0

As primeiras horas no lugar mais mágico do mundo

Ah, a Disney. Sinônimo de diversão, alegria, aventura. Finalmente chegou o dia!

O parque abre as 8 horas, mas eu sei que eles costumam abrir 15 minutos mais cedo com um show de boas vindas cheio de personagens e emoção. Então acordamos as 6h30 para dar tempo de vestir todo mundo, dar café da manhã arrumar as mochilas com tudo (lanche protetor solar troca de roupa toalha fraldas etc).

A ideia é chegar no parque as 7h30 para dar tempo de estacionar com calma e ver o show.  

De fato, conseguimos chegar às 7h30… Nós e mais pelo menos UMA CENTENA de carros. E pra completar, o estacionamento é tão grande que precisamos pegar um trenzinho pra chegar até a entrada.

Tudo bem, foco. Estacionamos, andamos até o trenzinho, acomodamos as crianças (“mãe, eu quero ir na janelaaaaa, eu NUNCA VOU NA JANELAA!!!”) Fechamos OS TRÊS CARRINHOS (que abrimos há exatos cinco minutos ao sair do carro), nos enfiamos no banco do jeito que é possível entre carrinhos e crianças. Sorrimos para o entusiasmado funcionário da Disney que passa conferindo se está tudo fechado e o trem pode seguir viagem.

A rota do trem dura uma média de 2 minutos e meio. Não dá nem para descansar.
Mas acabamos de chegar na Disney afinal de contas, quem quer descansar?

E então, ali logo em frente: a portaria do Magic Kingdom! Que emoção! Músicas dos filmes da Disney estão tocando nos alto falantes (bibidi bobidi boo, da Cinderela), a energia geral do lugar é contagiante!! Estou animada. Vamos chegar cedo, assistir o show e não vamos pegar fila para NA-DA. O dia será muito produtivo. E mágico. E vamos conseguir ir em todos os brinquedos.

Só que… me dou conta de que há mais meia dúzia de trens como o nosso chegando. Pessoas brotam de todos os lados formando filas para passar pela entrada. E o parque ainda nem abriu!!
Bom, tudo bem, vamos focar positivo. Estamos QUASE LÁ.

A mocinha entusiasmada com roupa de exploradora da Disney verifica nossos ingressos e nossas mochilas (Mini Carrots, I love Mini Carrots! Ela exclama. Pois é, também curto, é um lanchinho tão prático e saudável).
Pronto. AGORA estou pronta para ver o Magic Kingdom.

Mas em vez disso vejo funcionários gritando “Ferry boat to your left, monorail to your right!” E percebo que AINDA não estamos no parque. Não. Há um lago imenso que precisamos atravessar para chegar lá. Olho para minha parceira de viagem. Balsa ou Monotrilho? Balsa ou Monotrilho??? Não sei, NÃO SEI!! Fiz toda a pesquisa com relação a brinquedos, tempos de fila, mapeamento de banheiros e horário de funcionamento. Mas em nenhum lugar li sobre essa longa jornada para se chegar ao Magic Kingdom.

Reflito por um momento. No monotrilho provavelmente teremos de fechar os carrinhos – enquanto na balsa é só entrar e ficar parado até chegar do outro lado.
Definitivamente não queremos mais desafivelar crianças e fechar carrinhos.

– Vamos de Ferry Boat. Vem, gente! – grito, como se fosse uma monitora de passeio escolar. É assim que me sinto, uma monitora de passeio escolar. Corremos até o barco e nos acomodamos. De nada adiantou correr, porque temos de esperar a balsa lotar. O que leva uns dez minutos, mas tudo bem. Tudo bem! Vamos chegar.

Há uma família de patos brancos flutuando preguiçosamente no lago, e as crianças se distraem felizes com eles, perguntando se são da família do Pato Donald (ÓBVIO que são, digo).

Olho no relógio. 8:07. Tudo bem, o parque já abriu, perdemos o show da entrada. Paciência. Mas também, o que é um show de 15 minutos quando você tem um dia inteiro de diversão, brinquedos, desfiles musicais e fogos de artifício? O importante é que estamos aqui. Respiro fundo enquanto a balsa estaciona suavemente no deque do outro lado do rio. Chegamos! Aqui vamos nós!

*Mais fila pra entrar*

Pego um mapa do parque com o funcionário da entrada e eu me xingo mentalmente por ter usado exclusivamente o waze nos últimos anos para me locomover por São Paulo. Droga. Se eu fosse mais adepta aos mapas gigantescos de papel e ao estilo vintage de se perder, com certeza saberia ler isso aqui bem melhor.

Pessoas com roupas e tiarinhas do Mickey chegam por toda parte e andam resolutas para dentro do parque, com muito mais convicção do que eu. Olho para elas em pânico. Com certeza eles sabem direitinho o que estão fazendo, nem precisam de mapa.

