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O dia em que ele não me deu beijo de tchau

Imagine a cena, clássica:

Uma mãe leva seu filho de nove anos à colônia de férias e, na frente dos amigos dele fala:
Até aí tudo bem.
Mas aí ela completa com:
Na frente de TODOS OS AMIGOS!! Alguns riem, outros fazem cara de estarem achando graça. O menino, é claro, fica vermelho de vergonha e lança à mãe um olhar de súplica, como quem diz: “mãe!!! Para!!!”
Consegue imaginar a cena? Esse tipo de cena que você sempre achou o cúmulo do ridículo e que jurou que jamais faria seu filho passar por ela?
Então.
Eu achava que este dia não chegaria para mim. Que eu era uma mãe muito descolada para fazer meu filho pagar um mico desses. E que ele JAMAIS teria vergonha de mim, afinal, eu sou uma mãe tãoooo cool. Tão divertida, tão antenada e moderna!!!
Ledo engano.
Neste dia, descobri que posso até ser uma mãe descolada, mas que apesar disso, ainda sou uma mãe. Sabe, mãe??
Que manda não esquecer de levar o casaquinho porque pode esfriar.
Que dá aquela passadinha no quarto deles à noite para verificar se estão respirando.
Que fala coisas chatas tipo “chega de TV por hoje” ou “na volta a gente compra.”
E que pede o fatídico beijo de tchau na frente de TO-DOS OS AMIGOS .
Dá pra acreditar que eu fiz uma coisa desses com o menino? Pobrezinho.
A moral que fica é: nunca diga nunca. Porque um dia, o nunca chega.
Mas tudo bem. Já aprendi. Amanhã tomarei o cuidado de dar um beijo de tchau DENTRO do carro, respeitando o perímetro permitido pela legislação infanto-juvenil.
Ah, e não posso esquecer de mandá-lo colocar um casaco na mochila… achei o ar condicionado lá forte.
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Sobre perdas e lutos

Se tem um programa que eu amo fazer com as crianças é ir à livraria. Além de ser perto de casa e”kid-friendly”, a diversidade de olhares que existe lá dentro é incrível! Cada livro traz uma história, uma perspectiva diferente sobre o mundo, e eu adoro poder mostrar isso para as crianças.

Então, depois da livraria aqui perto de casa passar seis meses fechada para reforma, ficamos eufóricos quando ela reabriu há algumas semanas. E, é claro, para comemorar a sua volta, combinei que cada um poderia escolher um livro.

Chegamos, empolgados, já cumprimentando Susana, a gentil e simpática vendedora da área infantil que conheço há anos.

Então minha filha responde, solenemente:

“Sério?” pergunta Susana, confusa.

“É. Mas um bebê morreu na barriga da minha mãe, e aí ele não conseguiu nascer, e aí ficou ‘só’ três”.

(Detalhe no ‘‘ três.)

A vendedora olha para mim não sabendo o que responder. Dou um sorriso e digo que isso aconteceu faz anos, e que não sei o que aconteceu que minha filha está adorando falar desse assunto agora, mas que está tudo bem, não se preocupe. Susana sorri, e seguimos batendo papo.

E então me lembro que, algumas semanas atrás, meu filho veio me perguntar se eu tinha um bebê “que não nasceu”.

Respondi que sim, meio pega de surpresa, até porque nunca comentei com ele do ocorrido. Ele deve ter ouvido eu falar sobre isso com alguém. Expliquei que às vezes as coisas dentro da barriga da mãe não se desenrolam muito bem e aí o bebê pode acabar não nascendo.

Ele escutou, processou a ideia e, sem mais perguntas, se afastou. Então, imagino que ele deve ter corrido contar para a irmã de seis anos, porque alguns minutos depois foi ela quem me apareceu com perguntas. Ela, diferente do irmão, estava completamente obcecada pelo assunto:

Conforme ela ia perguntando, eu respondia. Me pareceu importante dar abertura para ela poder elaborar a ideia, mesmo sendo uma história dolorida. E eis que, poucos minutos depois, ela de fato cansou do assunto e seguiu a vida.

Irmãos mais velhos são sujeitinhos fofoqueiros, não são? Acabo me lembrando de quando eu era pequena e descobri como os bebês são feitos. Segundos depois, fui correndo contar tu-di-nho para a minha irmã dois anos mais nova (que, diga-se de passagem, lidou com a ideia com muito mais classe e maturidade do que eu, que estava absolutamente chocada)

Enfim. Chamo as crianças para ver as novas edições dos livros do Monteiro Lobato. Lemos meia dúzia de histórias. Conversamos mais um pouco com a Susana. Corremos de um lado para o outro querendo absorver cada novo canto da livraria.

