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O dia em que coloquei todo mundo pra meditar

Nesta tarde tudo estava dando errado. Sabe quando acumula? O bilhete importante da escola do Simon sumiu, a Lea pegou uma virose, o prédio estava sem água quente, a porquinha da índia estava com dermatite, o bolo queimou (feio. Saiu fumaça e tudo).

Os três estavam brigando loucamente (pelo lugar no sofá, pelo pop it em formato de sorvete, porque ele esbarrou o pé no ombro dela). Sabe, esse dia?

Caos total!!

Quanto mais eu pedia “Parem crianças” mais eles entendiam “Continuem crianças”, e seguiam escalando o estresse loucamente até beirar o insuportável.

Eu sabia que tinha duas opções: ignorar e esperar eles se virarem sozinhos (as vezes funciona mas me gera um pouco de ansiedade) ou agir. Optei pelo agir (o ignorar envolve comer muito chocolate)

Então fui até o quarto e peguei uma vela linda com aroma de lavanda, com os dizeres Calm Mystery. Sentiu a vibe? Comprei numa promoção e nunca usei. Lembro de ter escolhido a vela na prateleira da loja e pensando “Quero ser essa pessoa zen que faz meditação, acende vela e transcende a realidade”

Era disso que meus filhos estavam precisando. Transcender aquela realidade estreita e míope onde todo mundo culpa todo mundo por tudo, choram, brigam, reclamam, gritam e explodem. Enxergar mais longe.

Então volto até a sala e peço, na minha voz general:

Mãe general em ação!!

A mãe general é beeem mais firme e brava. Mas veja bem, ela não grita histericamente. Não. Ela fala de forma assertiva, ponderada, direta. (Funciona que é uma beleza!) A mãe general é uma pessoa madura e decidida, que sabe o que quer e se comunica com excelência. 

Curiosos (e com um quê de respeito pela mãe general), eles obedecem NA HORA.

No quarto, eu já havia acendido a vela e ligado o celular numa música de cachoeira zen. Manja? Umas flautas relaxantes, uma água que cai. Fico calma só de lembrar.

E então peço, com a voz mais suave:

EU: “Crianças, sentem-se aqui por favor. Cruzem as pernas e olhem a vela um pouco, respirando bem devagar. Nós vamos fazer uma sessãozinha de meditação, porque olha, vocês estão sem condições.”

No primeiro momento eles começam a me zoar. Respiram alto, fingem que estão roncando, engasgando. Fazem sons de pum. Simon simula um ataque respiratório, Stella morre de rir. (Bom, pelo menos estão se entendendo.)

Aguardo, quieta. Eles zoando e brincando com a vela, e eu só esperando, sentada, respirando. Gandhi em ação, tentando passar um espírito de paz, tranquilidade e sanidade mental (foi difícil, palmas pra mim)

Então começo a dizer, numa voz beeeem calma. A própria Monja Coen:

EU: “Sabe, cada um de vocês tem aí dentro um pulmão que trabalha o dia inteirinho pra vocês poderem fazer as suas coisas. Respirem devagar que vocês vão senti-lo.”

Mais barulho de ronco, mais zoeira, mas eu continuo firme e forte, na minha voz pacífica:

EU: “Sintam o quanto o pulmão de vocês pode ficar vazio. Expirem esse ar que está velho aí dentro, que provavelmente foi hoje de manhã pra ir com vocês na escola, e não saiu até agora, porque a gente não respira de verdade durante o dia. Esvaziem tudo, e depois preencham com um pouco de ar novo e fresco.”

Nessa hora eles começam a prestar um pouco de atenção. A zoeira diminui, meu filho puxa o ar, provavelmente preocupado com a qualidade do ar em seu pulmão. As meninas olham para mim em silêncio, atentas.

Continuo:

“Agora aproveitem e tentem sentir o coração de vocês. Coração que pulsa o sangue por toooodo o corpinho de vocês. É por causa dele também que vocês conseguem brincar na escola, comer, caminhar, fazer as coisas que vocês gostam.”

Agora o silêncio é total. Quer dizer, só escutamos as flautas indígenas e os sons da natureza. (E uns carros do lado de fora da janela. São paulo, né, gente). Mas há uma aura de paz, harmonia… uma conexão que se instaurou entre nós. Como se nós quatro estivéssemos 100% presentes ali. De corpo, alma, mente, espírito.

Os três estão de olhos fechados, respirando em silêncio. 


Não sei se é isso que chamam de meditação. Ou de atenção plena.

Estou um pouco chocada. Fomos do caos à paz em minutos. Mas não demonstro nada! Finjo normalidade e sigo o baile. Continuo falando um pouco mais sobre as partes do corpo incrível que eles tem. As mãos, que servem pra tanta coisa. E os pés. E a língua. E os olhos, e o nariz. 

E então paro de falar. Espero algum deles fazer alguma piada sobre para que servem certas outras partes do corpo, mas ninguém faz. Eles seguem em silêncio absoluto, cada um com os próprios pensamentos – sei lá quais.

Nessa hora o Dani chega em casa e abre a porta do quarto. Ele olha a cena como se tivesse entrado na casa errada, ou como se eu tivesse ficado louca. Sinalizo pra ele que sou eu mesma, e que não estou louca, só, bom, zen. O que é uma coisa realmente inédita, mas tudo bem. 

Ele continua com os olhos esbugalhados mas entra na onda. Senta entre as crianças, fecha os olhos e ali fica.

Permanecemos desse jeito até me dar vontade de fazer xixi e eu ter que levantar e interromper o momento (corta clima total – mas em minha defesa, eu já estava com vontade de fazer xixi desde que sentei. O problema é que o xixi das mães sempre fica entre as últimas prioridades da lista.)

Quando volto do banheiro todos já estão de volta a sala, brincando, como se nada tivesse acontecido. Mas algo aconteceu. Naquela noite ninguém mais brigou. E nem no dia seguinte. Eles se trataram com mais intimidade, mais afeto… Como se… se respeitassem mais. Sei lá. A si mesmos e um ao outro.

Tudo bem, no outro dia já estavam de volta à vida normal, brincando, brigando e discutindo. Talvez devêssemos começar a meditar todos os dias? De repente depois do banho….

Acho que preciso comprar mais velas.

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O dia em que a privada entupiu

Um dos marcos do amadurecimento de nossos filhos é quando eles aprendem a usar o banheiro sozinhos. Não é emocionante?? Todo mundo lembra do momento em que eles param de gritar pela casa MAAAAE, ACABEI, e de repente já sabem se virar sozinhos, dar a descarga, lavar as mãos. 

São praticamente mini adultos. 

Pois bem. Essa semana eu estava “tranquila” no meu home office quando de repente: 


Vou até lá verificar o tamanho do estrago. 
Para preservar você, meu querido leitor, vou poupá-los dos detalhes sórdidos. Direi apenas que a água estava tão alta que fiquei com medo de transbordar. 

