamos. 

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Bala na hora do jantar?

É engraçado quantas histórias e diálogos começam na cozinha… Você já reparou? A hora de comer deve ser mesmo inspiradora.

Eu estava no fogão preparando o jantar quando minha pequena de dois anos apareceu animadamente com uma bala na mão.

Uma bala. Na hora do jantar.

Naturalmente, ela pergunta:

Seus olhos azuis me encaram profundamente, com toda a doçura do mundo. (Sabe, tipo cachorrinho abandonado?) Há uma bala tipo 7 belo na sua mãozinha estendida. É tão pequena e graciosa que dá vontade de falar: “Sim, é lógico que abro. Para você eu faço tudo, meu amor. Aliás, se você quiser a gente pode desencanar do jantar e sair agora mesmo comprar mais balas!! Vamos? Coloca um sapato e faz xixi! Partiu.”

Mas é óbvio que não digo isso. O modo mãe responsável e madura assume o comando e sou firme (com um toque de drama porque, né, senão não sou eu):

EU – Ai minha filha, aonde foi que você achou esta bala???? Agora não é hora de bala, né? É hora de jantar. Guarda para depois da janta, ok? Por favor.

E dando continuidade a meu papel de mãe adulta sensata, volto o foco para o meu brócolis refogando na panela.

Insistente, a pequena decide tentar a sorte com a irmã de seis anos – que estava ao meu lado num longuíssimo e detalhado relato sobre uma briga que rolou entre duas amigas hoje na escola.

FILHA MAIS VELHA (interrompendo o monólogo de duas horas relato): A mamãe falou que não pode.

UAU!! Estou chocada com minha moral!!  “A mamãe falou que não pode!”  Me sinto o poder em pessoa. A soberania da casa. Estou sem palavras, eu sabia que este dia ia chegar!

No entanto, a pequena, não contente com mais um não, decide tentar mais uma vez. Agora com o seu irmão mais velho – que é absolutamente apaixonado por ela e faz quase tudo o que ela pede sem pestanejar.

Ela tem total ciência disso, e venho percebendo que cada vez mais ela aprende a usar esse trunfo a seu favor.

Ele está na sala ao lado ocupado com um quebra cabeças de mil peças da floresta amazônica, e escuto-o perguntando:

FILHO: Mas a mamãe deixa? Você tem que perguntar pra ela.

Quase choro de emoção em cima da comida. Olha só!! Minha autoridade à mil! E eu achando que ninguém nessa casa me obedecia.

Escuto ela respondendo:

FILHA PEQUENA: Vou perguntar para a mamãe, ‘peraí’.

Uma pausa.

Aguardo, mas ela não aparece na cozinha. E não me pergunta nada.

E então consigo ouvi-la dizendo descaradamente para o irmão:

Ouço o barulhinho do papel sendo aberto. E ela consegue sua bala.

Determinação, a gente vê por aqui.

Autoridade, médio…

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Um belo dia

Um belo dia você acorda e percebe que dormiu uma noite inteira sem ninguém te acordar.

Que você até conseguiu tomar um banho tranquila, sem ninguém ficar te chamando do lado de fora.

Um belo dia você consegue voltar a ler. E a trabalhar. A malhar, a comer e ver sua série –quase- tranquilamente.

Ter até um tempinho de ócio.

Um belo dia você percebe que logo mais vai poder devolver aquele vaso de cristal na mesa da sala.

Um belo dia aqueles passinhos ligeiros e suaves no corredor se tornam passadas firmes e estrondosas.

E ninguém mais grita mãããe, acabei o cocô.

Um belo dia picoca vira pipoca.

E aquele dentinho que você comemorou tanto quando nasceu, cai.

Um belo dia ninguém te pede para ler um livro, porque já sabem fazê-lo por conta própria.

E aquela peça de roupa, que parece que cresceu junto com eles, de repente não entra mais.

Um belo dia eles ficarão com vergonha que você lhes dê um beijo na frente dos amigos.

E você irá se assustar com a altura deles. Com o jeito maduro/retraído/desenvolto/responsável/engraçado/sério/focado de serem.

Um belo dia eles sem querer dirão alguma verdade que vai te tirar dos trilhos e fazer repensar tanta coisa.

Sei que novos belos dias vão chegar. Eles sempre chegam, entre uma garfada e outra, depois do banho quentinho, ou naquele semáforo que sempre atrasa a gente para chegar na escola.

Desejo apenas conseguir apreciar esses belos dias com toda a beleza que cabe à eles.

Afinal, eles não são chamados de belos dias à toa.