E então – em meio à vários: não, não pode dois. O combinado foi um livro só, lembra? A Susana pode separar para a próxima vez. Só um pra cada um, meu povo, só um, já falei… – finalmente, escolhemos um livro para cada e vamos para casa.

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A Festa do Amarelo

As pessoas sempre brincam sobre a diferença com que tratamos o primeiro, segundo, terceiro filho… Realmente, conforme o tempo passa e nós adquirimos experiência nesse negócio louco chamado maternidade, aprendemos a ir dosando, o que vale a pena priorizar (tempo de qualidade juntos, não se estressar com bobagens, rir cada dia mais das situações, etc)

Primeiros filhos ganham muito mais atenção e tempo a sós com os pais. Caçulas, por sua vez, são mais independentes porque precisam aprender a se virar, afinal, os pais tem os outros filhos para se ocupar, e, na maioria das vezes, já gastaram bastante de sua dedicação, paciência e potencial criativo com os mais velhos (#momentoconfissão). Então com os outros filhos, as coisas acabam sendo mais relapsas.

Por exemplo, veja como ensinamos o primeiro filho a falar:

A gente até tenta um bilinguismo, tal.

E agora, como os outros filhos aprendem a falar:

Mas tudo bem, há muitos pontos positivos em não ser primogênito.

Por exemplo, eu sou a filha mais velha entre quatro irmãos. Lembro de quando eu era adolescente meus pais mal me deixavam ir até a esquina no sábado à noite. Já meus irmãos, podem sair à vontade e passar a madrugada fora sem que ninguém reclame.

Entende? Tudo tem seus pontos positivos e negativos.

Mês passado, recebi um bilhete da escola da minha caçula de que eles festejariam a festa do amarelo, então era para todas as crianças irem vestidas de amarelo no dia tal.

O problema é que eu (óbvio) perdi o bilhete. Não lembrava de jeito nenhum que dia que era a festa, só que seria em junho. Resultado: Ela está indo de amarelo todos os dias do mês de junho, só para o caso de chegar o dia da festa.

Isso aconteceria com um primeiro filho? Jamais. Porque no primeiro filho eu provavelmente teria saído para comprar uma roupinha amarela ESPECIALMENTE para o Dia do Amarelo.

Primeiro filho tem até álbum, gente. Só dele.

Eu poderia perguntar na escola que dia vai ser a tal da festa? Claro. Poderia sim. Posso mandar mensagem no grupo das mães pedindo para alguém me dizer quando será? Posso. Mas toda manhã na hora de vesti-la, eu percebo que, mais uma  vez, ainda não mandei a pergunta. E agora, em vez de mandar, estou aqui escrevendo isso.

Então com licença que vou ser produtiva e escrever um recado para a escola, confirmando a data.

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Sobre quando todo mundo pegou Influenza B

A primeira a ter febre foi minha filha do meio.

Foi um febrão, do nada. Seguido de um dia inteiro de total desânimo. Ela deitando pelos cantos da casa, sem vontade de brincar, bagunçar, comer e nem ver televisão.

A parte da televisão me preocupou.

Mas ela só queria ficar deitada, quietinha.

Levei ao hospital. Lotado, não havia nem onde sentar. Peguei-a no colo porque ela mal conseguia ficar em pé. Até sermos atendidas, o exame realizado, termos um diagnóstico e sermos liberadas para voltar para casa levou cinco horas. CINCO HORAS.

Tratamento: 5 dias do Tamiflu. Antitérmico para febre. Muito líquido. Dieta leve. Sem escola ou qualquer atividade por uma semana. E sem contato com os irmãos, principalmente com a irmã pequena, de apenas dois anos.

Sei. Só se trancafiá-la no quarto. Os três, apesar de brigarem direto, são super grudados.

Chegando em casa com ela, eu tento instaurar e manter uma política de isolamento, mas é só eu sair de perto deles por um minuto que quando volto, estão assim:

Maravilha! Bem na cara da irmãzinha.

E é tiro e queda. Dois dias depois, adivinha quem está com febrão? Pois é. A pequena.

Eu, já mais esperta, responsável e experiente, vou ao hospital com um pedido de exame em mãos, para não pegar a monstruosa fila como da outra vez. Mesmo assim, todo o processo leva um tempo, onde brincamos e desenhamos com aqueles brinquedos e giz de cera contaminados da sala de espera do hospital.

