0

Um dia no Universal Studios (parte 8)

Ou quando tudo começou a dar errado…

No segundo dia de parque vamos à Universal Studios. A terra do ET, dos Minions, e do Harry Potter.

O dia está lindo e estamos todos animados. Para esse dia, mandamos fazer camisetas vermelhas combinando.

Se ontem usamos tiarinhas de Mickey, hoje estamos uma daquelas famílias inteiras uniformizadas da cabeça aos pés.

É fofo, até.


A Universal Studios é MUITO mais vazia do que o Magic Kingdom. A fila média aqui demora 20 minutos – enquanto no Magic Kingdom, você agradece ao universo por uma fila tão rápida! Por outro lado, existe uma preocupação bem menor em preservar a magia do que na Disney. 

Os funcionários não são seres saltitantes que dizem “tenha um dia mágico”. Eles são apenas simpáticos. Não há princesas e castelos encantados. Além disso, há também um conteúdos mais adultos (Betty Boop, O retorno da Múmia, Homens de Preto, etc.)

Mas estamos priorizando a área infantil, lógico! E o dia está incrível! Os bebês dormem em metade dos brinquedos, mas também estão se divertindo à beça. O calor é de rachar – faz 35 graus na sombra. Usamos os bebedores para nos encharcar de água. 

Vamos seis vezes seguidas na montanha russa do Picapau. O nível de radicalismo dela é compatível com a altura da minha filha de cinco anos. É a montanha russa perfeita! Alta e rápida o suficiente para atiçar os nossos níveis de adrenalina, mas não para nos traumatizar para o resto da vida. 

Depois, paramos no parque de água do George, o Curioso. É a coisa mais graciosa do mundo! Vestimos as crianças com seus trajes de banho, sentamos e ficamos olhando-os enquanto correm de um lado para o outro, descem em escorregadores e brincam com as fontes de água que jorram de todos os lados.

De repente, minha parça de viagem me chama de lado e diz:

“Dé, temos um problema.” Ela passou um tempão no telefone com o marido, e fico preocupada com o que pode ser.

“Está tudo bem? O que houve?”


Olho para cima. O céu está absolutamente azul. Tão azul que enjoa. Não há sinal algum de vento ou de nuvens. Aliás, nem brisa tem. Está um calor desgraçado. 
“Furacão? Que exagero. Deve ser só uma frente fria. Sério. Vamos colocar um casaquinho e seguir viagem.”  Respondo. 

Mas seu tom é grave: 
“Dé… Está todo mundo evacuando a Flórida…”

EVACUANDO a Flórida. Evacuar me parece um termo um pouco exagerado. Olho para ela incrédula. 
“Como assim, evacuar a Flórida? Eu cheguei tipo ontem.”

Um dos efeitos colaterais de se estar na Disney é que a gente fica completamente alheia ao mundo real. Pode cair uma nave espacial, pode explodir a terceira guerra mundial, você está protegida na Terra do Mickey. Você nunca vai ficar sabendo do que acontece do lado de fora. 

“Nós vamos para Nova York depois de amanhã, Dé… Talvez seria bom você ver o que vai querer fazer.” 

Como assim, ver o que vou querer fazer
Só de pensar em pegar mais 7 horas de avião de volta sozinha com as crianças sinto uma tensão subindo. Eu ACABEI de chegar nos Estados Unidos. Não tem a menor condição de eu ir embora.

Decido ignorar o assunto e seguir o dia. 
Varrer esse furacão inconveniente pra baixo do tapete… quem sabe ele some? 

E assim, seguimos o passeio. Assistimos aos shows, vamos ao brinquedo do ET (que é mais velho do que eu) e passamos pela área do Harry Potter – a mais lotada do parque. Tiramos fotos com o Homem Aranha, o Bob Sponja e com a Hello Kitty – todas sem fila nenhuma!

O nosso dia é cheio de aventuras, e esqueço por completo dessa ideia sem cabimento de furacão. 

Os shows da Universal são menos majestosos do que os da Disney, mas ainda assim são vibrantes. A sensação que dá é que a Universal Studios tem um pé no mundo real, enquanto a Disney é pura fantasia.