Acesso o meu cérebro em busca de conhecimentos prévios sobre o assunto. Sei que devo esperar a água descer e depois tentar de novo. Fico ali olhando pro vaso, mas a água desce a meio centímetro por hora.
Não tenho tempo pra isso, preciso voltar ao trabalho. 

Coloco o cesto de lixo do banheiro em cima da tampa privada como um sinal de NÃO USAR. Meus filhos são tão preguiçosos que se verem o cesto lá em cima jamais se dignificarão a tirar – eles mesmo se retiram dali e vão para o meu banheiro.

Na hora seguinte eu fico voltando ao banheiro de meia em meia hora e dando a descarga, jogando coisas que já ouvi falar que funcionam (como água quente, coca cola e bircabonato de sódio) com a esperança de que o conteúdo da privada tivesse a bondade de se retirar para o lugar a que pertence. 


Mas isso não acontece.

Espero mais uma hora (levo filho na atividade, busco filha da casa da amiga) e tento de novo. Nada.
Quando percebo que aquilo não vai dar certo, apelo para o meu amigo fiel, que nunca me deixa na mão:




O primeiro resultado que aparece é um anúncio pago de uma desentupidora 24 horas. Envio uma mensagem e eles respondem na mesma hora, explicando que enviam uma equipe até o local para fazer uma avaliação e passam um preço. Só precisam do meu CEP. 

Equipe? Avaliação? Pelo amor de deus, é uma privada entupida. Não física quântica. Passo meu CEP e eles respondem que tem disponibilidade imediata. 
Acho suspeito. 

Ele só vai me passa um valor quando estiver dentro da minha casa? Acho MUITO suspeito. E ainda mais, estou sozinha com os três. Já pensou se é golpe? 


Agradeço e digo que vou tentar resolver sozinha. 
Se eu consegui parir três crianças, o que é uma privada entupida? Se eu consigo manter a sanidade mental (quase) todo santo dia, o que é uma privada entupida? 

Saber desentupir uma privada aliás é o MÍNIMO que você tem que saber para se tornar um adulto maduro. Digno de ter uma casa. Pronto, virou questão de honra. 

Me sinto empoderada e decidida. 

Arregaço as crianças e chamo as crianças: 


MISSÃO: Comprar material necessário para desentupir essa joça. 
Eles se animam e em minutos estão prontos na porta. 
“Vou levar minha lanterna” diz minha filha. “E eu vou levar biscoito”.  Saímos munidos de mantimentos e materiais. Estou confiante. Não tem como dar errado! 

Vamos até o mercado, mas lá não tem desentupidor. 


“CRIANÇAS, VAMOS!” Saímos correndo do mercado e entramos no carro, velozes e furiosos.

Em 5 minutos chegamos, e outro gentil vendedor me oferece dois produtos IMPRESCINDÍVEIS para se desentupir uma privada:
1-Diabo verde (líquido mágico que você joga lá) (27,90)
2-Um desentupidor (aquele que é uma borracha presa num pau de madeira (28,10)


p.p1 {margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.5px Muli} p.p2 {margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.5px Muli; min-height: 16.0px} span.s1 {font-kerning: none}
Munidos com nossas novas ferramentas, voltamos para casa. Jogamos o diabo verde e rezamos. 
Depois, enfio o desentupidor lá dentro. E sabe o que acontece? 


O PAU SE DESCONECTA DA BORRACHA


Como eles não me pregam a borracha no pau? E defeito de fábrica ou é sempre assim? Agora, além de 
uma privada entupida tenho uma borracha enorme grudada lá dentro.


É o famoso: quando você acha que não dá pra piorar… 

Nisso, as crianças já estão aos berros de tanto rir. 

Simon trouxe o ipad e começou a me filmar, e Lea, a pequena está histérica porque quebramos o mais novo integrante dessa casa – o desentupidor. 

Crianças de 4 anos podem ser extremamente sensíveis e delicadas. 

Bom, vou pular a parte em que eu pesco a borracha com o pau de madeira, e despejo praticamente todo o diabo verde lá dentro.

Só sei que de repente (mais de 1 hora depois) a coisa flui e a privada instantaneamente está nova! Linda, agua cristalina, descargando que é uma maravilha. 

Se existisse um anúncio de vasos sanitários, ela seria a modelo perfeita. 

As crianças estão eufóricas e orgulhosas de si mesmas  – como não estar?

Depois do banho, preparamos milk shakes em comemoração. Afinal, a ocasião merece. 

Resumo da ópera: 

1. Você é capaz de mais coisas do que imagina.

2. Crianças adoram participar de pepinos domésticos – faça-os participar sempre que der. 

3. E mais importante: não menospreze as possibilidades de aprendizados diários. Até uma privada entupida pode te ensinar algo.

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O último dia na terra do Mickey (parte 9)

Pego meu carrinho tamanho família e entro, otimista, no Publix.

Mas o otimismo dura pouco. O caos reina diante dos meus olhos: o mercado está tão lotado que é impossível circular. As filas para pagar dão a volta pelos corredores. As prateleiras estão metade vazias. Uma loira magrinha gesticula no telefone em tom agoniante, enquanto joga para dentro do carrinho qualquer item que esteja disponível nas prateleiras. Biscoito, batata, e latas de amendoim.

É engraçado como nesses momentos de desespero agudo toda a civilidade é deixada de lado. Como se um lado mais gutural nosso desabrochasse por instinto de sobrevivência. Não há com licença, por favor, obrigada. Não há convenções sociais.

Há apenas o medo.

Com muito esforço, acabo conseguindo me embrenhar até a sessão de bebidas. Vamos começar comprando água. Água me parece algo vital para se ter nesse momento.

Mas a sessão de bebidas está vazia.

Todas as prateleiras de água estão vazias.

Acabou a água.

Pela primeira vez a gravidade da situação me atinge: estou sozinha com três crianças num país estrangeiro que é rota de um furacão categoria cinco. Nem o Mickey, nem a Disney, nem todos os pozinhos mágicos de toda a Flórida podem resolver o meu problema.

É engraçado como a gente se fecha para as coisas que não quer ver. Somos obstinados até não poder mais quando se trata de algo que não queremos enxergar.
No caminho de volta, não sei o que fazer.

Devo adiantar minha passagem? Ou pegar o carro e dirigir com as crianças para bem longe? Talvez esperar quietinha no hotel enquanto o furacão passa, e rezar para que ele seja gentil e pacífico?

Começo a pesquisar preços de passagens, mas estão exorbitantes. Não vai dar para voltar para casa. Pesquiso então opções para outras cidades dos Estados Unidos – mas também, tudo caro.
Estou com medo.
É nessa hora que meu celular apita, com uma mensagem do Dani, meu marido.
Sabe príncipe encantado no cavalo branco?

Sei que estamos na era do empoderamento feminino, de sermos mulheres independentes e auto suficientes, que se viram nos 30. E acho isso excelente. Acho que nós mulheres temos que nos virar sozinhas MESMO. Ensino isso para as minhas filhas todos os dias (enquanto ensino meu filho que ele deve fazer tudo pelas irmãs.)