Afinal, ela já está doente mesmo né.. fazer o quê. Que brinque com as coisas

Diagnóstico: Influeza B.

Voltamos para casa, e, enquanto estou na cozinha preparando um suco de laranja para as minhas agora DUAS pacientes, meu filho mais velho aparece meio cambaleando e diz, baixinho: “mãe, não estou me sentindo muito bem”.

“Ah, nãooooo filho!! Você também?????”

Mas só de tocá-lo consigo sentir a fervura de sua pele. Dou um abraço. Penso comigo que ele nem precisa fazer exame, seu diagnóstico é mais do que óbvio.

Nesse momento estou sem ação, me sentindo uma espectadora em uma comédia tragicômica. Mas é lógico que vamos fazer o exame. De novo. Mais uma ida ao hospital.

O manobrista já inclusive virou meu ‘brother’, e fez até piadinha:

Engraçadinho. Pergunto para ele se a terceira vez não pode ser por conta da casa (#engraçadinha).

Enquanto esperamos para sermos atendidos, brinco com o meu filho que ele e as irmãs podiam ter combinado de ficar doentes juntos para a gente economizar a viagem e irmos todos ao hospital de uma vez só, em vez de se revezar. Ele ri. Eu rio. E seguimos para a sala de exames. Só para tirar a dúvida do diagnóstico.

Que deu positivo.

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A Vacina da Febre Amarela

Se você mora no Brasil, deve lembrar-se daquele surto da vacina da febre amarela, no ano passado. Lembra?? Todo mundo aflito atrás de uma dose para chamar de sua, os jornais noticiando as filas quilométricas e o desespero.

Fiquei com dó das crianças, que acabaram entrando nessa onda (porque eles são esponjas, escutam os pais comentando, ouvem no rádio, tv, etc, e quando a gente vai ver eles estão fazendo mil perguntas pertinentes e sabendo de tudo), mesmo sendo muito mais informação do que a cabecinha deles é capaz de processar.

Tadinhos. A imaginação não tem fim.

Sempre tem aquela parcela da população que é super precavida e responsável, que consegue perceber quando haverá uma crise ou um surto de vacinas e se antecipam. (Quem são essas pessoas? Aonde vivem? Do que se alimentam?).

Elas dizem coisas como:

Eu, óbvio, não faço parte deste seleto grupo de seres humanos. Não. Por motivos que fogem da minha compreensão, eu acabo procrastinando e sempre deixo para última hora. E quando dou por mim já não há mais a tal da vacina.

Lembro de ter tentado de todas a maneiras: acordar as crianças cedo e chegar horas antes de abrir o posto. Em vão. A fila virava o quarteirão, subia a avenida e já não havia mais senhas. Não contente, liguei em todos os particulares que conhecia e a resposta era sempre a mesma: acabou e estamos sem previsão de chegada. Talvez em março.

E as filas eram tão grandes, mas tão grandes, que se tornaram referência na cabeça do meu filho. Até hoje, quando vemos pessoas enfileiradas num restaurante, no ponto de ônibus, na casa lotérica, etc, ele comenta:

Acabei conseguindo (em março) a bendita vacina.

Todos tomaram, mas até hoje falam no assunto. Me pergunto quando irão esquecer…

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Sobre perdas e lutos

Se tem um programa que eu amo fazer com as crianças é ir à livraria. Além de ser perto de casa e”kid-friendly”, a diversidade de olhares que existe lá dentro é incrível! Cada livro traz uma história, uma perspectiva diferente sobre o mundo, e eu adoro poder mostrar isso para as crianças.

Então, depois da livraria aqui perto de casa passar seis meses fechada para reforma, ficamos eufóricos quando ela reabriu há algumas semanas. E, é claro, para comemorar a sua volta, combinei que cada um poderia escolher um livro.

Chegamos, empolgados, já cumprimentando Susana, a gentil e simpática vendedora da área infantil que conheço há anos.

Então minha filha responde, solenemente:

“Sério?” pergunta Susana, confusa.

“É. Mas um bebê morreu na barriga da minha mãe, e aí ele não conseguiu nascer, e aí ficou ‘só’ três”.

(Detalhe no ‘‘ três.)

A vendedora olha para mim não sabendo o que responder. Dou um sorriso e digo que isso aconteceu faz tempo, e que não sei o que aconteceu que minha filha está adorando falar desse assunto agora, mas que está tudo bem, não se preocupe. Susana sorri, e seguimos batendo papo.

E então me lembro que, algumas semanas atrás, meu filho veio me perguntar se eu tinha um bebê “que não nasceu”.

