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A viagem que quase não foi (parte 1)

Então nós íamos para Disney.

Eu não podia acreditar, nós íamos para a Disney! O suprassumo das viagens com crianças, o lugar tido como o mais feliz do mundo, a terra do Mickey Mouse! (Tudo bem que criança se diverte em qualquer lugar, na chuva, na rua, na fazenda e, bom, obviamente, na Disney.)

A ideia era esperar chegar mais perto da data para dar a notícia às crianças, afinal, para quê deixar todo mundo ansioso antes da hora? E juro que eu tinha intenção de cumprir com o plano. Mas os dias foram passando e descobri que eu não tinha maturidade alguma para esconder uma notícia de tamanha magnitude.

Resultado: Contei faltando três semanas.

Não preciso dizer que eles ficaram em êxtase.

Ah, um detalhe: eu iria sozinha com os três. Simon, na época com sete anos, Stella com cinco e Lea com sete meses. Ou melhor, eu ia viajar sozinha com os três do Brasil até Miami, onde encontraria uma amiga que mora lá e também tem três filhos, e juntas iríamos para Orlando fazer uma farra boa. Eu tinha uma porção de milhas para vencer no fim do mês, os filhos da minha amiga estariam de férias, então foi um match.

Não preciso dizer que foram áudios e áudios de whatsapp para combinar todos os detalhes, decidir hotel, parques, lanches, horários.

Estávamos todos em êxtase.

A parte mais legal de ir para a Disney é que você já começa a viajar antes mesmo de entrar no avião. Aliás, hoje é assim com todas as viagens. Hoje em dia você pode fazer pesquisas no Google e descobrir quais os melhores pontos turísticos, os melhores restaurantes e passeios antes mesmo de tirar o seu passaporte.

Se por um lado isso é ruim tira um pouco do mistério e da magia do lugar, por outro, você já chega pronto para a guerra. Já sabe em quais brinquedos ir, quanto tempo vai ficar em cada fila, em qual lugar vale mais a pena comer e até onde planejar as paradas do xixi (relevantes quando se tem filhos pequenos).

Existe até um aplicativo que mostra em tempo real o tamanho da fila de cada brinquedo (juro), e você pode acessar de qualquer lugar do planeta.

Então, dias antes da viagem, vira e mexe eu estava no trânsito ou na fila de supermercado, e abria o aplicativo para ver o que estava rolando em matéria de fila.

Sinceramente? Isso não fazia nada bem para meus níveis de ansiedade.

Inspira, expira, não pira. Se estamos indo para a chuva, é para se molhar. Se for para surtar por causa de fila melhor não ir.  

Pois bem. decidimos hotel, parques, refeições. Escolhemos até roupas combinando e mandamos fazer camisetas iguais para todos, estilo excursão.

Repassamos a programação duzentas vezes. Fizemos um calendário de contagem regressiva que íamos riscando, dia pós dia. As crianças estavam empolgadas. Eu estava empolgada. Minha amiga de Miami estava empolgada.

O que nos aguardava era viagem muito calma e tranquila, como vocês podem imaginar.

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5 coisas que eu deveria aprender com minha filha de 4 anos

1. AMOR PRÓPRIO


“Mamãe, eu não estou linda?” Ela pergunta, depois de se maquiar (como só uma criança de quatro anos pode se maquiar), enquanto dá rodopios alegres em frente ao espelho. Seu sorriso vai de orelha a orelha. Ela está genuinamente feliz com o que vê no espelho. Auto aceitação e amor próprio são coisas tão óbvias que nem passam pela sua cabeça.
Enquanto isso, quando foi a última vez que você se olhou no espelho e perguntou a si mesma “MEU DS DO CÉU! Eu não estou linda?!”

2- DIZER NÃO


Filha, vamos arrumar o quarto? Não.
Vamos guardar seus brinquedos? Não.
Vamos colocar uma roupa para sair? Não!
Ela é mestre nessa arte.