Desisto do mapa e o enfio no bolsão do carrinho. Melhor entrar logo, porque o parque está lotando a cada segundo e sei que vai ficar tão cheio que provavelmente não poderemos ver nem metade das atrações.

“Vamos gente!”

Caminhamos parque adentro, perplexos com a magia do lugar. Cada passo é uma emoção! As cores, as plantas, as fontes de água com a cabeça do Mickey. Os jardins em formato dos personagens. A avenida principal com suas lojinhas e restaurantes, o entusiasmo dos funcionários. A trilha sonora contagiante de músicas da Disney. É tudo muito mágico! Imagine uma mistura de final de copa do mundo com véspera de feriado.

Essa é atmosfera que paira aqui.

E então, logo em frente, ali está ele. Majestoso e inspirador, como se fosse um sonho: O castelo da Cinderela!

“Crianças!!!!! Olhem o castelo!! O CASTELO!” Exclamo, à toa, porque é impossível não notá-lo. 

Ele é como o sol do parque, as ruas gravitam em torno dele, as pessoas se atraem por ele como um ímã hipnotizante. Ficamos alguns segundos contemplando-o, maravilhados, e decido pegar a câmera. 

Preciso fotografar o momento.  

“Sabia que ele foi inspirado num castelo na Bavária, na Alemanha?” Pergunta meu filho. 

“Jura, filho? Legal.. hehe!” Da onde ele sabe esse tipo de coisa? Da revista que comprei antes de virmos? Vou dar um google depois. Pego o celular e peço para todo mundo se juntar. “Vamos tirar uma foto da gente no castelo!” 

“Ué ué ué” Minha pequena começa a reclamar. Ela já está cansada. Chegar até o castelo foi emoção suficiente para um dia, e ela já está pronta para a soneca e encerrar o expediente. 

“Alguém por favor dá uma bolachinha de arroz pra Lea não sair na foto com essa cara de sofrimento?” Peço.  Stella revira a bolsa. 


Nãooo, não quero eternizar este momento da primeira vez de nós na Disney e minha caçula usando chupeta. Já pensou? Minha negligência materna imortalizada no nosso álbum de viagem. 

Vou até o carrinho e alcanço a bolachinha de arroz, que tem um efeito instantâneo na pequena. Ela dá gritinhos de alegria só de olhar. D’us abençoe a bolacha de arroz!


Enquanto isso, o parque já encheu mais. Pessoas com sotaques de todos os cantos do mundo passam por nós, dizendo:
“Excuse me, excuse me.” 

Ignoro todo mundo e me posiciono para a foto. 

“Sorri, pessoal, pelo amor de Deus” Clico cinquenta vezes no botão de fotografar. Alguma com certeza saiu!

Bom, quase não se vê a Lea por trás da bolacha. E o Simon meteu um chifrinho na cabeça da Stella. Lanço um olhar mortífero para o ele, que faz cara de 

santo. Uma enxurrada de gente aparece na 

foto, mas tudo bem. Ali estamos nós 

e o castelo. O castelo! Perspectiva né? 

Envio a imagem para o marido com um monte de emojis. Estamos nos divertindo, está tudo bem. E então volto para o nosso roteiro. Nosso primeiro fast pass é no brinquedo do Peter Pan. Então a rota por ora é:

Banheiro – Vôo Mágico de Peter Pan.

“Vamos, gente!” Chamo, animada. 

E saímos em busca do banheiro mais próximo…

(continua)

1

A viagem (parte 5)

Vou resumir rapidamente toda a chegada à Miami com as crianças porque senão nunca vamos chegar à Disney, não é mesmo?

Então o que aconteceu naquele domingo: 

1 Aterrissamos em Miami, e o carrinho de bebê não está disponível na saída do avião. Lea vai ter de ir no colo  o caminho todo até a esteira de bagagem. A fila da imigração está enorme, é claro, mas tudo bem porque já é um preparo psicológico para o que vamos enfrentar na Disney. 

2 Toda as malas chegaram direitinho – é motivo de celebrar ou não??! Claro! 

3 Pegar o carro alugado é MUITO LEGAL! (lógco, tirando a parte da fila, burocracias e documentações com três crianças a tiracolo) Mas agora temos um carro novo pra chamar de nosso por uma semana!! 

4 Deixo uma mala na casa da minha amiga em Miami – afinal vamos voltar na sexta feira de Orlando para passar 2 dias com ela antes de regressar ao Brasil. Já trouxe as malas de SP pensando nisso. 

5 Almoçamos e lá vamos nós! A estrada para Orlando saindo de Miami é uma reta só. Simon e Stella estão super companheiros, a única que fica um pouco irritada é a Lea, que sempre detestou a cadeirinha. 

