A mãe mico

Este não é um texto sobre macacos da fauna brasileira em extinção. Poderia ser, mas não. 

É sobre mães e os limites que nossos pré-adolescentes nos pedem para acatar. E sobre a nossa dificuldade em respeitar esses limites.

É sobre a linha tênue que existe entre um mico e uma mãe preocupada.

Tudo começou alguns anos atrás quando ele não quis mais que eu desse beijo nele na frente dos amigos. Até aí tudo bem… O problema é que as coisas foram evoluindo, e hoje tem uma pequena lista de itens que ele não gosta que eu faça, como:

Talvez tudo isso pareça óbvio pra você. Eu mesma, antes de ter um filho de doze anos, achava tudo isso um baita exagero. 

‘Que rídiculo’, eu pensava, ‘o meu filho vai me amar tanto que não vai se importar com essas bobagens. E meu bom senso é tão afiado que eu vou captar quando ele estiver se sentindo desconfortável. Óbvio. Jamais serei uma mãe mico.’

Ah, que gracinha essa ingenuidade. Quase tenho vontade de pegar aquela Débora no colo e dar um abraço. 

Mães de crianças mais velhas: desculpe por não ter acreditado em vocês. Vocês tinham razão. 

Mães de crianças menores: espero que seu bom senso seja mais apurado do que o meu (e olha que me considero uma pessoa até bastante sensata).

Bom, o fato é que essa semana Simon adicionou um novo item à lista… vamos lá:

Era seu primeiro dia da aula de natação. Veja bem, primeiro dia. Ou seja, eu entrei com ele na escola, apresentei para o professor, assisti uns 10 min de aula. Mostrei o vestiário masculino. Sabe? Me certifiquei de que ele estava bem situado na nova rotina. Que estava se sentindo seguro e a vontade.

Pois bem. Quando acabou a aula, ele entrou no carro, olhou para mim com um ar muito sério e disse: 

“Mãe, preciso te pedir uma coisa”

“Claro, meu amor. Fala”

E então ele me solta: 

Olho pra ele incrédula. Um filho pode pedir isso para uma mãe? Ele tem esse direito, alguém sabe me dizer? Esse é um mico classificável para a lista de micos proibidos? 

Quero dizer, você já leu jornal. Você sabe o que pode acontecer com crianças pequenas num banheiro masculino caso um mau elemento entre com ela ali.

Naquele dia, quando mostrei onde era o vestiário masculino, ele demorou um pouco pra sair. Depois de uns dois minutos que ele estava lá dentro, colei na porta e comecei a berrar: 

Eu sei, eu sei. Palmas pra mim. Mas em minha defesa: quanto tempo ele demora pra colocar uma sunga, pelo amor divino? 

Você me entende? Não tem como eu levar meu filho de doze anos – quase um metro e sessenta de altura – comigo no banheiro feminino pra sempre. 

Tenho vontade de fazê-lo? Tenho. Ficaria mais calma? Com certeza. Mas não dá, uma hora eles ficam grandes demais. Tem que soltar no mundo e confiar. 

E aí é rezar pra dar certo mesmo. Aceitar até onde vai o nosso controle, e torcer para que nada de ruim aconteça.

Uma vez paguei esse mico num parque aqui de SP. Simon foi ao banheiro, e lá fiquei eu de tocaia na porta, encarando com os olhos desconfiados todo mundo que entrava e saía.

Em determinado momento comecei a berrar chamá-lo. Foi quando um homem saiu do banheiro, olhou pra mim e disse “Se você não gosta, leva ele no feminino. Pô.” 

PÔ! Não preciso dizer que não foi algo muito inteligente a se dizer para uma mãe preocupada. Desculpa aí atrapalhar o seu xixi, amigo, mas por acaso você tem filhos, ?  

Coitado do homem. Aliás, se você for homem e estiver lendo isso aqui, dá um desconto para as mães que ficam agoniadas na porta do banheiro. Mãe é mãe, por mais descolada, sensata, bacaninha que ela acredite que seja.



No fim deu tudo certo, ele se desculpou, eu me desculpei, e Simon esperou o homem ir embora pra aparecer, roxo de vergonha. #arraseinomico 

A vontade de segurar de baixo da asa é muito grande, mas preciso deixar ele criar as suas próprias e voar pelo mundo. A mim, resta orientar sempre.

Ensinar a se posicionar. A confiar no seu instinto – se sentir que tem algo de errado, que saiba sair imediatamente. Devo ensiná-lo a honrar os seus limites, e que ninguém pode tocar em suas partes. Que infelizmente existe maldade no mundo e que devemos nos proteger dela. É… algumas coisas precisam ser ditas, por mais difícil que pareçam. 

No mais, posso rezar para que as pessoas que cruzem seu caminho sejam boas. 

No fim, com o coração meio apertado, prometi para o Simon que iria tentar. Ele agradeceu, satisfeito. Seguimos para casa, enquanto ele me contava tudo o que aprendeu no primeiro dia de natação…

One thought on “A mãe mico

  1. Hahahahahaha dmais cm sempre! Nao sei se eh mais engraçado ou mais verdadeiro… Meu filho tb tm isso mas ele n sabe se expressar tao bem, ele so fica c vergonha e n fla nd, entao ja eh um começo… hahaha

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