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A viagem que quase não foi (parte 2)

Ou, O Check In

“Está tranquilo, vai dar tudo certo” era meu mantra naquele dia de viagem. Arrumei as malas – duas grandes, uma de mão, e uma bolsa para a bebê. Estava tudo previamente combinado: eu iria puxar as malas grandes e a da pequena, enquanto o Simon empurraria o carrinho, e a Stella puxaria a mala de mão.

Todos estavam felizes e satisfeitos com suas funções.

Dani, meu querido marido, nos leva para o aeroporto e nos acompanha na fila do check in. É tudo um pouco dramático demais. Ele está triste que nós vamos partir, e as crianças agem como se nunca mais fôssemos nos ver na vida.

Choram e agarram-se às suas pernas.


#Drama é o nosso lema.

Entrego meus documentos para a moça do check in. Mara é o seu nome.

– Então é só você e as crianças?

– Isso mesmo.

– Você está com a autorização do pai? Sem a autorização do pai você não viaja.

– Estou, sim. – Trouxe duas vias impressas PARA CADA FILHO, com firma reconhecida no cartório.

– Dos três? – Ela quer saber.

– Mãe a gente já está chegando no avião? – Stella aparece do meu lado e pergunta.

– Já, meu amor, espera um minuto, tá? – Olho para Mara – sim, dos três.

Vasculho a mala de mão atrás das autorizações. Sei que está aqui em algum lugar.

Tiro mamadeira, brinquedo, chupeta extra, roupa limpa, casacos de todos, pacote de bolacha, e vou enfileirando tudo aos olhos de Mara. Até que encontro. Minha linda pastinha da viagem – quando eu quero, eu sou organizada, juro.

Mas eu preciso querer muito.

Alcanço as cópias da autorização que estão dobradas e impecáveis num plástico só para elas e coloco-as em cima do balcão. Olho vitoriosa para Mara.

Ela encara minhas autorizações por meio segundo.

Agora as crianças já estão correndo pelo saguão do aeroporto, abaixando-se para passar entre as filas, e gargalhando felizes.

Dani está atrás deles.

Limpo a garganta e tento usar a minha voz mais gentil.

– Como funciona a questão do bercinho para a minha bebê? Tentei reservar, mas não consegui. – Na verdade, falaram que eu podia pagar 399 dólares e garantir, ou tentar reservar na hora do check in.

399 dólares dá praticamente uma passagem nova. Optei pela segunda opção.

Mara digita um pouco mais no computador. Nisso Stella cai e machuca o joelho, mas o Dani está com ela. É tudo um caos, mas é um caos controlado.

Vai dar tudo certo!

Mara segue digitando. Simon vem até mim e diz que quer ir no banheiro.

– Pede para o papai te levar, amor, que eu estou um pouco ocupada agora, tá?

Me pergunto se Mara está jogando paciência.

Será que as outras mães pagaram 399 dólares pelos seus berços e eu sou a única que deixei para fazer no check in? Dou um suspiro e olho para meu pacote gorducho de sete meses. Vamos juntinhas na cadeira, eu e você, você e eu.

Agradeço a Mara, pego as passagens e é isso.

Bagagem despachada, check in realizado. Hora de partir. Olho para meu marido, de repente me sinto insegura. Acho que ele percebe, porque pergunta:

– Mas Dé, você tem certeza de vai ficar bem com os três sozinha no avião?

Dou o meu sorriso mais confiante. Sou a própria Angelina Jolie com sua dúzia de filhos biológicos e adotados. Plena, determinada, linda e meio misteriosa.

Por dentro estou: Meu santo D’us me ajuda… espero que ninguém faça birra, que os ouvidos não fiquem entupidos, que eles durmam a noite toda, que não atrapalhem os outros passageiros. Que eu tenha sanidade mental.

Verifico a mala de mão de novo. Leite em pó suficiente para seis mamadeiras. Muitas fraldas e lenços umedecidos. Trocas de roupas para todos. Um livrinho de atividades para cada um e muitos, muitos lanches.

Como sou otimista, ainda coloquei o meu livro junto.

Vai que eu tenho alguns minutos livre, não é mesmo?

Continua…

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A viagem que quase não foi (parte 1)

Então nós íamos para Disney.