À noite, chegamos no hotel pouco depois das 20h. Damos janta, banho e colocamos todos para dormir. 

E então o Dani, meu marido, me liga dizendo que teremos de voltar mais cedo da nossa viagem.

Digo que vou ficar ali mesmo, no hotel, até passar essa corrente fria que vocês, pessoas exageradas e pessimistas, chamam de furacão.

Ele é insistente. Pede para  eu ligar o noticiário e mudar a minha passagem.

Digo que não vou mudar a minha passagem. Discutimos, e eu sei que pareço uma garotinha mimada. Digo que não vou a lugar nenhum, que amanhã vamos ao Animal Kingdom conforme combinado e que no outro dia vamos a Legoland.

De repente alguém bate na porta do nosso apartamento.
É um rapaz com o uniforme do hotel.

Mas não é possível que até aqui no hotel eles estejam levando isso a sério. Pelo amor divino, que povo exagerado!!

“Por isso estamos passando de quarto em quarto orientando os hóspedes a se abastecerem com alimentos e itens de uso pessoal que vocês podem vir a necessitar durante os próximos dias.”

Olho para ele incrédula.

Estamos na Disney. Na terra do Mickey. Esse tipo de coisa não acontece na terra do Mickey. Aqui o mundo é cor de rosa, há desfiles musicais e shows de fogos de artifício todos os dias do ano.

“Também não teremos como garantir luz e água.” O rapaz continuou.

Nessa hora sinto um pequeno desespero… Como vamos ficar sem luz e água?

Agradeço e vejo-o sair para bater nas outras portas de quartos. O destruidor de sonhos e viagens. 

Não é um furacãozinho de meia tigela que vai melar a minha viagem, de jeito nenhum! Como boa brasileira que sou, não desisto nunca.

Então precisamos de mantimentos? Pois bem.  Determinada, pego a minha bolsa e aviso minha amiga que vou até o mercado. Podemos até ter furacão, mas teremos furacão com Oreos Double Stuffed, Twix e bolinhas de queijo. 

Ou eu não me chamo Débora. 

Continua

0

A viagem que quase não foi (parte 3)

Ou, O Detector de Metais.

Nos despedimos de papai. Uma despedida digna do filme ET – O Extraterrestre. Parece que nós vamos para outro planeta, ou para a guerra. Ou que faremos um intercâmbio de um ano fora.

Mas não, serão apenas alguns dias longe e, bom, 9 mil quilômetros de distância.

Secretamente, imagino-o se divertindo horrores, ligando para os amigos e combinando um chopp. Talvez até um jantarzinho.

Tudo bem, também estarei me divertindo com o Mickey.

Entramos nos detectores de metal. Estou carregada de tralha. Tenho esperanças de que o policial me veja e se compadeça do meu estado. Mas…

Quero pedir pra ele deixar do jeito que está. Quero dizer “Moço, pelo amor divino, olha o meu estado, olha quanta tralha, já está tudo esquematizado. Por favor, me ajuda aqui…” Mas já viajei outras vezes, e sei que não adianta chorar. Preciso tirar a Lea do carrinho e fechá-lo, e eles precisam comprovar que eu não estou carregando armas ou facas ou qualquer outro objeto cortante.

– Filho, segura aqui sua irmã por favor?

Simon, do alto de seus 7 anos, pega ela no colo. Tiro a bolsa que estava pendurada, tiro o pacote de salgadinhos que alguém abriu e deixou em cima do carrinho, tiro a chupeta dela que estava fixada ali. Aí alguma mágica acontece que começa a surgir tralhas surpresas no carrinho: um pacote de salgadinhos que alguém abriu e deixou ali, uma chupeta, uns brinquedos.

Dobro o carrinho – veja bem, não é nenhum desses modernos que você dobra num passe de mágica com uma mão enquanto carrega o bebê com a outra. Não. É um estilo guarda chuva, daquele que você usa as duas mãos E o pé para fechar.

Mas tudo bem, vamos que vamos!