E então, depois de longas horas… Chegamos! Estamos na Disney!!! Ou melhor, em Orlando. Chegar em Orlando é uma sensação. Outdoors com chamadas para os parques nos aguardam dos lados da estrada, encantando até os mais carrancudos dos adultos. Mickey esperam você! Que tal passar um lindo dia com a sua família? Venha conhecer a nova montanha russa! 

Dá vontade de mandar uma carta a eles dizendo; queridos, nós atravessamos a América, cruzamos o oceano, ficamos a não sei quantos mil pés do chão, estamos a quilômetros de casa, só para ver vocês. Não precisam mais gastar verba com todo esse marketing desnecessário. Já estamos aqui. 

Fico me perguntando se alguém chega em Orlando, vê o outdoor e diz “Querida, olha só que ideia boa! Vamos para a Disney?” 

De repente os dois começam a berrar do banco de trás:

E então eu entendo o motivo de ele estar lá. 

É apenas um outdoor. Mas o seu efeito é magnífico, as crianças entram em êxtase. E se eles estão em êxtase, eu estou em êxtase. 

Vai ser demais.

6 Chegamos no hotel (finalmente!! Vou dormir!!) e a recepcionista é gentil e animada. Ela fala conosco como se tivéssemos feito a MELHOR ESCOLHA DA VIDA ao decidirmos ir à Disney. 

As crianças perguntam eufóricas para ela “MOÇA CADÊ A DISNEY?” Enquanto olham para todos os lados da recepção, imaginando que alguma daquelas portas daria finalmente no parque. 

Coitados, estamos viajando há quase 24 horas e ainda não chegamos lá. 

Explico que o parque fica a dez minutos de carro, e que primeiro vamos descansar um pouco para termos força de ir amanhã. 

Eles ficam um pouco decepcionados, mas passa logo. Crianças são incríveis: sua capacidade de passar da decepção para o êxtase puro é impressionante. 

7 Chegar ao quarto é outra sensação. Eles correm de um lado para o outro embasbacados, dizendo: 

Em resumo: tem tudo o que temos em casa.

Mas tudo o que temos em casa parece mágico quando trata-se de um hotel. E não é nenhum hotel de luxo, não. É um apartamento num “resort” que parece ter sido uma sensação nos anos 1990 mas agora só está meio mal cuidado mesmo. 

Tiro a Lea do carrinho e deixo ela engatinhar um pouco enquanto arrumo as roupas. Ela vê os irmãos excitados e dá gritinhos de alegria.

É hora do jantar dela, então esquento a comida no microondas e vou dando enquanto organizo tudo.

8 Desfaço as malas, organizo todas as roupas, passo no mercado, dou banho e janta em todo mundo e finalmente, FINALMENTE! É hora de dormir. 

Eles estão empolgados, mas exaustos. 

Nosso quarto de hotel é um apto com 3 dormitórios, uma pequena cozinha americana, uma mesa de jantar e uma sala de tv. Afinal, somos 2 adultos e 6 crianças. A ideia era dividir as crianças pelos quartos, mas nenhum dos três quer desgrudar de mim, então dormimos nós quatro juntinhos no quarto maior, e minha amiga fica com os dois quartos menores. 

9 Enquanto canto para as crianças dormirem, organizo as roupas sujas e os últimos detalhes. Como você sabe, a mãe é sempre a última a dormir.  Em poucos instantes o quarto fica em silêncio absoluto. 

10 Por fim, deito. 

Sinto meu corpo relaxar na cama depois de uma noite sentada meio quebrada no avião e 3 horas de estrada. Escuto a respiração tranquila e rítmica das crianças ao meu redor. Que gostoso estarmos juntos! 

Fecho os olhos e em segundos o sono vem…

1

A viagem que quase não foi (parte 4)

Há algo de mágico em entrar no avião, esse mundo paralelo e extraordinário onde coisas incríveis acontecem. É como se estivéssemos entrando numa zona livre, onde as regras do mundo real não se aplicam. Por exemplo: No avião pode dormir tarde! Pode jantar às 11 horas da noite, pode dormir de roupa. Pode assistir filme. No avião pode tudo.

E, bom, se você parar pra analisar é uma coisa realmente incrível: a porta fecha e você está no Brasil, mas quando ela abre de novo (e se tudo der certo) você está em outro país. Tem noção? Santos Dummont realmente era um homem de visão.   

Em todo o caso, depois de fazer uma horinha no duty free, dar um lanche e levar todo mundo no banheiro (duas vezes), entramos no avião. As crianças estão num êxtase tão grande que me pergunto para que ir até a Disney. Podíamos ter feito só uma ponte aérea SP-RJ que já seria incrível.