Eu não podia acreditar, nós íamos para a Disney! O suprassumo das viagens com crianças, o lugar tido como o mais feliz do mundo, a terra do Mickey Mouse! (Tudo bem que criança se diverte em qualquer lugar, na chuva, na rua, na fazenda e, bom, obviamente, na Disney.)

A ideia era esperar chegar mais perto da data para dar a notícia às crianças, afinal, para quê deixar todo mundo ansioso antes da hora? E juro que eu tinha intenção de cumprir com o plano. Mas os dias foram passando e descobri que eu não tinha maturidade alguma para esconder uma notícia de tamanha magnitude.

Resultado: Contei faltando três semanas.

Não preciso dizer que eles ficaram em êxtase.

Ah, um detalhe: eu iria sozinha com os três. Simon, na época com sete anos, Stella com cinco e Lea com sete meses. Ou melhor, eu ia viajar sozinha com os três do Brasil até Miami, onde encontraria uma amiga que mora lá e também tem três filhos, e juntas iríamos para Orlando fazer uma farra boa. Eu tinha uma porção de milhas para vencer no fim do mês, os filhos da minha amiga estariam de férias, então foi um match.

Não preciso dizer que foram áudios e áudios de whatsapp para combinar todos os detalhes, decidir hotel, parques, lanches, horários.

Estávamos todos em êxtase.

A parte mais legal de ir para a Disney é que você já começa a viajar antes mesmo de entrar no avião. Aliás, hoje é assim com todas as viagens. Hoje em dia você pode fazer pesquisas no Google e descobrir quais os melhores pontos turísticos, os melhores restaurantes e passeios antes mesmo de tirar o seu passaporte.

Se por um lado isso é ruim tira um pouco do mistério e da magia do lugar, por outro, você já chega pronto para a guerra. Já sabe em quais brinquedos ir, quanto tempo vai ficar em cada fila, em qual lugar vale mais a pena comer e até onde planejar as paradas do xixi (relevantes quando se tem filhos pequenos).

Existe até um aplicativo que mostra em tempo real o tamanho da fila de cada brinquedo (juro), e você pode acessar de qualquer lugar do planeta.

Então, dias antes da viagem, vira e mexe eu estava no trânsito ou na fila de supermercado, e abria o aplicativo para ver o que estava rolando em matéria de fila.

Sinceramente? Isso não fazia nada bem para meus níveis de ansiedade.

Inspira, expira, não pira. Se estamos indo para a chuva, é para se molhar. Se for para surtar por causa de fila melhor não ir.  

Pois bem. decidimos hotel, parques, refeições. Escolhemos até roupas combinando e mandamos fazer camisetas iguais para todos, estilo excursão.

Repassamos a programação duzentas vezes. Fizemos um calendário de contagem regressiva que íamos riscando, dia pós dia. As crianças estavam empolgadas. Eu estava empolgada. Minha amiga de Miami estava empolgada.

O que nos aguardava era viagem muito calma e tranquila, como vocês podem imaginar.

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Abundância

Essa história começa num consultório médico. 

É fim do dia, e minha filha mais velha está passando por um procedimento chatinho envolvendo anestesia, pinças e curativos. 

O doutor é distinto e gentil, e escuta música clássica enquanto trabalha. O único som do ambiente é a valsa de Chopin que toca solene na rádio Cultura FM. 

É nesse momento que a minha pequena Lea, que está lá só de acompanhante, aponta muito interessada para a decoração e pergunta: 

O doutor, muito solícito e didático, explica: 

Para quê? Eu te pergunto…

Stella, que estava tratando o machucado, quase pula da maca com a risada frenética. 

A palavra abundância é nova para elas. 

E pelo visto, muito engraçada.

Elas começam a exclamar a palavra abundância uma para a outra, como se fosse um mantra. 

Um mantra hilário. 

E continuam assim até o fim da consulta.

Que bom que o médico é tranquilo e leva na esportiva. 

E foi assim que um dia aterrorizante de procedimentos médicos se tornou o dia em que elas tomaram conhecimento da palavra abundância.

Digamos que o resto do dia foi abundante em matéria de diversão e farra.

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A tapioca chegou a minha casa

Eu sei, eu sei. Estou cinco anos atrasada. Talvez mais. 