Carrinho fechado, e toda nossa bagagem de mão espalhada pela esteira do detector de metal. Mala de mão, a bolsa de mão, a mochila das crianças e as tralhas que já estão fora das bolsas só Deus sabe por quê.

Atravesso o detector de metais com a pequena no colo. Os policiais estão bem humorados, as crianças estão colaborando. Todos riem a minha volta, a moça faz piada com Simon,

Tudo está dando certo.

– Senhora, você pode vir aqui um minuto? –  o policial com o rosto mais sério me chama – precisamos verificar o seu carrinho. Você pode abri-lo?

Meu carrinho?

O que pode ter dentro do meu carrinho?

Me pergunto se deixei uma mamadeira de leite, ou, sei lá, uma papinha esquecida lá dentro. Abro o carrinho fazendo alguma piadinha infame sobre “essas coisas sempre acontecem comigo he-he o que será que eu esqueci agora?” (porque, de fato, acontecem. Sempre me param. As últimas vezes foram por uma garrafa de água mineral e por um Hipoglós.)

Estou curiosa para saber o detector de metais encontrou lá dentro hoje.

Acho essa parte da viagem até excitante!!

O policial se abaixa e começa a remexer no bolsão inferior do carrinho – também conhecido por Compartimento de Tralhas. Ele fica ali alguns instantes, eu e as crianças olhando fixamente para ele. Quando o rapaz tira de lá de dentro uma…

Chave de fenda.

Juro.

Não faço a menor ideia de como ela foi parar ali. Mas em sua mão há uma chave de fenda gigantesca, que deve medir uns 30 cm, e faz parte do jogo de ferramentas que tenho em casa, cada uma com o cabo de uma cor.

Lembro que senti tão adulta quando comprei esse conjunto de ferramentas.

Olho incrédula para a chave.

“Gente, quem colocou isso no carrinho? Que loucura, moço, não sei como ela foi parar aí!” As crianças me olham com cara de espanto, eu me pergunto se ele vai chamar a polícia e mandar me prender. Quão fora da lei pode ser levar uma chave de fenda no avião, honestamente? E, bom, olhe para mim. Duas crianças. Um bebê. Uma camiseta meio regurgitada. Ele realmente acha que eu tenho alguma agenda criminosa em mente?

Simon: “Mãe! Vamos ligar para o papai e entregar para ele! Ele deve estar por aqui!”

Simon é meio apegado às coisas. Ele sempre sofre quando separo roupas para ou brinquedos que não usamos mais e coloco na caixa de doação. Quando nos mudamos de apartamento ele literalmente adoeceu.

Encaro seus olhinhos ansiosos e digo: “Tudo bem, pode ligar!”

Os policiais gostam da ideia, as crianças também, e todos dão sorrisos comemorativos.

Ligo para o papai e o celular toca, toca, toca… e nada. Tentamos mais uma vez, já que a fila está tranquila. E então lembro que ele esqueceu o celular em casa.

Sem chance.

Ele não vai atender.

“Filho, vamos ter que jogar fora a chave de fenda…” Digo, sinalizando a grande caixa transparente com tudo o que outros viajantes já tiveram de deixar por ali. Canivetes, tesouras, alicates, saca rolhas, isqueiros.

(Nota: Não há nenhuma chave de fenda.)

Ele olha para a caixa dos objetos abandonados com um pesar palpável.

Sei que é difícil para ele, mas não tem jeito. Também estou chateada pela caixa de ferramentas, mas, bom, estamos indo para Disney. Disney!!

Vamos colocar as coisas em perspectiva, né?

Ele arrasta os pés até lá, desanimado, e joga com gentileza a chave de fenda pelo buraco. Ela cai em queda livre por metade da lixeira e bate nos outros objetos proibidos que tem alguma história, um dia tiveram um dono, mas que hoje pertencem a ninguém.



Pronto, estamos novamente dentro da lei. Que alívio, que alegria!

Agradecemos os policiais, devolvo a Lea no carrinho, arrumo a tralha, e lá vamos nós!