E eu, mesmo depois dos trinta, sigo ainda ensaiando um não aqui e um acolá.

3-A CAPACIDADE DE MARAVILHAR-SE COM OS MENORES ACONTECIMENTOS


Ver um cachorro na rua, apertar o botão do elevador ou inventar uma brincadeira nova: tudo é motivo para sorrir, maravilhada, como se nada no mundo fosse mais especial do que aquilo. Entrar no banho quentinho. Colocar o pé no mar, encontrar uma concha legal. Fazer biscoitos de chocolate. Achar uma joaninha é ganhar na loteria!

4-SER LIVRE


Moça, aonde você vai com essa sacola? Moço por que você tem uma capinha de celular amarela? Por que por que por que por que??
Se sentir livre para falar o que se tem vontade de falar e perguntar o que quer. E para sair de casa do jeito que der na telha. Quer ir de pijama? Vai. Quer ir de fantasia da Elsa? Sem problemas. Ultimamente a moda tem sido sair com um sapato diferente em cada pé.
Ser livre é ser espontâneo, autêntico, curioso. Não ter medo de julgamentos, de se expor, de errar e tentar de novo. De ter sonhos grandes e pequenos e ir atrás deles sem medo de ser feliz.

5- SER DETERMINADA


Crianças de quatro anos não desistem. Elas tentam, tentam e tentam mais. Elas confiam, persistem, e seguem persistindo. Eles caem e levantam, caem de novo. E de novo. E quantas vezes forem necessárias. Já pensou se crianças desistissem? Não aprenderiam a andar ou se comunicar. A ler, escrever, ou a fazer qualquer coisa. Enquanto isso as inseguranças podem deixar nós, adultos, paralisados por anos a fio…

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Todas as estrelas no céu

EU: “Olhem só as estrelas, que lindas, crianças!” 

Chamo as crianças para admirarem o céu estrelado comigo. É uma raridade um céu estrelado em São Paulo.

Simon e Stella, do alto de seus 11 e 8 anos, olham para cima sem emoção alguma e reviram os olhos com sua leve arrogância juvenil como se já não aguentassem mais a mãe idosa lhes apontando algo tão banal quanto a natureza.

Mas Lea, de 4 anos, olha para cima maravilhada. Que delícia que é uma crianças de quatro anos!!

Ficamos ali, nós duas, em silêncio alguns minutinhos, apreciando o céu escuro com seus pontinhos luminosos, que são quase impossíveis de enxergar em São Paulo. Foram meses difíceis, marcados por perdas irreparáveis, dores agudas. Momentos de medo e incerteza. Então é gostoso estar junto com quem se ama. É bom se distrair.

Até que ela pergunta, de repente:

FILHA: “Mamãe, né que todo mundo que morre mora no céu?”

Olho para ela. Seus olhos brilham e seu rostinho reluz com a sabedoria e a compreensão ingênua que só as crianças têm. Uma visão de mundo só delas, que inevitável e infelizmente vai sendo desconstruída com o tempo. Ela insiste:

Suspiro fundo e respondo:

EU: “Não sei, filha.” 

Porque eu não sei mesmo. Para onde vão os nossos queridos, nossos amores, as pessoas que nos deixam aqui para ir para outra dimensão?

Eles vão para outra vida? Somem? Evaporam? Confesso que tenho pensado muito nisso nos últimos meses. Desde que essa pandemia começou e que tantas pessoas queridas se foram.

FILHA: “Vão sim, mãe. Eles moram no céu, junto com as estrelas. O nono. A Marisa. O vizinho. A irmã da sua amiga.”

Ela começa a listar com seus pequenos dedinhos as pessoas amadas que perdemos nos últimos seis meses. Pessoas que nos deixaram com muita dor e uma saudade tão grande que nem cabe na gente.

Sinto o coração apertar. 