Mas preciso confessar que me senti a própria princesa em perigo sendo salva pelo seu cavaleiro. Fiona meets Shrek! Aurora meets Phillip! Branca de Neve meets Florian – aposto que você não sabia o nome dele!! Sabia? Eu não! Acabei de jogar no google.  

Agradeço pelo meu marido sensato e (ultra)paciente – enquanto envio para ele telas inteiras de sorrisos e corações. Ligo para ele e conversamos um pouco. É tudo surreal demais. É minha terceira noite em solo americano, em uma viagem que estava indo tão bem mas de repente teria de ser mudada. Aliás, interrompida.  

A vida é assim.

Ela nunca sai do jeito que a gente planeja.

No dia seguinte, o céu já não está azul. Toda a serenidade do dia anterior evaporou-se numa névoa cinzenta, fresca, mas pacífica. E chove. Não uma chuva forte e torrencial, mas uma chuva insistente.
Arrumo a mala cedo. Metade da minha bagagem ficou em Miami – e lá ficaria até sabe-se lá quando. Mas por alguma sorte do destino eu trouxe para Orlando todos os nossos passaportes. No dia em que cheguei aos Estados Unidos, cogitei deixar os passaportes das crianças em segurança em Miami, afinal, não iria usá-los. Mas como as coisas da vida às vezes também dão certo, eu por acaso estava com todos os passaportes comigo.
Termino de organizar as coisas e aviso as crianças que teremos de ir embora.

Fico com pena… Era o parque que ele mais queria ir.  
“Vai ter que ficar para a próxima viagem, meu amor. Agora temos de ir pra casa.”

Nosso vôo é só as dez da noite, então ainda dá tempo de um último passeio rápido (brasileira, né?). Acabamos indo para a fabrica da Crayolla, onde as crianças divertem-se derretendo lápis de cera, colorindo historinhas e criando suas próprias embalagens de giz de cera. 

No parque da Crayolla, todos os adultos estão preocupados, enquanto as crianças brincam, felizes. E é assim mesmo que tem que ser…

As quatro da tarde (seis horas antes do vôo) chegamos no aeroporto.
E o caos reina.
As filas do check in fazem a espera na Disney parecer minúscula. Há pessoas sentadas no chão, deitadas em mochilas, todo mundo desesperado para ir embora dali. Entro na fila com os três e esperamos nossa vez.
As crianças colaboram. Já entenderam que há algo muito errado, e cooperam. Não brigam. Mas ainda são crianças – discutem porque um está respirando o ar do outro e por quem irá pegar a primeira bolacha do pacote. Precisam ir ao banheiro justamente quando é nossa vez no check in.
 


Os atendentes das companhias aéreas estão nervosos e abatidos. Vê-se que eles querem ajudar todo mundo, mas que não é possível. Simplesmente não cabe todo mundo dentro dos aviões. Outra lei inviolável da vida (e da física): dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.
Há gente chorando, gritando. Mas há também gente calma e otimista. Há grupos de jovens achando tudo o máximo: filmando em volta e colocando nas redes sociais. De repente sou tomada por uma onda de tranquilidade muito grande. Está tudo bem. Se eu não conseguir embarcar, tudo bem. Vou me virar do mesmo jeito que todo mundo aqui vai se virar. Um sentimento coletivo de apoio mútuo e boas vibrações prevalece de alguma forma acima do caos, do medo e da incerteza.
Diferente da noite anterior no mercado, há uma aura de paz.
E tento me agarrar à ela.

São quase oito hora quando conseguimos fazer check in, despachar as malas e passar pelos detectores de metal. Eventualmente conseguimos. Entramos no avião. Sentamos.
O vôo está lotado e o clima tenso. De preocupação, de medo. Uma criança chora com medo de nosso avião ser levado pelo furacão no céu – e me pergunto se isso é possível.
A atendente me garante que não.
“Mamãe, a gente vai conseguir chegar em casa?”
Eu honestamente não sei. Mas espero que sim.
“Vai, sim, filho.”
Dou play no filme dos Minions e descanso a cabeça no encosto atrás de mim, finalmente soltando todo o ar que segurava, tenso, dentro do meu pulmão. 
Nós estamos indo para casa.


Essa é uma história real que aconteceu no ano de 2017, durante a passagem do furacão Irma pela Flórida. 


Irma tirou 7 milhões de pessoas de suas casas naqueles dias de setembro de 2017. O furacão devastou regiões do Caribe, North Caroline, Cuba, México, Florida Keys, Miami… Estima-se que Irma matou 60 pessoas de forma direta e 90 pessoas de forma indireta. 

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Um dia no Universal Studios (parte 8)

Ou quando tudo começou a dar errado…

No segundo dia de parque vamos à Universal Studios. A terra do ET, dos Minions, e do Harry Potter.

O dia está lindo e estamos todos animados. Para esse dia, mandamos fazer camisetas vermelhas combinando.

Se ontem usamos tiarinhas de Mickey, hoje estamos uma daquelas famílias inteiras uniformizadas da cabeça aos pés.

É fofo, até.


A Universal Studios é MUITO mais vazia do que o Magic Kingdom. A fila média aqui demora 20 minutos – enquanto no Magic Kingdom, você agradece ao universo por uma fila tão rápida! Por outro lado, existe uma preocupação bem menor em preservar a magia do que na Disney. 

Os funcionários não são seres saltitantes que dizem “tenha um dia mágico”. Eles são apenas simpáticos. Não há princesas e castelos encantados. Além disso, há também um conteúdos mais adultos (Betty Boop, O retorno da Múmia, Homens de Preto, etc.)

Mas estamos priorizando a área infantil, lógico! E o dia está incrível! Os bebês dormem em metade dos brinquedos, mas também estão se divertindo à beça. O calor é de rachar – faz 35 graus na sombra. Usamos os bebedores para nos encharcar de água. 

Vamos seis vezes seguidas na montanha russa do Picapau. O nível de radicalismo dela é compatível com a altura da minha filha de cinco anos. É a montanha russa perfeita! Alta e rápida o suficiente para atiçar os nossos níveis de adrenalina, mas não para nos traumatizar para o resto da vida. 

Depois, paramos no parque de água do George, o Curioso. É a coisa mais graciosa do mundo! Vestimos as crianças com seus trajes de banho, sentamos e ficamos olhando-os enquanto correm de um lado para o outro, descem em escorregadores e brincam com as fontes de água que jorram de todos os lados.

De repente, minha parça de viagem me chama de lado e diz:

“Dé, temos um problema.” Ela passou um tempão no telefone com o marido, e fico preocupada com o que pode ser.

“Está tudo bem? O que houve?”


Olho para cima. O céu está absolutamente azul. Tão azul que enjoa. Não há sinal algum de vento ou de nuvens. Aliás, nem brisa tem. Está um calor desgraçado. 
“Furacão? Que exagero. Deve ser só uma frente fria. Sério. Vamos colocar um casaquinho e seguir viagem.”  Respondo. 