Passo a mão nas costas de Simon, tentando confortá-lo. 
Ele vai superar. 
0

A viagem que quase não foi (parte 2)

Ou, O Check In

“Está tranquilo, vai dar tudo certo” era meu mantra naquele dia de viagem. Arrumei as malas – duas grandes, uma de mão, e uma bolsa para a bebê. Estava tudo previamente combinado: eu iria puxar as malas grandes e a da pequena, enquanto o Simon empurraria o carrinho, e a Stella puxaria a mala de mão.

Todos estavam felizes e satisfeitos com suas funções.

Dani, meu querido marido, nos leva para o aeroporto e nos acompanha na fila do check in. É tudo um pouco dramático demais. Ele está triste que nós vamos partir, e as crianças agem como se nunca mais fôssemos nos ver na vida.

Choram e agarram-se às suas pernas.


#Drama é o nosso lema.

Entrego meus documentos para a moça do check in. Mara é o seu nome.

– Então é só você e as crianças?

– Isso mesmo.

– Você está com a autorização do pai? Sem a autorização do pai você não viaja.

– Estou, sim. – Trouxe duas vias impressas PARA CADA FILHO, com firma reconhecida no cartório.

– Dos três? – Ela quer saber.

– Mãe a gente já está chegando no avião? – Stella aparece do meu lado e pergunta.

– Já, meu amor, espera um minuto, tá? – Olho para Mara – sim, dos três.

Vasculho a mala de mão atrás das autorizações. Sei que está aqui em algum lugar.

Tiro mamadeira, brinquedo, chupeta extra, roupa limpa, casacos de todos, pacote de bolacha, e vou enfileirando tudo aos olhos de Mara. Até que encontro. Minha linda pastinha da viagem – quando eu quero, eu sou organizada, juro.

Mas eu preciso querer muito.

Alcanço as cópias da autorização que estão dobradas e impecáveis num plástico só para elas e coloco-as em cima do balcão. Olho vitoriosa para Mara.

Ela encara minhas autorizações por meio segundo.

Agora as crianças já estão correndo pelo saguão do aeroporto, abaixando-se para passar entre as filas, e gargalhando felizes.

Dani está atrás deles.

Limpo a garganta e tento usar a minha voz mais gentil.

– Como funciona a questão do bercinho para a minha bebê? Tentei reservar, mas não consegui. – Na verdade, falaram que eu podia pagar 399 dólares e garantir, ou tentar reservar na hora do check in.

399 dólares dá praticamente uma passagem nova. Optei pela segunda opção.

Mara digita um pouco mais no computador. Nisso Stella cai e machuca o joelho, mas o Dani está com ela. É tudo um caos, mas é um caos controlado.

Vai dar tudo certo!

Mara segue digitando. Simon vem até mim e diz que quer ir no banheiro.

– Pede para o papai te levar, amor, que eu estou um pouco ocupada agora, tá?

Me pergunto se Mara está jogando paciência.

Será que as outras mães pagaram 399 dólares pelos seus berços e eu sou a única que deixei para fazer no check in? Dou um suspiro e olho para meu pacote gorducho de sete meses. Vamos juntinhas na cadeira, eu e você, você e eu.

Agradeço a Mara, pego as passagens e é isso.

Bagagem despachada, check in realizado. Hora de partir. Olho para meu marido, de repente me sinto insegura. Acho que ele percebe, porque pergunta:

– Mas Dé, você tem certeza de vai ficar bem com os três sozinha no avião?

Dou o meu sorriso mais confiante. Sou a própria Angelina Jolie com sua dúzia de filhos biológicos e adotados. Plena, determinada, linda e meio misteriosa.

Por dentro estou: Meu santo D’us me ajuda… espero que ninguém faça birra, que os ouvidos não fiquem entupidos, que eles durmam a noite toda, que não atrapalhem os outros passageiros. Que eu tenha sanidade mental.

Verifico a mala de mão de novo. Leite em pó suficiente para seis mamadeiras. Muitas fraldas e lenços umedecidos. Trocas de roupas para todos. Um livrinho de atividades para cada um e muitos, muitos lanches.

Como sou otimista, ainda coloquei o meu livro junto.

Vai que eu tenho alguns minutos livre, não é mesmo?

Continua…