Acho que ela percebe. Porque pega minha mão e com sua certeza infinita, diz:

FILHA: “E se você ficar com saudades é só olhar para cima, tá?”

Deixo a dica para todos os saudosos como eu.

Não sei se funciona.

Mas é uma ideia. 

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Chupeta, pra que te quero?

Lembro-me de quando cheguei com meu primeiro filho da maternidade, onze anos atrás. Eu e meu marido havíamos decidido que não daríamos chupeta a ele. Para quê, dizíamos, chupeta é coisa de pais preguiçosos, que não querem verdadeiramente se dedicar à acalmar e educar os filhos.

Pois é. Eu já fui essa mãe, juro. Durou 5 dias.

Corta para algumas noites mal dormidas mais tarde: fui à farmácia, comprei meia dúzia de chupetas e passei a dar graças aos céus por elas existirem. Elas eram mágicas!! Graciosas, com o design fantástico, anatômico e colorido, e, o mais importante: faziam meu filho fechar o berreiro se acalmar. A paz e o silêncio voltaram a reinar no meu lar. Eu podia finalmente ver uma luz no fim do túnel.

Lembro-me deste momento,  observando meu bebê sugando a chupeta, num quase êxtase de paz. Perguntando-me o que mais eu jurei que jamais faria e mais tarde acabaria fazendo (muitas coisas, já adianto por aqui. Mas isso é coisa para outro texto.)

Enfim. Cortamos para quase três anos depois. Meu bebê já é um marmanjão, fala tudo, usa o banheiro quase como adulto e até ganhou uma irmãzinha. O dentista jura que se eu não tirar a chupeta ele ficará dentuço feito a Mônica e terá problema de mordida. Além disso, a chupeta em uma certa idade não é muito aceita socialmente. Então o que temos de fazer? Tirar a santa chupeta.

Mas tirar a chupeta de uma criança nunca é uma coisa fácil. Envolve livrar-se de hábitos antigos e adquirir novos. Envolve sair da zona de conforto. Envolve amadurecer para a próxima etapa. Envolve abrir mão de algo pelo qual se tem uma enorme dependência. Já pensou? Se agora na vida adulta alguém chega para você e diz:

“Veja bem querido, o seu uso exacerbado de celular te faz um mal danado, teremos que jogar ele fora. Mas não se preocupe, vou deixar você escolher um brinquedo bem legal no lugar do seu celular!!!”

Você manda a pessoa para onde? Pois é. Enfim, chegou a hora de tirar a tão amada chupeta. Aquela companheira para todas as horas, que dava alento nos momento difíceis, ajudava a aplacar o choro e a dor. Levo o meu pequeno herói de três anos de idade para o parque, onde jogamos as chupetas para os peixes no lago.

Foram três dias de sofrimento, talvez mais. Mas ele conseguiu superar com estoicismo e se acostumar com a nova realidade – porque crianças se acostumam com tudo.

Bom, minha segunda filha decidiu que gostaria de dar suas chupetas aos pássaros. Há uma linda árvore aqui no meu bairro que foi apelidada de Árvore das Chupetas, e quando chegam à idade certa, crianças de todas as ruas vêm e amarram suas chupetas nos galhos, despedindo-se delas com água nos olhos, dor no coração e uma coragem que eu nunca vi.

Foi difícil, mas sobrevivemos.

Por fim, chegou a vez de minha terceira filha. Já entrou nessa vida com dois irmãos-professores mais velhos. Esperta, rápida no raciocínio, não acredita em fada do dente, nem em coelhinhos dos ovos de chocolate e muito menos em animais falantes. Quando perguntei se ela queria dar a chupeta para os pássaros ou para os peixes, ela respondeu:

Achei sensato. Então perguntei o que ela queria fazer – porque claramente ela sabia muito mais do assunto do que eu. Demoramos para decidir como faríamos, mas por fim ela decidiu trocar as chupetas por uma linda boneca de pano que ela viu na Tok Stok.