Além disso, as crianças entram em trégua. De repente estão se tratando com tanta civilidade e afeto que me pergunto se estão doentes.

Tiro os casacos das malas de mão, os livros e os lanches e guardo as bolsas quase vazias no compartimento superior. Alguns passageiros olham pra mim preocupados. Sei que eles têm medo das crianças abrirem o berreiro e atrapalharem o vôo. Tento sorrir e passar a sensação de que tenho tudo sob controle. Sou a Angelina Jolie, sou a Angeline Jolie.

As aeromoças são gentis comigo. Uma delas até vem até mim para se apresentar e dizer que posso contar com ela se precisar de ajuda durante o vôo. Fico tão emocionada que quase dou um abraço nela. As crianças aproveitam a atenção dela para enchê-la de perguntas. Fico com medo de perder o vale-ajuda.

Só faltavam perguntar a cor da calcinha e sobre o imposto de renda.

Reviro os olhos, meio rindo. “Chega crianças, deixem a Roberta trabalhar.”

Roberta ri e diz que mais tarde volta pra conversar mais.

Sentamos, apertamos os cintos. As crianças estão eufóricas, os olhinhos arregalados explorando cada botão que encontram. Lea mordisca seu macaquinho de plástico, feliz. A mamadeira dela está pronta, preparei numa cafeteria do aeroporto, antes de entrar no avião.

A ideia é amamentá-la durante a decolagem.

Eles estão exaustos, já passa das 22h, e sei que logo todos estarão dormindo.

Tudo está dando certo! Só há um pequeno porém: a Angelina Jolie aqui tem um pequeno pavor de andar de avião. A sensação de estar fechada num tubo de ferro a 12 mil pés da terra firme me apavora. Quero dizer, se der qualquer pepino, não tem jeito. Acabou. Fim. Não é como um acidente de carro, ou de bicicleta, ou de moto.

É um avião. Caiu, já era.

Engulo em seco quando a aeromoça começa a explicar, com toda a calma do mundo, sobre as atrocidades que podem acontecer nas próximas horas. Os passageiros a minha volta estão completamente alheios ao seu discurso. Bocejam, assistem filmes e mandam mensagens no celular.

Tento me distrair com outra coisa – qualquer outra coisa – enquanto ela explica monotonamente o que fazer em caso de pouso na água (!!!) ou caso as máscaras caiam dos compartimentos superiores. (!!!!) Como vou colocar máscara em três crianças?! Olho para o Simon e me pergunto se ele tem capacidade de colocar em si mesmo.

E a Lea, que está no colo? Tem máscara pra ela?

Melhor rezar.

Tudo dá certo.

Chegamos em Miami em pouco mais de sete horas de um vôo – graças aos céus – tranquilo, sem maiores turbulências e onde os três dormiram praticamente o vôo inteiro.

Adivinha quem foi a única que não dormiu?

Se você respondeu você querida mãe, você acertou.

Estou exausta.

Mas, bom, mãe exausta é quase uma redundância, não é mesmo? Ainda mais após um vôo intercontinental. Eu devo ter fechado os olhos por uma hora e meia, entre levar um no banheiro, preparar mais uma mamadeira, e administrar uma crise de soluço da pequena.

Pelo menos pousamos!! E não atrapalhamos os outros passageiros.

Mas algum tipo de interação deve ter acontecido durante a noite entre Stella, de cinco anos, e Roberta, a aeromoça gentil que nos serviu o jantar… porque nós estávamos passando pela porta do avião quando Roberta diz, acenando pra Stella:

Jussara?

Ao que minha filha responde apenas TCHAU.

Pergunto para Stella da onde a aeromoça tirou o Jussara. Mas ela apenas levanta os ombrinhos como quem não faz a menor ideia. Estou tão cansada que não insisto.

Saímos do avião e sinto o calor abafado e convidativo da Flórida varrendo o meu rosto.

Miami, aqui vamos nós…

0

A viagem que quase não foi (parte 3)

Ou, O Detector de Metais.

Nos despedimos de papai. Uma despedida digna do filme ET – O Extraterrestre. Parece que nós vamos para outro planeta, ou para a guerra. Ou que faremos um intercâmbio de um ano fora.

Mas não, serão apenas alguns dias longe e, bom, 9 mil quilômetros de distância.

Secretamente, imagino-o se divertindo horrores, ligando para os amigos e combinando um chopp. Talvez até um jantarzinho.

Tudo bem, também estarei me divertindo com o Mickey.

Entramos nos detectores de metal. Estou carregada de tralha. Tenho esperanças de que o policial me veja e se compadeça do meu estado. Mas…

Quero pedir pra ele deixar do jeito que está. Quero dizer “Moço, pelo amor divino, olha o meu estado, olha quanta tralha, já está tudo esquematizado. Por favor, me ajuda aqui…” Mas já viajei outras vezes, e sei que não adianta chorar. Preciso tirar a Lea do carrinho e fechá-lo, e eles precisam comprovar que eu não estou carregando armas ou facas ou qualquer outro objeto cortante.