Mas seu tom é grave: 
“Dé… Está todo mundo evacuando a Flórida…”

EVACUANDO a Flórida. Evacuar me parece um termo um pouco exagerado. Olho para ela incrédula. 
“Como assim, evacuar a Flórida? Eu cheguei tipo ontem.”

Um dos efeitos colaterais de se estar na Disney é que a gente fica completamente alheia ao mundo real. Pode cair uma nave espacial, pode explodir a terceira guerra mundial, você está protegida na Terra do Mickey. Você nunca vai ficar sabendo do que acontece do lado de fora. 

“Nós vamos para Nova York depois de amanhã, Dé… Talvez seria bom você ver o que vai querer fazer.” 

Como assim, ver o que vou querer fazer
Só de pensar em pegar mais 7 horas de avião de volta sozinha com as crianças sinto uma tensão subindo. Eu ACABEI de chegar nos Estados Unidos. Não tem a menor condição de eu ir embora.

Decido ignorar o assunto e seguir o dia. 
Varrer esse furacão inconveniente pra baixo do tapete… quem sabe ele some? 

E assim, seguimos o passeio. Assistimos aos shows, vamos ao brinquedo do ET (que é mais velho do que eu) e passamos pela área do Harry Potter – a mais lotada do parque. Tiramos fotos com o Homem Aranha, o Bob Sponja e com a Hello Kitty – todas sem fila nenhuma!

O nosso dia é cheio de aventuras, e esqueço por completo dessa ideia sem cabimento de furacão. 

Os shows da Universal são menos majestosos do que os da Disney, mas ainda assim são vibrantes. A sensação que dá é que a Universal Studios tem um pé no mundo real, enquanto a Disney é pura fantasia.

À noite, chegamos no hotel pouco depois das 20h. Damos janta, banho e colocamos todos para dormir. 

E então o Dani, meu marido, me liga dizendo que teremos de voltar mais cedo da nossa viagem.

Digo que vou ficar ali mesmo, no hotel, até passar essa corrente fria que vocês, pessoas exageradas e pessimistas, chamam de furacão.

Ele é insistente. Pede para  eu ligar o noticiário e mudar a minha passagem.

Digo que não vou mudar a minha passagem. Discutimos, e eu sei que pareço uma garotinha mimada. Digo que não vou a lugar nenhum, que amanhã vamos ao Animal Kingdom conforme combinado e que no outro dia vamos a Legoland.

De repente alguém bate na porta do nosso apartamento.
É um rapaz com o uniforme do hotel.

Mas não é possível que até aqui no hotel eles estejam levando isso a sério. Pelo amor divino, que povo exagerado!!

“Por isso estamos passando de quarto em quarto orientando os hóspedes a se abastecerem com alimentos e itens de uso pessoal que vocês podem vir a necessitar durante os próximos dias.”

Olho para ele incrédula.

Estamos na Disney. Na terra do Mickey. Esse tipo de coisa não acontece na terra do Mickey. Aqui o mundo é cor de rosa, há desfiles musicais e shows de fogos de artifício todos os dias do ano.

“Também não teremos como garantir luz e água.” O rapaz continuou.

Nessa hora sinto um pequeno desespero… Como vamos ficar sem luz e água?

Agradeço e vejo-o sair para bater nas outras portas de quartos. O destruidor de sonhos e viagens. 

Não é um furacãozinho de meia tigela que vai melar a minha viagem, de jeito nenhum! Como boa brasileira que sou, não desisto nunca.

Então precisamos de mantimentos? Pois bem.  Determinada, pego a minha bolsa e aviso minha amiga que vou até o mercado. Podemos até ter furacão, mas teremos furacão com Oreos Double Stuffed, Twix e bolinhas de queijo. 

Ou eu não me chamo Débora. 

Continua

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O lugar mais mágico do mundo (parte 7)

Coisas para fazer na fila da Disney:

1) comer

2) ficar saindo pra ir ao banheiro e voltar dizendo EXCUSE ME. Meus filhos sabem perfeitamente falar ‘com licença’ em inglês. Avanços linguísticos – temos!!

3) Quando já estão cansados: brincar de jogos parados (parara-parati, la em cima do piano, o que mudou – muda alguma coisa na roupa e eles tem que adivinhar)

4)ficar subindo nos divisores de fila (e levando bronca)

Mas principalmente:

5) Olhar em volta. A Disney tem a maior variedade de pessoas que você já viu, de todos os países, idades e etnias.

É fascinante reparar na língua que a família do lado tá falando e na brincadeira que as crianças da frente inventaram.

Do Peter Pan vamos para o brinquedo do Ursinho Pooh. Do Pooh para o da Pequena Sereia. E de lá para o Dumbo. Sabe o que esses brinquedos tem em comum? 

Não entendo como essa conta fecha:

No Carrossel e na Xícara Maluca tinha apenas 5 minutos de fila, e foi o máximo! Rodamos muito na xícara, cavalgamos… mas aí eu lembrei que em SP temos esses dois exatos brinquedos no Play Center… 

Depois de almoçar, (precariamente, esqueça legumes e vegetais. Pense em sanduíches e comidas rápidas) as meninas pedem: 

Acho justo, afinal, as princesas originais da Disney estão todas aqui. Então lá vamos nós!!

Mas chegando lá…

80 minutos? Só pra ver uma menina com maquiagem, penteado e fantasia de glitter???? Digo às meninas: 

“Uma hora e meia na fila não tem condição!!” 

Mas na maternidade você aprende que algumas coisas não são negociáveis. Escolha suas batalhas, dizem. Então lá entramos nós na fila.

Bem ao nosso lado, separados por um fino cordão vinho, a fila do Fast Pass. Ela é rápida, curta, uma verdadeira benção. 

Olhamos com sofreguidão enquanto as pessoas passam por ali deslizando como plumas e somem atrás de uma cortina de veludo vermelho. É como se fosse a primeira classe do Titanic. 

Imagino-os descendo a bela escadaria de mármore, participando de jantares chiquérrimos com as princesas e tomando chá em xícaras de porcelana chinesa enquanto nós dormimos em beliches duras e esperamos pacientemente os oitenta minutos passarem. Se batermos num iceberg eles terão prioridades nos botes salva vidas e nós ficaremos aqui, largados e pelados. 

SORVETE NO PALITO

Saímos das princesas – finalmente!! – e está fazendo 40 graus. São 4 e meia da tarde e estamos exaustos. Mas vamos pra casa? ÓBVIO que não. Tem fogos de artíficio às 22h. Desfile do Mickey. Um monte de coisa! 

E então como se fosse a resposta para todos os nossos problemas, surge um sorveteiro. É hora do sorvete!! 

Escolhemos os clássicos de vanilla com chocolate tipo esquimó, em formato de mickey. 