Resoluta, ela entrou na loja com sua sacolinha de chupetas e pediu para a moça o que queria. Pagou a boneca em chupetas (só que não) e fomos embora. Decidida, bem resolvida e num nível de determinação que as pessoas só atingem depois dos quarenta. Olhei para ela num misto de orgulho e dor. Sabia o que viria a seguir, naquela noite, quando ela deitasse para dormir.

A noite doeu. E assim seguiu-se por várias noites. Ainda dói um pouco, na verdade.

Crescer não é fácil. Mas é preciso.

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Um filho de dez anos

Outro dia fui preencher um formulário do meu filho e fiquei meio atônita ao colocar no espaço de idade o número 10. Dez anos. DEZ. Dois dígitos. Pensei: Caramba. Como foi que isso aconteceu?

A sensação é… que eu passei de ano na escola da maternidade. Ou sei lá, de fase no videogame. Tipo quando você sai do primário pro ginásio, sabe? Quando a gente era criança e passava da 4a para a 5a série e tudo ficava um pouquinho mais difícil e assustador? Os professores eram mais sérios, as matérias mais complicadas…

E aí eu fiquei pensando… o que significa para mim, afinal, ter um filho de dez anos? A lista que eu rabisquei saiu mais ou menos assim:

Ter um filho de dez anos é:

Entender, na prática, o que significa quando dizem que o filho é do mundo, e não seu.

É ter medo dele sofrer bullying. Dele fazer bullying. Dele sofrer. Porque o mundo é duro, às vezes.

É deixar ele ir. Um pouco… só um pouquinho. E tentar ficar bem com isso.

É poder sentar junto no Netflix e assistir algo semi-adulto que os dois curtam. E rir juntos!

É aprender que nem sempre vale a pena brigar por um pum. Às vezes é melhor fingir que não ouviu.

É ter que aprender a confiar no que você ensinou até hoje, porque a vida/escola/amigos já começam a testá-lo, e nunca é fácil.

É aceitar que alguma hora ele tem que ir no acampamento com os amigos… você não pode segurar ele debaixo da sua asa pra sempre!

É não ficar triste quando ele está mais afim da companhia dos amigos do que da sua.

É saber que ele te ama muito, mesmo que não precise mais tanto assim de você. No fundo ele sempre vai precisar, um pouquinho.

É ouvir longos e detalhados relatos sobre jogadas de futebol na escola e fases de videogame.

É aceitar a enxurrada de hormônios que vêm, cheia de destrambelhados ataques de fúria.

É seguir separando as brigas cabeludas com a irmã de 7 anos. O dia inteiro. Por motivos cada vez mais elaborados, que nem Freud nem Einstein saberiam explicar.

Mas também perceber que de repente ele está tendo momentos de conversas despreocupadas e cheias de cumplicidade com ela.

É aceitar que nem sempre você vai conseguir lembrar de todas as coisas fofas e palavrinhas engraçadas que ele falava, nem de todas as fases que ele passou. É entender que algumas memórias se perdem no tempo. E tudo bem! Novas vão se formando.

É aceitar que nem sempre sua opinião vai prevalecer, e faz parte…. A palavra final AINDA é sua! Aproveite!

É constatar que, apesar de tudo isso, ele ainda cabe, sim, no seu colo quando precisa.

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A fada do dente (ou seja, eu)

Depois de quase sete anos de vida, minha filha entrou naquela fase em que os dentes começam a ficar moles (aaah que aflição!) e cair. Ela está com duas janelinhas na boca. Eu achei que não ficaria tão emocionada com esse momento, afinal, já passei por isso com o meu mais velho faz uns anos e foi tudo suuuper descolado e divertido. Rolou fada do dente. Rolou piada. Rolou guardar o dente para o futuro (onde raios eu coloquei a caixinha??)