– Filho, segura aqui sua irmã por favor?

Simon, do alto de seus 7 anos, pega ela no colo. Tiro a bolsa que estava pendurada, tiro o pacote de salgadinhos que alguém abriu e deixou em cima do carrinho, tiro a chupeta dela que estava fixada ali. Aí alguma mágica acontece que começa a surgir tralhas surpresas no carrinho: um pacote de salgadinhos que alguém abriu e deixou ali, uma chupeta, uns brinquedos.

Dobro o carrinho – veja bem, não é nenhum desses modernos que você dobra num passe de mágica com uma mão enquanto carrega o bebê com a outra. Não. É um estilo guarda chuva, daquele que você usa as duas mãos E o pé para fechar.

Mas tudo bem, vamos que vamos!

Carrinho fechado, e toda nossa bagagem de mão espalhada pela esteira do detector de metal. Mala de mão, a bolsa de mão, a mochila das crianças e as tralhas que já estão fora das bolsas só Deus sabe por quê.

Atravesso o detector de metais com a pequena no colo. Os policiais estão bem humorados, as crianças estão colaborando. Todos riem a minha volta, a moça faz piada com Simon,

Tudo está dando certo.

– Senhora, você pode vir aqui um minuto? –  o policial com o rosto mais sério me chama – precisamos verificar o seu carrinho. Você pode abri-lo?

Meu carrinho?

O que pode ter dentro do meu carrinho?

Me pergunto se deixei uma mamadeira de leite, ou, sei lá, uma papinha esquecida lá dentro. Abro o carrinho fazendo alguma piadinha infame sobre “essas coisas sempre acontecem comigo he-he o que será que eu esqueci agora?” (porque, de fato, acontecem. Sempre me param. As últimas vezes foram por uma garrafa de água mineral e por um Hipoglós.)

Estou curiosa para saber o detector de metais encontrou lá dentro hoje.

Acho essa parte da viagem até excitante!!

O policial se abaixa e começa a remexer no bolsão inferior do carrinho – também conhecido por Compartimento de Tralhas. Ele fica ali alguns instantes, eu e as crianças olhando fixamente para ele. Quando o rapaz tira de lá de dentro uma…

Chave de fenda.

Juro.

Não faço a menor ideia de como ela foi parar ali. Mas em sua mão há uma chave de fenda gigantesca, que deve medir uns 30 cm, e faz parte do jogo de ferramentas que tenho em casa, cada uma com o cabo de uma cor.

Lembro que senti tão adulta quando comprei esse conjunto de ferramentas.

Olho incrédula para a chave.

“Gente, quem colocou isso no carrinho? Que loucura, moço, não sei como ela foi parar aí!” As crianças me olham com cara de espanto, eu me pergunto se ele vai chamar a polícia e mandar me prender. Quão fora da lei pode ser levar uma chave de fenda no avião, honestamente? E, bom, olhe para mim. Duas crianças. Um bebê. Uma camiseta meio regurgitada. Ele realmente acha que eu tenho alguma agenda criminosa em mente?

Simon: “Mãe! Vamos ligar para o papai e entregar para ele! Ele deve estar por aqui!”

Simon é meio apegado às coisas. Ele sempre sofre quando separo roupas para ou brinquedos que não usamos mais e coloco na caixa de doação. Quando nos mudamos de apartamento ele literalmente adoeceu.

Encaro seus olhinhos ansiosos e digo: “Tudo bem, pode ligar!”

Os policiais gostam da ideia, as crianças também, e todos dão sorrisos comemorativos.

Ligo para o papai e o celular toca, toca, toca… e nada. Tentamos mais uma vez, já que a fila está tranquila. E então lembro que ele esqueceu o celular em casa.

Sem chance.

Ele não vai atender.

“Filho, vamos ter que jogar fora a chave de fenda…” Digo, sinalizando a grande caixa transparente com tudo o que outros viajantes já tiveram de deixar por ali. Canivetes, tesouras, alicates, saca rolhas, isqueiros.

(Nota: Não há nenhuma chave de fenda.)

Ele olha para a caixa dos objetos abandonados com um pesar palpável.

Sei que é difícil para ele, mas não tem jeito. Também estou chateada pela caixa de ferramentas, mas, bom, estamos indo para Disney. Disney!!

Vamos colocar as coisas em perspectiva, né?

Ele arrasta os pés até lá, desanimado, e joga com gentileza a chave de fenda pelo buraco. Ela cai em queda livre por metade da lixeira e bate nos outros objetos proibidos que tem alguma história, um dia tiveram um dono, mas que hoje pertencem a ninguém.