Tudo começou um mês atrás. Meu filho chegou para mim e perguntou:

FILHO: “Mãe, por que a gente nunca faz tapioca?”

Ele havia acabado de voltar da casa de um amigo, onde aprendeu a incrível arte da tapioca. 

Oras, o que posso responder? Apenas a verdade, nada mais que a verdade:

EU: “Porque eu não sei fazer tapioca, filho.” 

Ele olha pra mim incrédulo.

Entro na defensiva, afinal  estou na quinta série  maturidade as vezes nos falta, mesmo quando somos adultos. 

EU (super madura): “Mas olha, eu sei fazer almôndega, lasanha, batata gratinada…” começo a enumerar.

Ele revira os olhos pra mim e começa a vasculhar o armário da cozinha.

ELE: “Não tem tapioca?” 

EU: “Não, não tem, filho” 

Quando a tapioca virou febre alguns anos atrás, comprei para experimentar e não curti. Pareciam bolinhas de isopor grudadas e sem gosto nenhum. Na época ninguém em casa gostou e o saco inteiro acabou indo parar no lixo.

ELE: “É porque você não sabia fazer, mãe.” Ele insiste. “É gostoso, sério.”

Pois bem, me dou por vencida.

Pego a minha bolsa e saímos para comprar a tal da tapioca. 

Na volta, ele arregaça as mangas e começa a me ensinar essa arte culinária. A cozinha se transforma num caos instantâneo, mas tudo certo, o importante é incentivar a independência, não é mesmo?

Vamos que vamos.

Ele despeja a tapioca, mexe a panela, remexe, espalha o queijo. Admiro sua desenvoltura na cozinha – até pouco tempo atrás ele nem sabia como usar os botões do microondas. 

Aliás, ele nem alcançava o microondas.

ELE: Tá pronto mãe.”

Olho para a tapioca. 

A massa granulada dobrada como um wrap de queijo derretido, e todo o amor e independência do meu filho refletidos naquele pequeno prato de sobremesa. 

Sentamos na mesa e comemos juntos. Ele, satisfeito consigo mesmo. Eu, com uma pontada de orgulho, não vou negar. 

De repente a tapioca pareceu muito mais deliciosa do que eu me lembrava. Um verdadeiro manjar dos céus. Será que é isso o que chamam de Comer Afetivo

Ele finaliza:

ELE: “E se você passar cream cheese, fica muito bom.” 

E não é que ficou mesmo?

Tudo isso pra dizer que a tapioca chegou com tudo na minha casa, marcando uma nova fase de independência alimentar das crianças. Desde então foram frigideiras e frigideiras de lanchinhos e cafés da manhã de tapioca – sempre de queijo. 

Nós até tentamos uma de banana, mas não deu certo! Tivemos de jogar fora. 

Faz parte do jogo né? 

Nem sempre as 

coisas funcionam. 

E tudo bem. 


 

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5 coisas que eu deveria aprender com minha filha de 4 anos

1. AMOR PRÓPRIO


“Mamãe, eu não estou linda?” Ela pergunta, depois de se maquiar (como só uma criança de quatro anos pode se maquiar), enquanto dá rodopios alegres em frente ao espelho. Seu sorriso vai de orelha a orelha. Ela está genuinamente feliz com o que vê no espelho. Auto aceitação e amor próprio são coisas tão óbvias que nem passam pela sua cabeça.
Enquanto isso, quando foi a última vez que você se olhou no espelho e perguntou a si mesma “MEU DS DO CÉU! Eu não estou linda?!”

2- DIZER NÃO


Filha, vamos arrumar o quarto? Não.
Vamos guardar seus brinquedos? Não.
Vamos colocar uma roupa para sair? Não!
Ela é mestre nessa arte.

E eu, mesmo depois dos trinta, sigo ainda ensaiando um não aqui e um acolá.

3-A CAPACIDADE DE MARAVILHAR-SE COM OS MENORES ACONTECIMENTOS


Ver um cachorro na rua, apertar o botão do elevador ou inventar uma brincadeira nova: tudo é motivo para sorrir, maravilhada, como se nada no mundo fosse mais especial do que aquilo. Entrar no banho quentinho. Colocar o pé no mar, encontrar uma concha legal. Fazer biscoitos de chocolate. Achar uma joaninha é ganhar na loteria!