Mas não. Com minha segunda filha me vi completamente abalada, tomada por sentimentos do tipo “como o tempo está passando rápido”e “como foi que isso aconteceu?” Não sei se por eu estar vivendo essa experiência mais velha (alô 30 anos!) e pela consequente “maturidade” que acompanha toooda essa idade.

Perder os dentes de leite é uma coisa tão tão comum. Todo mundo passa por isso. Mas, para mim, esse momento está marcando toda uma nova era de independência. De maturidade física e emocional dela que, confesso, me trazem sentimentos conflitantes. É lógico que eu quero vê-la crescendo independente e feliz. Mas por outro lado… poxa, onde é que eu entro nisso?

Sempre estive presente nos momentos importantes. Primeiros passinhos. Primeiros xixis no lugar certo. Primeiro pesadelo. Primeira virose, primeiro antibiótico… Primeiro livrinho favorito. Primeira briga com o irmão (que inaugurou essa calorosa relação fraternal de tapas e beijos deles)… E agora, de repente, percebo que ela já tem sua própria vidinha, com outras prioridades. Suas próprias conversas, encontros, compromissos sociais que não me incluem. Piadas internas que não são comigo. Talvez os próximos dentes dela nem caiam na minha presença! Quem sabe ela estará com as amigas, na aula de dança ou no inglês quando isso acontecer!!

Enfim. Só sei que minha menina que ontem era um bebê agora tem grandes responsabilidades para com sua arcada dentária. Acabou a primeira chance, esses dentes agora são – se tudo der certo – para sempre.

PARA SEMPRE.

O ‘para sempre’ não assusta um pouco?

Para ajudar em toda essa minha crise, estávamos ontem conversando sobre o que a fada do dente ia trazer pra ela (eu adoro a fada do dente), quando ela olhou para mim com a sua nova cara de menina sabe-tudo, colocou a mão na cintura e disse:

Quem contou? Sério. Poxa vida.

Cortaram meu barato.

EU (chocada): COMO ASSIM? A FADA DO DENTE POXA. ELA SEMPRE TRAZ UM LIVRO, UM GIBI OU UM DINHEIRINHO

Meu filho decide entrar na conversa. Tira o rosto de dentro de seus quadrinhos do Asterix e Obelix e diz:

Virando para a irmã, com um ar conspirador:

FILHO: É a mamãe, a fada.

FILHA: Eu seeei que é a mamãe.

É possível que nem realizar o meu papel de fada tranquilamente eu vou conseguir?

EU (com ar de criança birrenta): NÃO SOU NÃO!  É A FADA DO DENTE, MESMO!

FILHO OLHA PRA FILHA, CONSPIRADOR: Ok ok, deixa ela fingir que é ela.

FILHA PARA O FILHO, RINDO: Ok.

ELES: Risos.

EU: crise interna

 

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O dia em que ele não me deu beijo de tchau

Imagine a cena, clássica:

Uma mãe leva seu filho de nove anos à colônia de férias e, na frente dos amigos dele fala:
Até aí tudo bem.
Mas aí ela completa com:
Na frente de TODOS OS AMIGOS!! Alguns riem, outros fazem cara de estarem achando graça. O menino, é claro, fica vermelho de vergonha e lança à mãe um olhar de súplica, como quem diz: “mãe!!! Para!!!”
Consegue imaginar a cena? Esse tipo de cena que você sempre achou o cúmulo do ridículo e que jurou que jamais faria seu filho passar por ela?
Então.
Eu achava que este dia não chegaria para mim. Que eu era uma mãe muito descolada para fazer meu filho pagar um mico desses. E que ele JAMAIS teria vergonha de mim, afinal, eu sou uma mãe tãoooo cool. Tão divertida, tão antenada e moderna!!!
Ledo engano.
Neste dia, descobri que posso até ser uma mãe descolada, mas que apesar disso, ainda sou uma mãe. Sabe, mãe??
Que manda não esquecer de levar o casaquinho porque pode esfriar.
Que dá aquela passadinha no quarto deles à noite para verificar se estão respirando.
Que fala coisas chatas tipo “chega de TV por hoje” ou “na volta a gente compra.”
E que pede o fatídico beijo de tchau na frente de TO-DOS OS AMIGOS .
Dá pra acreditar que eu fiz uma coisa desses com o menino? Pobrezinho.
A moral que fica é: nunca diga nunca. Porque um dia, o nunca chega.
Mas tudo bem. Já aprendi. Amanhã tomarei o cuidado de dar um beijo de tchau DENTRO do carro, respeitando o perímetro permitido pela legislação infanto-juvenil.
Ah, e não posso esquecer de mandá-lo colocar um casaco na mochila… achei o ar condicionado lá forte.
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Sobre perdas e lutos