E em menos de 2 minutos, eis o que acontece:

O sorvete da Stella despenca de cima do palito.

Já estou oferecendo o meu pra ela (sacrifícios de mãe, fazer o quê) quando o entusiasmado vendedor se materializa do nosso lado com um sorvete novinho em folha. 

Agradeço de todo o coração (vou manter meu sorvete. OBA!!!) enquanto ele explica que ninguém pode chorar na Disney, o lugar mais feliz do mundo. 

Lembro que li em algum lugar que os funcionários precisam estar sempre de bom humor, devem saber as respostas para tudo e JAMAIS podem usar palavras desagradáveis, como vômito. 

Se houver uma ocorrência do tipo, eles falam Code V. (Fico imaginando eu no meio da noite em casa numa crise de virose de algum deles enquanto grito para meu marido “Amor, CÓDIGO V, CÓDIGO V!! RÁPIDO”. Talvez eu vá aderir à regra. Acho elegante, discreto.)

MONTANHA RUSSA

O meu limite de brinquedo é o mesmo da minha filha de 5 anos: onde ela pode entrar, eu também vou. Já meu filho, curte despencar lá de cima, ficar de ponta cabeça… Ele tem 7 anos, mas é bem alto para a idade. Ou seja, vai em tudo o que um menino de 10 anos vai. 

O problema é que ele fica tentando me convencer…

Resultado? A contra gosto, digo que irei. Ele consegue um fast passa para a Space Moutain, também conhecida como a montanha russa do escuro. Sentiu o drama?

Ele vai ver só. Eu vou ser a passageira mais ANIMADA que eles já viram. Vou levantar os braços, berrar e deixar os cabelos soltos ao vento. 

A moça chama a gente. Sinto o sangue gelar. Quero que acabe a luz do parque. Que dê alguma pane elétrica e o brinquedo não ligue. Mas estamos falando da Disney. Não tem nada que dê errado por mais de 30 segundos. Tudo flui com perfeição. 

Entramos e colocamos o cinto. Não é um cinto bobinho como o do brinquedo do Pooh ou o do Peter Pan. Não. É uma trava bem mais resistente. 


Não tem o que fazer. A mocinha termina de explicar as normas de segurança com a animação de uma líder de torcida e partimos para o breu…

Aperto o braço do meu filho, sinto o vento fresco na minha cara e começo a gritar….

Lembra do gibi da Mônica, quando ela bate no Cebolinha e ele fica com o olho roxo, a roupa rasgada? É exatamente assim que eu estou quando saio da Space Mountain. Enjoada, aterrorizada… mas me sentindo estranhamente viva. Os sentidos estão mais aguçados. Consigo entender por um breve segundo as pessoas que escolhem por espontânea vontade essa vida mais radical. 

Mas, honestamente, ficar despencando lá de cima, no escuro total, sem hora para acabar, não é para mim. 

Se quiser emoção na vida, tome um banho gelado. 

FIM DO DIA

Entre filas, aventuras e muitos (muitos) lanches, o dia segue cheio de emoção e alegria. O show de fogos acaba às 23h, e o parque continua lotado, com a mesma vibração daquela manhã.

Não sei porque a Disney é tão especial. Se é pelas lembranças da nossa infância, se é pela energia mágica e de pura alegria que eles preservam a todo custo. 

Enquanto andamos pela avenida principal para a saída do parque, olho as pessoas ao nosso redor, e sei que cada um está aqui por suas razões particulares, mas todos compartilham uma mesma sensação: a de que tiveram um dia incrível. Serotonina, endorfina, adrenalina e todos os hormônios da alegria estão a mil! 

Sair finalmente do parque é outra odisseia e, quando chegamos em casa, são quase 1 da manhã. Estamos todos exaustos, super estimulados, mas felizes. Tudo o que precisamos é de uma boa noite de sono…

(Continua)
(Próximo episódio: Parque da Universal, e um imprevisto sério)

 

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As primeiras horas no lugar mais mágico do mundo (parte 6)

Ah, a Disney. Sinônimo de diversão, alegria, aventura. Finalmente chegou o dia!

O parque abre as 8 horas, mas eu sei que eles costumam abrir 15 minutos mais cedo com um show de boas vindas cheio de personagens e emoção. Então acordamos as 6h30 para dar tempo de vestir todo mundo, dar café da manhã arrumar as mochilas com tudo (lanche protetor solar troca de roupa toalha fraldas etc).

A ideia é chegar no parque as 7h30 para dar tempo de estacionar com calma e ver o show.  

De fato, conseguimos chegar às 7h30… Nós e mais pelo menos UMA CENTENA de carros. E pra completar, o estacionamento é tão grande que precisamos pegar um trenzinho pra chegar até a entrada.

Tudo bem, foco. Estacionamos, andamos até o trenzinho, acomodamos as crianças (“mãe, eu quero ir na janelaaaaa, eu NUNCA VOU NA JANELAA!!!”) Fechamos OS TRÊS CARRINHOS (que abrimos há exatos cinco minutos ao sair do carro), nos enfiamos no banco do jeito que é possível entre carrinhos e crianças. Sorrimos para o entusiasmado funcionário da Disney que passa conferindo se está tudo fechado e o trem pode seguir viagem.

A rota do trem dura uma média de 2 minutos e meio. Não dá nem para descansar.
Mas acabamos de chegar na Disney afinal de contas, quem quer descansar?

E então, ali logo em frente: a portaria do Magic Kingdom! Que emoção! Músicas dos filmes da Disney estão tocando nos alto falantes (bibidi bobidi boo, da Cinderela), a energia geral do lugar é contagiante!! Estou animada. Vamos chegar cedo, assistir o show e não vamos pegar fila para NA-DA. O dia será muito produtivo. E mágico. E vamos conseguir ir em todos os brinquedos.

Só que… me dou conta de que há mais meia dúzia de trens como o nosso chegando. Pessoas brotam de todos os lados formando filas para passar pela entrada. E o parque ainda nem abriu!!
Bom, tudo bem, vamos focar positivo. Estamos QUASE LÁ.

A mocinha entusiasmada com roupa de exploradora da Disney verifica nossos ingressos e nossas mochilas (Mini Carrots, I love Mini Carrots! Ela exclama. Pois é, também curto, é um lanchinho tão prático e saudável).
Pronto. AGORA estou pronta para ver o Magic Kingdom.

Mas em vez disso vejo funcionários gritando “Ferry boat to your left, monorail to your right!” E percebo que AINDA não estamos no parque. Não. Há um lago imenso que precisamos atravessar para chegar lá. Olho para minha parceira de viagem. Balsa ou Monotrilho? Balsa ou Monotrilho??? Não sei, NÃO SEI!! Fiz toda a pesquisa com relação a brinquedos, tempos de fila, mapeamento de banheiros e horário de funcionamento. Mas em nenhum lugar li sobre essa longa jornada para se chegar ao Magic Kingdom.