4-SER LIVRE


Moça, aonde você vai com essa sacola? Moço por que você tem uma capinha de celular amarela? Por que por que por que por que??
Se sentir livre para falar o que se tem vontade de falar e perguntar o que quer. E para sair de casa do jeito que der na telha. Quer ir de pijama? Vai. Quer ir de fantasia da Elsa? Sem problemas. Ultimamente a moda tem sido sair com um sapato diferente em cada pé.
Ser livre é ser espontâneo, autêntico, curioso. Não ter medo de julgamentos, de se expor, de errar e tentar de novo. De ter sonhos grandes e pequenos e ir atrás deles sem medo de ser feliz.

5- SER DETERMINADA


Crianças de quatro anos não desistem. Elas tentam, tentam e tentam mais. Elas confiam, persistem, e seguem persistindo. Eles caem e levantam, caem de novo. E de novo. E quantas vezes forem necessárias. Já pensou se crianças desistissem? Não aprenderiam a andar ou se comunicar. A ler, escrever, ou a fazer qualquer coisa. Enquanto isso as inseguranças podem deixar nós, adultos, paralisados por anos a fio…

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Todas as estrelas no céu

EU: “Olhem só as estrelas, que lindas, crianças!” 

Chamo as crianças para admirarem o céu estrelado comigo. É uma raridade um céu estrelado em São Paulo.

Simon e Stella, do alto de seus 11 e 8 anos, olham para cima sem emoção alguma e reviram os olhos com sua leve arrogância juvenil como se já não aguentassem mais a mãe idosa lhes apontando algo tão banal quanto a natureza.

Mas Lea, de 4 anos, olha para cima maravilhada. Que delícia que é uma crianças de quatro anos!!

Ficamos ali, nós duas, em silêncio alguns minutinhos, apreciando o céu escuro com seus pontinhos luminosos, que são quase impossíveis de enxergar em São Paulo. Foram meses difíceis, marcados por perdas irreparáveis, dores agudas. Momentos de medo e incerteza. Então é gostoso estar junto com quem se ama. É bom se distrair.

Até que ela pergunta, de repente:

FILHA: “Mamãe, né que todo mundo que morre mora no céu?”

Olho para ela. Seus olhos brilham e seu rostinho reluz com a sabedoria e a compreensão ingênua que só as crianças têm. Uma visão de mundo só delas, que inevitável e infelizmente vai sendo desconstruída com o tempo. Ela insiste:

Suspiro fundo e respondo:

EU: “Não sei, filha.” 

Porque eu não sei mesmo. Para onde vão os nossos queridos, nossos amores, as pessoas que nos deixam aqui para ir para outra dimensão?

Eles vão para outra vida? Somem? Evaporam? Confesso que tenho pensado muito nisso nos últimos meses. Desde que essa pandemia começou e que tantas pessoas queridas se foram.

FILHA: “Vão sim, mãe. Eles moram no céu, junto com as estrelas. O nono. A Marisa. O vizinho. A irmã da sua amiga.”

Ela começa a listar com seus pequenos dedinhos as pessoas amadas que perdemos nos últimos seis meses. Pessoas que nos deixaram com muita dor e uma saudade tão grande que nem cabe na gente.

Sinto o coração apertar. 

Acho que ela percebe. Porque pega minha mão e com sua certeza infinita, diz:

FILHA: “E se você ficar com saudades é só olhar para cima, tá?”

Deixo a dica para todos os saudosos como eu.

Não sei se funciona.

Mas é uma ideia. 

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Chupeta, pra que te quero?

Lembro-me de quando cheguei com meu primeiro filho da maternidade, onze anos atrás. Eu e meu marido havíamos decidido que não daríamos chupeta a ele. Para quê, dizíamos, chupeta é coisa de pais preguiçosos, que não querem verdadeiramente se dedicar à acalmar e educar os filhos.

Pois é. Eu já fui essa mãe, juro. Durou 5 dias.