Se tem um programa que eu amo fazer com as crianças é ir à livraria. Além de ser perto de casa e”kid-friendly”, a diversidade de olhares que existe lá dentro é incrível! Cada livro traz uma história, uma perspectiva diferente sobre o mundo, e eu adoro poder mostrar isso para as crianças.

Então, depois da livraria aqui perto de casa passar seis meses fechada para reforma, ficamos eufóricos quando ela reabriu há algumas semanas. E, é claro, para comemorar a sua volta, combinei que cada um poderia escolher um livro.

Chegamos, empolgados, já cumprimentando Susana, a gentil e simpática vendedora da área infantil que conheço há anos.

Então minha filha responde, solenemente:

“Sério?” pergunta Susana, confusa.

“É. Mas um bebê morreu na barriga da minha mãe, e aí ele não conseguiu nascer, e aí ficou ‘só’ três”.

(Detalhe no ‘‘ três.)

A vendedora olha para mim não sabendo o que responder. Dou um sorriso e digo que isso aconteceu faz anos, e que não sei o que aconteceu que minha filha está adorando falar desse assunto agora, mas que está tudo bem, não se preocupe. Susana sorri, e seguimos batendo papo.

E então me lembro que, algumas semanas atrás, meu filho veio me perguntar se eu tinha um bebê “que não nasceu”.

Respondi que sim, meio pega de surpresa, até porque nunca comentei com ele do ocorrido. Ele deve ter ouvido eu falar sobre isso com alguém. Expliquei que às vezes as coisas dentro da barriga da mãe não se desenrolam muito bem e aí o bebê pode acabar não nascendo.

Ele escutou, processou a ideia e, sem mais perguntas, se afastou. Então, imagino que ele deve ter corrido contar para a irmã de seis anos, porque alguns minutos depois foi ela quem me apareceu com perguntas. Ela, diferente do irmão, estava completamente obcecada pelo assunto:

Conforme ela ia perguntando, eu respondia. Me pareceu importante dar abertura para ela poder elaborar a ideia, mesmo sendo uma história dolorida. E eis que, poucos minutos depois, ela de fato cansou do assunto e seguiu a vida.

Irmãos mais velhos são sujeitinhos fofoqueiros, não são? Acabo me lembrando de quando eu era pequena e descobri como os bebês são feitos. Segundos depois, fui correndo contar tu-di-nho para a minha irmã dois anos mais nova (que, diga-se de passagem, lidou com a ideia com muito mais classe e maturidade do que eu, que estava absolutamente chocada)

Enfim. Chamo as crianças para ver as novas edições dos livros do Monteiro Lobato. Lemos meia dúzia de histórias. Conversamos mais um pouco com a Susana. Corremos de um lado para o outro querendo absorver cada novo canto da livraria.

E então – em meio à vários: não, não pode dois. O combinado foi um livro só, lembra? A Susana pode separar para a próxima vez. Só um pra cada um, meu povo, só um, já falei… – finalmente, escolhemos um livro para cada e vamos para casa.