Reflito por um momento. No monotrilho provavelmente teremos de fechar os carrinhos – enquanto na balsa é só entrar e ficar parado até chegar do outro lado.
Definitivamente não queremos mais desafivelar crianças e fechar carrinhos.

– Vamos de Ferry Boat. Vem, gente! – grito, como se fosse uma monitora de passeio escolar. É assim que me sinto, uma monitora de passeio escolar. Corremos até o barco e nos acomodamos. De nada adiantou correr, porque temos de esperar a balsa lotar. O que leva uns dez minutos, mas tudo bem. Tudo bem! Vamos chegar.

Há uma família de patos brancos flutuando preguiçosamente no lago, e as crianças se distraem felizes com eles, perguntando se são da família do Pato Donald (ÓBVIO que são, digo).

Olho no relógio. 8:07. Tudo bem, o parque já abriu, perdemos o show da entrada. Paciência. Mas também, o que é um show de 15 minutos quando você tem um dia inteiro de diversão, brinquedos, desfiles musicais e fogos de artifício? O importante é que estamos aqui. Respiro fundo enquanto a balsa estaciona suavemente no deque do outro lado do rio. Chegamos! Aqui vamos nós!

*Mais fila pra entrar*

Pego um mapa do parque com o funcionário da entrada e eu me xingo mentalmente por ter usado exclusivamente o waze nos últimos anos para me locomover por São Paulo. Droga. Se eu fosse mais adepta aos mapas gigantescos de papel e ao estilo vintage de se perder, com certeza saberia ler isso aqui bem melhor.

Pessoas com roupas e tiarinhas do Mickey chegam por toda parte e andam resolutas para dentro do parque, com muito mais convicção do que eu. Olho para elas em pânico. Com certeza eles sabem direitinho o que estão fazendo, nem precisam de mapa.

Desisto do mapa e o enfio no bolsão do carrinho. Melhor entrar logo, porque o parque está lotando a cada segundo e sei que vai ficar tão cheio que provavelmente não poderemos ver nem metade das atrações.

“Vamos gente!”

Caminhamos parque adentro, perplexos com a magia do lugar. Cada passo é uma emoção! As cores, as plantas, as fontes de água com a cabeça do Mickey. Os jardins em formato dos personagens. A avenida principal com suas lojinhas e restaurantes, o entusiasmo dos funcionários. A trilha sonora contagiante de músicas da Disney. É tudo muito mágico! Imagine uma mistura de final de copa do mundo com véspera de feriado.

Essa é atmosfera que paira aqui.

E então, logo em frente, ali está ele. Majestoso e inspirador, como se fosse um sonho: O castelo da Cinderela!

“Crianças!!!!! Olhem o castelo!! O CASTELO!” Exclamo, à toa, porque é impossível não notá-lo. 

Ele é como o sol do parque, as ruas gravitam em torno dele, as pessoas se atraem por ele como um ímã hipnotizante. Ficamos alguns segundos contemplando-o, maravilhados, e decido pegar a câmera. 

Preciso fotografar o momento.  

“Sabia que ele foi inspirado num castelo na Bavária, na Alemanha?” Pergunta meu filho. 

“Jura, filho? Legal.. hehe!” Da onde ele sabe esse tipo de coisa? Da revista que comprei antes de virmos? Vou dar um google depois. Pego o celular e peço para todo mundo se juntar. “Vamos tirar uma foto da gente no castelo!” 

“Ué ué ué” Minha pequena começa a reclamar. Ela já está cansada. Chegar até o castelo foi emoção suficiente para um dia, e ela já está pronta para a soneca e encerrar o expediente. 

“Alguém por favor dá uma bolachinha de arroz pra Lea não sair na foto com essa cara de sofrimento?” Peço.  Stella revira a bolsa. 


Nãooo, não quero eternizar este momento da primeira vez de nós na Disney e minha caçula usando chupeta. Já pensou? Minha negligência materna imortalizada no nosso álbum de viagem. 

Vou até o carrinho e alcanço a bolachinha de arroz, que tem um efeito instantâneo na pequena. Ela dá gritinhos de alegria só de olhar. D’us abençoe a bolacha de arroz!


Enquanto isso, o parque já encheu mais. Pessoas com sotaques de todos os cantos do mundo passam por nós, dizendo:
“Excuse me, excuse me.” 

Ignoro todo mundo e me posiciono para a foto. 

“Sorri, pessoal, pelo amor de Deus” Clico cinquenta vezes no botão de fotografar. Alguma com certeza saiu!

Bom, quase não se vê a Lea por trás da bolacha. E o Simon meteu um chifrinho na cabeça da Stella. Lanço um olhar mortífero para o ele, que faz cara de 

santo. Uma enxurrada de gente aparece na 

foto, mas tudo bem. Ali estamos nós 

e o castelo. O castelo! Perspectiva né? 

Envio a imagem para o marido com um monte de emojis. Estamos nos divertindo, está tudo bem. E então volto para o nosso roteiro. Nosso primeiro fast pass é no brinquedo do Peter Pan. Então a rota por ora é:

Banheiro – Vôo Mágico de Peter Pan.

“Vamos, gente!” Chamo, animada. 

E saímos em busca do banheiro mais próximo…

(continua)

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A viagem (parte 5)

Vou resumir rapidamente toda a chegada à Miami com as crianças porque senão nunca vamos chegar à Disney, não é mesmo?

Então o que aconteceu naquele domingo: 

1 Aterrissamos em Miami, e o carrinho de bebê não está disponível na saída do avião. Lea vai ter de ir no colo  o caminho todo até a esteira de bagagem. A fila da imigração está enorme, é claro, mas tudo bem porque já é um preparo psicológico para o que vamos enfrentar na Disney. 

2 Toda as malas chegaram direitinho – é motivo de celebrar ou não??! Claro! 

3 Pegar o carro alugado é MUITO LEGAL! (lógco, tirando a parte da fila, burocracias e documentações com três crianças a tiracolo) Mas agora temos um carro novo pra chamar de nosso por uma semana!! 

4 Deixo uma mala na casa da minha amiga em Miami – afinal vamos voltar na sexta feira de Orlando para passar 2 dias com ela antes de regressar ao Brasil. Já trouxe as malas de SP pensando nisso. 

5 Almoçamos e lá vamos nós! A estrada para Orlando saindo de Miami é uma reta só. Simon e Stella estão super companheiros, a única que fica um pouco irritada é a Lea, que sempre detestou a cadeirinha. 

E então, depois de longas horas… Chegamos! Estamos na Disney!!! Ou melhor, em Orlando. Chegar em Orlando é uma sensação. Outdoors com chamadas para os parques nos aguardam dos lados da estrada, encantando até os mais carrancudos dos adultos. Mickey esperam você! Que tal passar um lindo dia com a sua família? Venha conhecer a nova montanha russa! 

Dá vontade de mandar uma carta a eles dizendo; queridos, nós atravessamos a América, cruzamos o oceano, ficamos a não sei quantos mil pés do chão, estamos a quilômetros de casa, só para ver vocês. Não precisam mais gastar verba com todo esse marketing desnecessário. Já estamos aqui. 