Corta para algumas noites mal dormidas mais tarde: fui à farmácia, comprei meia dúzia de chupetas e passei a dar graças aos céus por elas existirem. Elas eram mágicas!! Graciosas, com o design fantástico, anatômico e colorido, e, o mais importante: faziam meu filho fechar o berreiro se acalmar. A paz e o silêncio voltaram a reinar no meu lar. Eu podia finalmente ver uma luz no fim do túnel.

Lembro-me deste momento,  observando meu bebê sugando a chupeta, num quase êxtase de paz. Perguntando-me o que mais eu jurei que jamais faria e mais tarde acabaria fazendo (muitas coisas, já adianto por aqui. Mas isso é coisa para outro texto.)

Enfim. Cortamos para quase três anos depois. Meu bebê já é um marmanjão, fala tudo, usa o banheiro quase como adulto e até ganhou uma irmãzinha. O dentista jura que se eu não tirar a chupeta ele ficará dentuço feito a Mônica e terá problema de mordida. Além disso, a chupeta em uma certa idade não é muito aceita socialmente. Então o que temos de fazer? Tirar a santa chupeta.

Mas tirar a chupeta de uma criança nunca é uma coisa fácil. Envolve livrar-se de hábitos antigos e adquirir novos. Envolve sair da zona de conforto. Envolve amadurecer para a próxima etapa. Envolve abrir mão de algo pelo qual se tem uma enorme dependência. Já pensou? Se agora na vida adulta alguém chega para você e diz:

“Veja bem querido, o seu uso exacerbado de celular te faz um mal danado, teremos que jogar ele fora. Mas não se preocupe, vou deixar você escolher um brinquedo bem legal no lugar do seu celular!!!”

Você manda a pessoa para onde? Pois é. Enfim, chegou a hora de tirar a tão amada chupeta. Aquela companheira para todas as horas, que dava alento nos momento difíceis, ajudava a aplacar o choro e a dor. Levo o meu pequeno herói de três anos de idade para o parque, onde jogamos as chupetas para os peixes no lago.

Foram três dias de sofrimento, talvez mais. Mas ele conseguiu superar com estoicismo e se acostumar com a nova realidade – porque crianças se acostumam com tudo.

Bom, minha segunda filha decidiu que gostaria de dar suas chupetas aos pássaros. Há uma linda árvore aqui no meu bairro que foi apelidada de Árvore das Chupetas, e quando chegam à idade certa, crianças de todas as ruas vêm e amarram suas chupetas nos galhos, despedindo-se delas com água nos olhos, dor no coração e uma coragem que eu nunca vi.

Foi difícil, mas sobrevivemos.

Por fim, chegou a vez de minha terceira filha. Já entrou nessa vida com dois irmãos-professores mais velhos. Esperta, rápida no raciocínio, não acredita em fada do dente, nem em coelhinhos dos ovos de chocolate e muito menos em animais falantes. Quando perguntei se ela queria dar a chupeta para os pássaros ou para os peixes, ela respondeu:

Achei sensato. Então perguntei o que ela queria fazer – porque claramente ela sabia muito mais do assunto do que eu. Demoramos para decidir como faríamos, mas por fim ela decidiu trocar as chupetas por uma linda boneca de pano que ela viu na Tok Stok.

Resoluta, ela entrou na loja com sua sacolinha de chupetas e pediu para a moça o que queria. Pagou a boneca em chupetas (só que não) e fomos embora. Decidida, bem resolvida e num nível de determinação que as pessoas só atingem depois dos quarenta. Olhei para ela num misto de orgulho e dor. Sabia o que viria a seguir, naquela noite, quando ela deitasse para dormir.

A noite doeu. E assim seguiu-se por várias noites. Ainda dói um pouco, na verdade.

Crescer não é fácil. Mas é preciso.

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Cadeira de rodas

Há pouco mais de um mês atrás eu tive que passar por uma cirurgia. Caí e me machuquei feio. Eu sei, bobeei. Acontece nas melhores famílias! No início tentei salvar a coisa com fisioterapia, medicamento e repouso, mas como nada deu certo, tivemos que ir pra faca.

Tudo bem, lá vamos nós. Uma cirurgia minimamente invasiva no quadril.

