Sobre o dia em que um lutador de boxe veio para o jantar

“Dé, um amigo meu vem jantar em casa hoje, tá?” O Dani me avisa.

“Legal! Que amigo?” – pergunto, terminando de digitar um e-mail.

“Um amigo meu da escola… ele tá aqui no Brasil e mandou mensagem no grupo da classe. Falei que podia vir aqui e ele vem.”

Não estava contando com mais alguém para jantar, mas visitas são sempre bem vindas, certo? Coloca mais água no feijão, faz uma saladinha, esquenta uns pãezinhos e serve com patê… É couvert que chama, né? #muitochique

“O Peter é campeão internacional de kickboxing. Olha crianças!” Diz o Dani, mostrando um vídeo em que o nosso novo convidado aparece lutando com um adversário alemão.

Traumatizante.

Um campeão de luta? Seria uma visita interessante. Talvez ele possa ensinar uns passos de artes marciais para as crianças. Talvez um pouco de auto defesa. As crianças se mostram ansiosas para conhecer alguém assim tão diferente – principalmente Simon.

Bom, eis que pontualmente as 19h30 toca a campainha. Eu não escuto, porque estou no banheiro berrando lutando para pentear o cabelo da minha filha de 4 anos (por que elas odeiam pentear o cabelo? Coloco um monte de creme de pentear, sou paciente e delicada. Mas mesmo assim é uma luta)

Quando chego na sala (morrendo de vergonha. Berros são para serem ouvidos só entre os moradores da casa, e olhe lá. O ideal, ideal mesmo, seria não berrar. Mas ainda não atingi esse nível de plenitude) vejo sentado no sofá o rapaz que há 2 horas estava nocauteando um alemão na tela do celular.

Ele tem quase dois metros de altura, e com certeza consegue carregar a mesa inteira de jantar da mesma forma em que eu consigo carregar a travessa de carne com batatas. Me pergunto se a salada extra que e os pãezinhos vão dar conta do recado, e torço para que sim.

Não tem como fazer nada novo agora.

Vamos que vamos.

Ele tem uma voz alta e imperativa, mas é só passar alguns minutos na sua presença que a gente percebe… ele é puro coração.

As crianças não perdem tempo com a fazer perguntas, é óbvio:

Ele solta uma risada e diz que não, nunca.

Então ele olha para meu filho e diz:

Ele fala isso com um tom grave. Simon faz que sim com a cabeça. Ele sabe. Mas uma coisa é quando a mãe vive te explicando isso. Outra é quando um lutador profissional te explica.

Sentamos na mesa e ele conta como entrou nesse mundo da luta. Disse que foi descoberto por um olheiro numa briga de bar (onde para defender um amigo ele teve de brigar contra quatro caras de uma vez só – e ganhou de todos). Na época ele nem pensava em lutar profissionalmente, mas o olheiro insistiu. Pegou seu contato e ligou algumas vezes.

Então ele foi.

Ele conta para nós sobre sua rotina de treino (duas horas de manhã e duas horas no final do dia – totalizando QUATRO HORAS por dia, caso você não seja bom com números). E diz que quando era pequeno, acordava muito cedo e tinha tanta energia que a mãe dele colocou-o pra fazer natação todos os dias antes da escola.

Veja bem, antes da escola. As aulas de natação começavam as 6 horas da manhã. Mãe guerreira? A gente vê por aqui, com certeza absoluta.

Minha filha pergunta o que ele tem no rosto – uma espécie de cicatriz. E ele responde que o rosto dele “ficou assim” depois que ele quebrou a cara numa luta. Nunca conheci ninguém que literalmente quebrou a cara, e por um momento me dou conta do perigo que é a vida dele.

“Vocês fazem esporte?” Ele pergunta para as crianças.

Eles respondem que sim – um pouco tímidos, porque justamente naquela manhã estavam reclamando de que não queriam voltar para suas atividades extracurriculares.

“O esporte vai ajudar vocês a fortalecerem não o seu corpo, mas também a sua mente e seu espírito”

Peter olha para mim e para o Dani em busca de ajuda. É um tema um tanto complexo para explicar para uma criança pequena.

Respondo que é sua alma. Sua essência. A parte mais espiritualizada do nosso ser – que não é formado só pelo nosso corpo e e nossa mente, como também por essa terceira parte, a mais importante. Eles escutam em silêncio.

De sobremesa, cortei algumas frutas e fiz um brownie de chocolate (sem nozes! Por favor, parem de fazer isso com os brownies). Depois de muita risada e bate papo, ele agradeceu e disse que precisava ir.

Deu tudo certo (a comida foi suficiente, amigas!) e agora as crianças acordaram animadas para retomar suas atividades extracurriculares.

Obrigada Peter, por incentivá-los a fazer esporte! E por ajudar a ensinar a eles que nem só de corpo e intelecto é feito o homem.

(ps: desculpe por te desenhar parecido com o Johnny Bravo. Minhas habilidades de ilustração são um tanto limitadas).

One thought on “Sobre o dia em que um lutador de boxe veio para o jantar

Leave a Reply to Esther Cohen Cancel reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s