Fico me perguntando se alguém chega em Orlando, vê o outdoor e diz “Querida, olha só que ideia boa! Vamos para a Disney?” 

De repente os dois começam a berrar do banco de trás:

E então eu entendo o motivo de ele estar lá. 

É apenas um outdoor. Mas o seu efeito é magnífico, as crianças entram em êxtase. E se eles estão em êxtase, eu estou em êxtase. 

Vai ser demais.

6 Chegamos no hotel (finalmente!! Vou dormir!!) e a recepcionista é gentil e animada. Ela fala conosco como se tivéssemos feito a MELHOR ESCOLHA DA VIDA ao decidirmos ir à Disney. 

As crianças perguntam eufóricas para ela “MOÇA CADÊ A DISNEY?” Enquanto olham para todos os lados da recepção, imaginando que alguma daquelas portas daria finalmente no parque. 

Coitados, estamos viajando há quase 24 horas e ainda não chegamos lá. 

Explico que o parque fica a dez minutos de carro, e que primeiro vamos descansar um pouco para termos força de ir amanhã. 

Eles ficam um pouco decepcionados, mas passa logo. Crianças são incríveis: sua capacidade de passar da decepção para o êxtase puro é impressionante. 

7 Chegar ao quarto é outra sensação. Eles correm de um lado para o outro embasbacados, dizendo: 

Em resumo: tem tudo o que temos em casa.

Mas tudo o que temos em casa parece mágico quando trata-se de um hotel. E não é nenhum hotel de luxo, não. É um apartamento num “resort” que parece ter sido uma sensação nos anos 1990 mas agora só está meio mal cuidado mesmo. 

Tiro a Lea do carrinho e deixo ela engatinhar um pouco enquanto arrumo as roupas. Ela vê os irmãos excitados e dá gritinhos de alegria.

É hora do jantar dela, então esquento a comida no microondas e vou dando enquanto organizo tudo.

8 Desfaço as malas, organizo todas as roupas, passo no mercado, dou banho e janta em todo mundo e finalmente, FINALMENTE! É hora de dormir. 

Eles estão empolgados, mas exaustos. 

Nosso quarto de hotel é um apto com 3 dormitórios, uma pequena cozinha americana, uma mesa de jantar e uma sala de tv. Afinal, somos 2 adultos e 6 crianças. A ideia era dividir as crianças pelos quartos, mas nenhum dos três quer desgrudar de mim, então dormimos nós quatro juntinhos no quarto maior, e minha amiga fica com os dois quartos menores. 

9 Enquanto canto para as crianças dormirem, organizo as roupas sujas e os últimos detalhes. Como você sabe, a mãe é sempre a última a dormir.  Em poucos instantes o quarto fica em silêncio absoluto. 

10 Por fim, deito. 

Sinto meu corpo relaxar na cama depois de uma noite sentada meio quebrada no avião e 3 horas de estrada. Escuto a respiração tranquila e rítmica das crianças ao meu redor. Que gostoso estarmos juntos! 

Fecho os olhos e em segundos o sono vem…

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A viagem que quase não foi (parte 4)

Há algo de mágico em entrar no avião, esse mundo paralelo e extraordinário onde coisas incríveis acontecem. É como se estivéssemos entrando numa zona livre, onde as regras do mundo real não se aplicam. Por exemplo: No avião pode dormir tarde! Pode jantar às 11 horas da noite, pode dormir de roupa. Pode assistir filme. No avião pode tudo.

E, bom, se você parar pra analisar é uma coisa realmente incrível: a porta fecha e você está no Brasil, mas quando ela abre de novo (e se tudo der certo) você está em outro país. Tem noção? Santos Dummont realmente era um homem de visão.   

Em todo o caso, depois de fazer uma horinha no duty free, dar um lanche e levar todo mundo no banheiro (duas vezes), entramos no avião. As crianças estão num êxtase tão grande que me pergunto para que ir até a Disney. Podíamos ter feito só uma ponte aérea SP-RJ que já seria incrível.

Além disso, as crianças entram em trégua. De repente estão se tratando com tanta civilidade e afeto que me pergunto se estão doentes.

Tiro os casacos das malas de mão, os livros e os lanches e guardo as bolsas quase vazias no compartimento superior. Alguns passageiros olham pra mim preocupados. Sei que eles têm medo das crianças abrirem o berreiro e atrapalharem o vôo. Tento sorrir e passar a sensação de que tenho tudo sob controle. Sou a Angelina Jolie, sou a Angeline Jolie.

As aeromoças são gentis comigo. Uma delas até vem até mim para se apresentar e dizer que posso contar com ela se precisar de ajuda durante o vôo. Fico tão emocionada que quase dou um abraço nela. As crianças aproveitam a atenção dela para enchê-la de perguntas. Fico com medo de perder o vale-ajuda.

Só faltavam perguntar a cor da calcinha e sobre o imposto de renda.

Reviro os olhos, meio rindo. “Chega crianças, deixem a Roberta trabalhar.”

Roberta ri e diz que mais tarde volta pra conversar mais.

Sentamos, apertamos os cintos. As crianças estão eufóricas, os olhinhos arregalados explorando cada botão que encontram. Lea mordisca seu macaquinho de plástico, feliz. A mamadeira dela está pronta, preparei numa cafeteria do aeroporto, antes de entrar no avião.

A ideia é amamentá-la durante a decolagem.

Eles estão exaustos, já passa das 22h, e sei que logo todos estarão dormindo.

Tudo está dando certo! Só há um pequeno porém: a Angelina Jolie aqui tem um pequeno pavor de andar de avião. A sensação de estar fechada num tubo de ferro a 12 mil pés da terra firme me apavora. Quero dizer, se der qualquer pepino, não tem jeito. Acabou. Fim. Não é como um acidente de carro, ou de bicicleta, ou de moto.

É um avião. Caiu, já era.

Engulo em seco quando a aeromoça começa a explicar, com toda a calma do mundo, sobre as atrocidades que podem acontecer nas próximas horas. Os passageiros a minha volta estão completamente alheios ao seu discurso. Bocejam, assistem filmes e mandam mensagens no celular.

Tento me distrair com outra coisa – qualquer outra coisa – enquanto ela explica monotonamente o que fazer em caso de pouso na água (!!!) ou caso as máscaras caiam dos compartimentos superiores. (!!!!) Como vou colocar máscara em três crianças?! Olho para o Simon e me pergunto se ele tem capacidade de colocar em si mesmo.

E a Lea, que está no colo? Tem máscara pra ela?

Melhor rezar.

Tudo dá certo.

Chegamos em Miami em pouco mais de sete horas de um vôo – graças aos céus – tranquilo, sem maiores turbulências e onde os três dormiram praticamente o vôo inteiro.

Adivinha quem foi a única que não dormiu?

Se você respondeu você querida mãe, você acertou.