MÉDICO: “Você dorme, e aí a gente vai só vai entrar aqui pela perna esquerda, fazer uns furinhos, você não vai nem sentir. Sairá do hospital no dia seguinte, fica umas semanas sem encostar o pé no chão. É tranquilo! Coisa simples”

Ah, tudo bem! Do jeito que eles falam parece que será realmente um passeio no campo. E preciso dizer que, a princípio, foi. Você já tomou anestesia geral? Deve ser essa a sensação do verdadeiro sono dos justos. Há anos não durmo tão bem! Um sono delicioso, pesado, nutritivo. Acordei plena e relaxada como nunca.

Bom, corta para o dia seguinte da operação. Como eu estou?

Chego em casa e tenho três crianças olhando para mim. A primeira coisa que noto é que eu estou literalmente na altura deles.

Sim, sou eu. Estou medicada até o último fio de cabelo (para não sentir dor) e a perna esquerda eu simplesmente não sinto. É como se ela fosse apenas um peso atrelado ao meu corpo. Mas, tudo certo, segundo o médico “tudo de acordo com figurino! Segue o baile”.

Então… sigamos o baile.

Os primeiros dias foram realmente de apreensão e cuidado. Estou cheia de pontos, com dor e esgotada. Minha filha de oito anos super cuidadosa faz ovos mexidos e me traz na cama (dois ovos, queijo ralado e parmesão. Salpicado com cebolinha por cima se quiser dar um gostinho!). Minha pequena com toda a delicadeza que lhe cabe traz os livrinhos da Silvana Rando e Histórias do Teddy para lermos juntas na minha cama.

O que fazemos repetidas e repetidas vezes !

Em quatro dias após cirurgia já havíamos nos adaptado a essa “nova realidade” da mamãe de cadeira de rodas (que perdurou por um mês). Meu filho de dez anos tornou-se meu motorista particular pela casa, me levando por todo os cantos.

Digamos que se isso fosse vida real, ele teria perdido a carta no primeiro dia.

Graças aos céus não tivemos nenhum acidente de percurso significativo – a não ser com os batentes das minhas portas e os rodapés da casa, que nunca mais serão os mesmos.

A fase da cadeira de rodas passou, depois veio a do andador – que não foi tão bem recebida assim, afinal, a cadeira de rodas era muitoooo mais legal! Agora estou fazendo fisioterapia e “reaprendendo” a andar. As crianças dizem que eu deveria pedir dicas para a minha sobrinha de dois anos, afinal:

Acho natural. Quem sabe não dou uma ligada para ela?

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Brincadeiras a parte, porque é isso que eu procuro fazer aqui – encontrar leveza onde for possível – gostaria de fazer um adendo importante. Vivi por um mês essa sensação de não poder andar, de não ter liberdade e independência para fazer as coisas. De usar uma cadeira de rodas para conseguir me locomover minimamente pela minha própria casa – porque fora de casa, só consegui sair com ajuda.

Nunca achei que sentiria tanta falta de poder sair na rua sozinha para comprar um chiclete. Ou, que seja, coisas tão ordinárias quanto conseguir pegar uma encomenda no elevador ou simplesmente vestir uma meia sem ajuda.

Valorizemos as pequenas conquistas de todo dia. 

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Pandemia não rima com paciência