Respondi que sim, meio pega de surpresa, até porque nunca comentei com ele do ocorrido. Ele deve ter ouvido eu falar sobre isso com alguém. Expliquei que às vezes as coisas dentro da barriga da mãe não se desenrolam muito bem e aí o bebê pode acabar não nascendo.

Ele escutou, processou a ideia e, sem mais perguntas, se afastou. Então, imagino que ele deve ter corrido contar para a irmã de seis anos, porque alguns minutos depois foi ela quem me apareceu com perguntas. Ela, diferente do irmão, estava completamente obcecada pelo assunto:

Conforme ela ia perguntando, eu respondia. Me pareceu importante dar abertura para ela poder elaborar a ideia, mesmo sendo uma história dolorida. E eis que, poucos minutos depois, ela de fato cansou do assunto e seguiu a vida.

Irmãos mais velhos são sujeitinhos fofoqueiros, não são? Acabo me lembrando de quando eu era pequena e descobri como os bebês são feitos. Segundos depois, fui correndo contar tu-di-nho para a minha irmã dois anos mais nova (que, diga-se de passagem, lidou com a ideia com muito mais classe e maturidade do que eu, que estava absolutamente chocada)

Enfim. Chamo as crianças para ver as novas edições dos livros do Monteiro Lobato. Lemos meia dúzia de histórias. Conversamos mais um pouco com a Susana. Corremos de um lado para o outro querendo absorver cada novo canto da livraria.

E então – em meio à vários: não, não pode dois. O combinado foi um livro só, lembra? A Susana pode separar para a próxima vez. Só um pra cada um, meu povo, só um, já falei… – finalmente, escolhemos um livro para cada e vamos para casa.

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Brincar de cabana

Você brincava de fazer cabana quando era pequeno?

Essa é uma brincadeira muito fácil e é SEMPRE um sucesso. Se você por acaso não teve infância não a conhece, consiste em pegar um lençol antigo (ou uma manta, toalha, o que tiver disponível) e tentar esticá-lo do jeito que der, prendendo-o entre dois móveis, como por exemplo entre dois sofás, formando uma cabana embaixo. Os pequenos piram nisso, colocam a imaginação para trabalhar.. é muito legal.

E no fim, eles acreditam piamente que a cabana deles ficou assim:

Quando na verdade ela é algo assim:

Mas tudo bem né? O importante é eles felizes. E a criatividade à mil.

Eu lembro que brincava MUITO disso com meus irmãos quando era pequena. E hoje em dia meus filhos adoram essa brincadeira também. Tem dias em que eles estão mais inspirados e ficam horas desenvolvendo as melhores técnicas de deixar a cabana esticada e grande (antes de começarem a se matar discutir pela decoração/disposição/espaço/móveis/qualquer assunto da cabana. O que sempre acontece depois de um certo tempo de brincadeira).

Um fator determinante para que ela seja considerada uma cabana de sucesso é se eles conseguem fazer com que fique tudo escuro lá dentro. Logicamente, essa é uma façanha praticamente impossível, mas eu finjo que tento ajudá-los, e fica tudo certo. Depois de um certo tempo tentando eles desistem.

Aí, uma vez montada essa elaborada tenda, eles curtem mobiliá-la, levar livros, lanternas, uma maçã cortada, travesseiros e cobertores, e juram que essa noite sim, eles vão dormir nela.

Bom, essa semana eu estava compenetrada numa leitura enquanto eles montavam uma cabana. Nesse dia em especial os dois estavam super focados e em sintonia, a brincadeira já durava horas sem brigas (o que, como meus leitores já sabem, é uma raridade aqui em casa). Quando de repente eu escuto meu filho de 9 anos comentando com minha filha de 6:

FILHO: Agora só falta fazer um bloquinho de Wi Fi e está pronta.

Um bloquinho de wifi?? Estou intrigada.

EU (precisando me meter no papo): Com assim filho, um bloquinho de wifi? Tipo um modem?

EU: Entendi… e usar o google pra quê por exemplo?

FILHO (após um momento de reflexão): Ah, para se eu precisar pesquisar como fazer fogo, por exemplo.

EU (morrendo de rir): Então tá.

Apresento à vocês caros amigos, a nova geração de montadores de cabanas. Elas são super tecnológicas vêm com wi-fi embutido. Só não possuem fósforos, isqueiros ou boca de fogão.
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*Meu filho fala “desencana”.. o seu também? Acho uma linguagem descolada demais para um menino de nove anos…