Pronto, estamos novamente dentro da lei. Que alívio, que alegria!

Agradecemos os policiais, devolvo a Lea no carrinho, arrumo a tralha, e lá vamos nós!

Passo a mão nas costas de Simon, tentando confortá-lo. 
Ele vai superar. 
0

A viagem que quase não foi (parte 2)

Ou, O Check In

“Está tranquilo, vai dar tudo certo” era meu mantra naquele dia de viagem. Arrumei as malas – duas grandes, uma de mão, e uma bolsa para a bebê. Estava tudo previamente combinado: eu iria puxar as malas grandes e a da pequena, enquanto o Simon empurraria o carrinho, e a Stella puxaria a mala de mão.

Todos estavam felizes e satisfeitos com suas funções.

Dani, meu querido marido, nos leva para o aeroporto e nos acompanha na fila do check in. É tudo um pouco dramático demais. Ele está triste que nós vamos partir, e as crianças agem como se nunca mais fôssemos nos ver na vida.

Choram e agarram-se às suas pernas.


#Drama é o nosso lema.

Entrego meus documentos para a moça do check in. Mara é o seu nome.

– Então é só você e as crianças?

– Isso mesmo.

– Você está com a autorização do pai? Sem a autorização do pai você não viaja.

– Estou, sim. – Trouxe duas vias impressas PARA CADA FILHO, com firma reconhecida no cartório.

– Dos três? – Ela quer saber.

– Mãe a gente já está chegando no avião? – Stella aparece do meu lado e pergunta.

– Já, meu amor, espera um minuto, tá? – Olho para Mara – sim, dos três.

Vasculho a mala de mão atrás das autorizações. Sei que está aqui em algum lugar.

Tiro mamadeira, brinquedo, chupeta extra, roupa limpa, casacos de todos, pacote de bolacha, e vou enfileirando tudo aos olhos de Mara. Até que encontro. Minha linda pastinha da viagem – quando eu quero, eu sou organizada, juro.

Mas eu preciso querer muito.

Alcanço as cópias da autorização que estão dobradas e impecáveis num plástico só para elas e coloco-as em cima do balcão. Olho vitoriosa para Mara.

Ela encara minhas autorizações por meio segundo.

Agora as crianças já estão correndo pelo saguão do aeroporto, abaixando-se para passar entre as filas, e gargalhando felizes.

Dani está atrás deles.

Limpo a garganta e tento usar a minha voz mais gentil.

– Como funciona a questão do bercinho para a minha bebê? Tentei reservar, mas não consegui. – Na verdade, falaram que eu podia pagar 399 dólares e garantir, ou tentar reservar na hora do check in.

399 dólares dá praticamente uma passagem nova. Optei pela segunda opção.

Mara digita um pouco mais no computador. Nisso Stella cai e machuca o joelho, mas o Dani está com ela. É tudo um caos, mas é um caos controlado.

Vai dar tudo certo!

Mara segue digitando. Simon vem até mim e diz que quer ir no banheiro.

– Pede para o papai te levar, amor, que eu estou um pouco ocupada agora, tá?

Me pergunto se Mara está jogando paciência.

Será que as outras mães pagaram 399 dólares pelos seus berços e eu sou a única que deixei para fazer no check in? Dou um suspiro e olho para meu pacote gorducho de sete meses. Vamos juntinhas na cadeira, eu e você, você e eu.

Agradeço a Mara, pego as passagens e é isso.

Bagagem despachada, check in realizado. Hora de partir. Olho para meu marido, de repente me sinto insegura. Acho que ele percebe, porque pergunta:

– Mas Dé, você tem certeza de vai ficar bem com os três sozinha no avião?

Dou o meu sorriso mais confiante. Sou a própria Angelina Jolie com sua dúzia de filhos biológicos e adotados. Plena, determinada, linda e meio misteriosa.

Por dentro estou: Meu santo D’us me ajuda… espero que ninguém faça birra, que os ouvidos não fiquem entupidos, que eles durmam a noite toda, que não atrapalhem os outros passageiros. Que eu tenha sanidade mental.

Verifico a mala de mão de novo. Leite em pó suficiente para seis mamadeiras. Muitas fraldas e lenços umedecidos. Trocas de roupas para todos. Um livrinho de atividades para cada um e muitos, muitos lanches.

Como sou otimista, ainda coloquei o meu livro junto.

Vai que eu tenho alguns minutos livre, não é mesmo?

Continua…

0

A viagem que quase não foi (parte 1)

Então nós íamos para Disney.

Eu não podia acreditar, nós íamos para a Disney! O suprassumo das viagens com crianças, o lugar tido como o mais feliz do mundo, a terra do Mickey Mouse! (Tudo bem que criança se diverte em qualquer lugar, na chuva, na rua, na fazenda e, bom, obviamente, na Disney.)