Decidi levá-los ao cinema.
Eu sei. Eu sei que estamos em pandemia. Que devemos evitar locais fechados e ficar em casa, quietinhos, comportados – Eu sei de tudo isso. E estamos ficando.
Mas aquele era o fim de um dia mais exaustivo que o normal.
Deu problema nas aulas online. Deu problema no trabalho. Deu disputa por brinquedo. Deu briga por atenção. Deu choro. Deu pepino na internet. O jantar queimou.
Ou seja, não era nosso dia.
Ninguém aguentava mais.
E então, tomada por uma inspiração do além, anunciei:
Em plena quarta feira fim de tarde.
O efeito foi instantâneo, eles pararam de brigar e saíram correndo se trocar, sem questionar nada. Em segundos estavam prontos.
Feliz com a minha ideia, chamei o elevador e descemos para o carro. Me achando a própria mãe cool, que faz programas diferentes, sai da rotina. Manja?
O cinema era longe. Mas tudo bem, o trânsito vai ajudar! Vamos manter o bom humor, a presença de espírito. Tudo certo. Vai ser bom! Uma mudança de ares bem vinda, um escape gostoso.
O que acontece quando três crianças estão sentadas juntas no banco de trás por mais do que 30 segundos?
Se você respondeu elas começam a brigar, você acertou.
Tudo bem. Inspira, expira não pira. Liguei o rádio e tentei relaxar. Está tocando Wicked Game, um rock tranquilo que não ouço há tempos. Aumento o som, tentando focar no dedilhado do baixo, nos acordes, na voz aveludada do Chris Isaak.
A briga segue, mas eu estou longe.
De repente, minha pequena de três anos anuncia, com sua vozinha delicada:
Caramba, ainda estamos a 16 minutos do lugar. Lanço para ela um olhar acusador. Aliás, se na vida real existisse aquele olhar de filme, que solta faíscas, coitada, eu teria soltado.
Respiro fundo e pergunto, tentando manter a paciência:
EU: Ah meu Ds, Eu não falei que era para fazer xixi ANTES DE SAIR DE CASA???”
Ela apenas me olhava com seus doces olhos azuis. Entredentes, perguntei se ela conseguia segurar um pouco.
Ela fez que sim. Mas, tadinha, sabe o que é pedir para uma criança segurar o xixi por dezesseis minutos?? (Se o waze estivesse correto) É muito!!
Aí já era.
Veja bem, sou uma pessoa bem paciente em geral. Muito tranquila e de bem com a vida. Mas estamos há oito meses em pandemia. Oito. Meses. De. Rotina. Zoada.
Então a coisa desandou. Comecei a tecer um longo e complexo discurso sobre a importância de fazer xixi antes de sair de casa.

Porque agora íamos atrasar no cinema, que com certeza não ia dar para comprar pipoca, e que tudo isso porque eles não tinham a responsabilidade. Afinal, eu não mandei mil vezes fazer xixi antes de sair? Não mandei? Então por que não foram?
(estão conseguindo captar o QUÃO insuportavelmente irritada eu estava? Pois bem)
Aí, paramos num farol vermelho. E eu seguia berrando dando bronca, firme e forte. Uma mão no volante, a outra movendo-se furiosamente enquanto eu gesticulava  sobre os problemas fisiológicos de se segurar o xixi por muito tempo.
Nesse momento um homem se materializou de repente ao lado do carro. Enrolado num cobertor.
Um mendigo.
Eu tenho o hábito de sempre dar alguma coisa quando alguém me pede na rua. Se eu tiver umas moedas, ou um pacote de bolacha ou uma nota de dois reais, eu dou. E se eu não tenho nada, eu pelo menos abro o vidro digo apenas um oi, hoje eu não tenho, desculpe. Estou sem nada. Fica para a próxima. Ou algo assim*.
Então nesse dia eu abro o vidro na maior naturalidade, ainda focada no discurso sobre os problemas da bexiga cheia, berrando com as crianças a plenos pulmões, e na olho rapidamente para o mendigo:
EU: Olha moço, você me desculpa, mas é que eu estou dando uma bronca aqui atrás
O mendigo olhou para mim, atônito, fez que sim com a cabeça, resmungou qualquer coisa e seguiu sua vida.
Fechei o vidro, de repente me sentindo exausta. Brigar cansa, sabe? É muita energia que vai.
Olho para os três e noto que eles estão segurando o riso. De repente me dou conta do nível de ridículo que consegui atingir. É tudo muito absurdo.
Resignada, esboço um sorriso.
Sentindo-se autorizados, eles começam a rir.
Rio com eles, e em segundos estamos os quatro gargalhando.
Seguimos o resto do caminho as gargalhadas, eles confabulando sobre o que o mendigo deve ter pensado e eu me perguntando qual o nível de loucura eu ainda poderia atingir.
Chegamos no cinema em tempo de fazer xixi e comprar pipoca!

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*Acredito que mesmo quando não tenho nada para dar, o mínimo que posso fazer é responder com educação ao mendigo. Então eu rapidamente abro um pouco o vidro, dou um sorriso e digo que não tenho nada naquele dia. Quando se está na rua precisando de esmola para viver, um pouco de humanidade cai bem. Se não posso oferecer nada de material, pelo menos um resquício de atenção e acolhimento, eu sempre posso.