Estou exausta.

Mas, bom, mãe exausta é quase uma redundância, não é mesmo? Ainda mais após um vôo intercontinental. Eu devo ter fechado os olhos por uma hora e meia, entre levar um no banheiro, preparar mais uma mamadeira, e administrar uma crise de soluço da pequena.

Pelo menos pousamos!! E não atrapalhamos os outros passageiros.

Mas algum tipo de interação deve ter acontecido durante a noite entre Stella, de cinco anos, e Roberta, a aeromoça gentil que nos serviu o jantar… porque nós estávamos passando pela porta do avião quando Roberta diz, acenando pra Stella:

Jussara?

Ao que minha filha responde apenas TCHAU.

Pergunto para Stella da onde a aeromoça tirou o Jussara. Mas ela apenas levanta os ombrinhos como quem não faz a menor ideia. Estou tão cansada que não insisto.

Saímos do avião e sinto o calor abafado e convidativo da Flórida varrendo o meu rosto.

Miami, aqui vamos nós…

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A viagem que quase não foi (parte 3)

Ou, O Detector de Metais.

Nos despedimos de papai. Uma despedida digna do filme ET – O Extraterrestre. Parece que nós vamos para outro planeta, ou para a guerra. Ou que faremos um intercâmbio de um ano fora.

Mas não, serão apenas alguns dias longe e, bom, 9 mil quilômetros de distância.

Secretamente, imagino-o se divertindo horrores, ligando para os amigos e combinando um chopp. Talvez até um jantarzinho.

Tudo bem, também estarei me divertindo com o Mickey.

Entramos nos detectores de metal. Estou carregada de tralha. Tenho esperanças de que o policial me veja e se compadeça do meu estado. Mas…

Quero pedir pra ele deixar do jeito que está. Quero dizer “Moço, pelo amor divino, olha o meu estado, olha quanta tralha, já está tudo esquematizado. Por favor, me ajuda aqui…” Mas já viajei outras vezes, e sei que não adianta chorar. Preciso tirar a Lea do carrinho e fechá-lo, e eles precisam comprovar que eu não estou carregando armas ou facas ou qualquer outro objeto cortante.

– Filho, segura aqui sua irmã por favor?

Simon, do alto de seus 7 anos, pega ela no colo. Tiro a bolsa que estava pendurada, tiro o pacote de salgadinhos que alguém abriu e deixou em cima do carrinho, tiro a chupeta dela que estava fixada ali. Aí alguma mágica acontece que começa a surgir tralhas surpresas no carrinho: um pacote de salgadinhos que alguém abriu e deixou ali, uma chupeta, uns brinquedos.

Dobro o carrinho – veja bem, não é nenhum desses modernos que você dobra num passe de mágica com uma mão enquanto carrega o bebê com a outra. Não. É um estilo guarda chuva, daquele que você usa as duas mãos E o pé para fechar.

Mas tudo bem, vamos que vamos!

Carrinho fechado, e toda nossa bagagem de mão espalhada pela esteira do detector de metal. Mala de mão, a bolsa de mão, a mochila das crianças e as tralhas que já estão fora das bolsas só Deus sabe por quê.

Atravesso o detector de metais com a pequena no colo. Os policiais estão bem humorados, as crianças estão colaborando. Todos riem a minha volta, a moça faz piada com Simon,

Tudo está dando certo.

– Senhora, você pode vir aqui um minuto? –  o policial com o rosto mais sério me chama – precisamos verificar o seu carrinho. Você pode abri-lo?

Meu carrinho?

O que pode ter dentro do meu carrinho?

Me pergunto se deixei uma mamadeira de leite, ou, sei lá, uma papinha esquecida lá dentro. Abro o carrinho fazendo alguma piadinha infame sobre “essas coisas sempre acontecem comigo he-he o que será que eu esqueci agora?” (porque, de fato, acontecem. Sempre me param. As últimas vezes foram por uma garrafa de água mineral e por um Hipoglós.)

Estou curiosa para saber o detector de metais encontrou lá dentro hoje.

Acho essa parte da viagem até excitante!!

O policial se abaixa e começa a remexer no bolsão inferior do carrinho – também conhecido por Compartimento de Tralhas. Ele fica ali alguns instantes, eu e as crianças olhando fixamente para ele. Quando o rapaz tira de lá de dentro uma…

Chave de fenda.

Juro.

Não faço a menor ideia de como ela foi parar ali. Mas em sua mão há uma chave de fenda gigantesca, que deve medir uns 30 cm, e faz parte do jogo de ferramentas que tenho em casa, cada uma com o cabo de uma cor.

Lembro que senti tão adulta quando comprei esse conjunto de ferramentas.

Olho incrédula para a chave.

“Gente, quem colocou isso no carrinho? Que loucura, moço, não sei como ela foi parar aí!” As crianças me olham com cara de espanto, eu me pergunto se ele vai chamar a polícia e mandar me prender. Quão fora da lei pode ser levar uma chave de fenda no avião, honestamente? E, bom, olhe para mim. Duas crianças. Um bebê. Uma camiseta meio regurgitada. Ele realmente acha que eu tenho alguma agenda criminosa em mente?

Simon: “Mãe! Vamos ligar para o papai e entregar para ele! Ele deve estar por aqui!”

Simon é meio apegado às coisas. Ele sempre sofre quando separo roupas para ou brinquedos que não usamos mais e coloco na caixa de doação. Quando nos mudamos de apartamento ele literalmente adoeceu.

Encaro seus olhinhos ansiosos e digo: “Tudo bem, pode ligar!”

Os policiais gostam da ideia, as crianças também, e todos dão sorrisos comemorativos.

Ligo para o papai e o celular toca, toca, toca… e nada. Tentamos mais uma vez, já que a fila está tranquila. E então lembro que ele esqueceu o celular em casa.

Sem chance.

Ele não vai atender.

“Filho, vamos ter que jogar fora a chave de fenda…” Digo, sinalizando a grande caixa transparente com tudo o que outros viajantes já tiveram de deixar por ali. Canivetes, tesouras, alicates, saca rolhas, isqueiros.

(Nota: Não há nenhuma chave de fenda.)

Ele olha para a caixa dos objetos abandonados com um pesar palpável.

Sei que é difícil para ele, mas não tem jeito. Também estou chateada pela caixa de ferramentas, mas, bom, estamos indo para Disney. Disney!!

Vamos colocar as coisas em perspectiva, né?

Ele arrasta os pés até lá, desanimado, e joga com gentileza a chave de fenda pelo buraco. Ela cai em queda livre por metade da lixeira e bate nos outros objetos proibidos que tem alguma história, um dia tiveram um dono, mas que hoje pertencem a ninguém.



Pronto, estamos novamente dentro da lei. Que alívio, que alegria!

Agradecemos os policiais, devolvo a Lea no carrinho, arrumo a tralha, e lá vamos nós!

Passo a mão nas costas de Simon, tentando confortá-lo. 
Ele vai superar.