A ideia era esperar chegar mais perto da data para dar a notícia às crianças, afinal, para quê deixar todo mundo ansioso antes da hora? E juro que eu tinha intenção de cumprir com o plano. Mas os dias foram passando e descobri que eu não tinha maturidade alguma para esconder uma notícia de tamanha magnitude.

Resultado: Contei faltando três semanas.

Não preciso dizer que eles ficaram em êxtase.

Ah, um detalhe: eu iria sozinha com os três. Simon, na época com sete anos, Stella com cinco e Lea com sete meses. Ou melhor, eu ia viajar sozinha com os três do Brasil até Miami, onde encontraria uma amiga que mora lá e também tem três filhos, e juntas iríamos para Orlando fazer uma farra boa. Eu tinha uma porção de milhas para vencer no fim do mês, os filhos da minha amiga estariam de férias, então foi um match.

Não preciso dizer que foram áudios e áudios de whatsapp para combinar todos os detalhes, decidir hotel, parques, lanches, horários.

Estávamos todos em êxtase.

A parte mais legal de ir para a Disney é que você já começa a viajar antes mesmo de entrar no avião. Aliás, hoje é assim com todas as viagens. Hoje em dia você pode fazer pesquisas no Google e descobrir quais os melhores pontos turísticos, os melhores restaurantes e passeios antes mesmo de tirar o seu passaporte.

Se por um lado isso é ruim tira um pouco do mistério e da magia do lugar, por outro, você já chega pronto para a guerra. Já sabe em quais brinquedos ir, quanto tempo vai ficar em cada fila, em qual lugar vale mais a pena comer e até onde planejar as paradas do xixi (relevantes quando se tem filhos pequenos).

Existe até um aplicativo que mostra em tempo real o tamanho da fila de cada brinquedo (juro), e você pode acessar de qualquer lugar do planeta.

Então, dias antes da viagem, vira e mexe eu estava no trânsito ou na fila de supermercado, e abria o aplicativo para ver o que estava rolando em matéria de fila.

Sinceramente? Isso não fazia nada bem para meus níveis de ansiedade.

Inspira, expira, não pira. Se estamos indo para a chuva, é para se molhar. Se for para surtar por causa de fila melhor não ir.  

Pois bem. decidimos hotel, parques, refeições. Escolhemos até roupas combinando e mandamos fazer camisetas iguais para todos, estilo excursão.

Repassamos a programação duzentas vezes. Fizemos um calendário de contagem regressiva que íamos riscando, dia pós dia. As crianças estavam empolgadas. Eu estava empolgada. Minha amiga de Miami estava empolgada.

O que nos aguardava era viagem muito calma e tranquila, como vocês podem imaginar.

2

Abundância

Essa história começa num consultório médico. 

É fim do dia, e minha filha mais velha está passando por um procedimento chatinho envolvendo anestesia, pinças e curativos. 

O doutor é distinto e gentil, e escuta música clássica enquanto trabalha. O único som do ambiente é a valsa de Chopin que toca solene na rádio Cultura FM. 

É nesse momento que a minha pequena Lea, que está lá só de acompanhante, aponta muito interessada para a decoração e pergunta: 

O doutor, muito solícito e didático, explica: 

Para quê? Eu te pergunto…

Stella, que estava tratando o machucado, quase pula da maca com a risada frenética. 

A palavra abundância é nova para elas. 

E pelo visto, muito engraçada.

Elas começam a exclamar a palavra abundância uma para a outra, como se fosse um mantra. 

Um mantra hilário. 

E continuam assim até o fim da consulta.

Que bom que o médico é tranquilo e leva na esportiva. 

E foi assim que um dia aterrorizante de procedimentos médicos se tornou o dia em que elas tomaram conhecimento da palavra abundância.

Digamos que o resto do dia foi abundante em matéria de diversão e farra.

0

A tapioca chegou a minha casa

Eu sei, eu sei. Estou cinco anos atrasada. Talvez mais. 

Tudo começou um mês atrás. Meu filho chegou para mim e perguntou:

FILHO: “Mãe, por que a gente nunca faz tapioca?”

Ele havia acabado de voltar da casa de um amigo, onde aprendeu a incrível arte da tapioca. 

Oras, o que posso responder? Apenas a verdade, nada mais que a verdade:

EU: “Porque eu não sei fazer tapioca, filho.” 

Ele olha pra mim incrédulo.

Entro na defensiva, afinal  estou na quinta série  maturidade as vezes nos falta, mesmo quando somos adultos. 

EU (super madura): “Mas olha, eu sei fazer almôndega, lasanha, batata gratinada…” começo a enumerar.

Ele revira os olhos pra mim e começa a vasculhar o armário da cozinha.

ELE: “Não tem tapioca?” 

EU: “Não, não tem, filho” 

Quando a tapioca virou febre alguns anos atrás, comprei para experimentar e não curti. Pareciam bolinhas de isopor grudadas e sem gosto nenhum. Na época ninguém em casa gostou e o saco inteiro acabou indo parar no lixo.

ELE: “É porque você não sabia fazer, mãe.” Ele insiste. “É gostoso, sério.”

Pois bem, me dou por vencida.

Pego a minha bolsa e saímos para comprar a tal da tapioca. 

Na volta, ele arregaça as mangas e começa a me ensinar essa arte culinária. A cozinha se transforma num caos instantâneo, mas tudo certo, o importante é incentivar a independência, não é mesmo?

Vamos que vamos.

Ele despeja a tapioca, mexe a panela, remexe, espalha o queijo. Admiro sua desenvoltura na cozinha – até pouco tempo atrás ele nem sabia como usar os botões do microondas. 

Aliás, ele nem alcançava o microondas.

ELE: Tá pronto mãe.”

Olho para a tapioca. 

A massa granulada dobrada como um wrap de queijo derretido, e todo o amor e independência do meu filho refletidos naquele pequeno prato de sobremesa. 

Sentamos na mesa e comemos juntos. Ele, satisfeito consigo mesmo. Eu, com uma pontada de orgulho, não vou negar. 

De repente a tapioca pareceu muito mais deliciosa do que eu me lembrava. Um verdadeiro manjar dos céus. Será que é isso o que chamam de Comer Afetivo

Ele finaliza:

ELE: “E se você passar cream cheese, fica muito bom.” 

E não é que ficou mesmo?

Tudo isso pra dizer que a tapioca chegou com tudo na minha casa, marcando uma nova fase de independência alimentar das crianças. Desde então foram frigideiras e frigideiras de lanchinhos e cafés da manhã de tapioca – sempre de queijo. 

Nós até tentamos uma de banana, mas não deu certo! Tivemos de jogar fora. 

Faz parte do jogo né? 

Nem sempre as 

coisas funcionam. 

E tudo bem. 


 

2

5 coisas que eu deveria aprender com minha filha de 4 anos

1. AMOR PRÓPRIO


“Mamãe, eu não estou linda?” Ela pergunta, depois de se maquiar (como só uma criança de quatro anos pode se maquiar), enquanto dá rodopios alegres em frente ao espelho. Seu sorriso vai de orelha a orelha. Ela está genuinamente feliz com o que vê no espelho. Auto aceitação e amor próprio são coisas tão óbvias que nem passam pela sua cabeça.
Enquanto isso, quando foi a última vez que você se olhou no espelho e perguntou a si mesma “MEU DS DO CÉU! Eu não estou linda?!”

2- DIZER NÃO


Filha, vamos arrumar o quarto? Não.
Vamos guardar seus brinquedos? Não.
Vamos colocar uma roupa para sair? Não!
Ela é mestre nessa arte.

E eu, mesmo depois dos trinta, sigo ainda ensaiando um não aqui e um acolá.

3-A CAPACIDADE DE MARAVILHAR-SE COM OS MENORES ACONTECIMENTOS


Ver um cachorro na rua, apertar o botão do elevador ou inventar uma brincadeira nova: tudo é motivo para sorrir, maravilhada, como se nada no mundo fosse mais especial do que aquilo. Entrar no banho quentinho. Colocar o pé no mar, encontrar uma concha legal. Fazer biscoitos de chocolate. Achar uma joaninha é ganhar na loteria!

4-SER LIVRE


Moça, aonde você vai com essa sacola? Moço por que você tem uma capinha de celular amarela? Por que por que por que por que??
Se sentir livre para falar o que se tem vontade de falar e perguntar o que quer. E para sair de casa do jeito que der na telha. Quer ir de pijama? Vai. Quer ir de fantasia da Elsa? Sem problemas. Ultimamente a moda tem sido sair com um sapato diferente em cada pé.
Ser livre é ser espontâneo, autêntico, curioso. Não ter medo de julgamentos, de se expor, de errar e tentar de novo. De ter sonhos grandes e pequenos e ir atrás deles sem medo de ser feliz.

5- SER DETERMINADA


Crianças de quatro anos não desistem. Elas tentam, tentam e tentam mais. Elas confiam, persistem, e seguem persistindo. Eles caem e levantam, caem de novo. E de novo. E quantas vezes forem necessárias. Já pensou se crianças desistissem? Não aprenderiam a andar ou se comunicar. A ler, escrever, ou a fazer qualquer coisa. Enquanto isso as inseguranças podem deixar nós, adultos, paralisados por anos a fio…