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O dia em que coloquei todo mundo pra meditar

Nesta tarde tudo estava dando errado. Sabe quando acumula? O bilhete importante da escola do Simon sumiu, a Lea pegou uma virose, o prédio estava sem água quente, a porquinha da índia estava com dermatite, o bolo queimou (feio. Saiu fumaça e tudo).

Os três estavam brigando loucamente (pelo lugar no sofá, pelo pop it em formato de sorvete, porque ele esbarrou o pé no ombro dela). Sabe, esse dia?

Caos total!!

Quanto mais eu pedia “Parem crianças” mais eles entendiam “Continuem crianças”, e seguiam escalando o estresse loucamente até beirar o insuportável.

Eu sabia que tinha duas opções: ignorar e esperar eles se virarem sozinhos (as vezes funciona mas me gera um pouco de ansiedade) ou agir. Optei pelo agir (o ignorar envolve comer muito chocolate)

Então fui até o quarto e peguei uma vela linda com aroma de lavanda, com os dizeres Calm Mystery. Sentiu a vibe? Comprei numa promoção e nunca usei. Lembro de ter escolhido a vela na prateleira da loja e pensando “Quero ser essa pessoa zen que faz meditação, acende vela e transcende a realidade”

Era disso que meus filhos estavam precisando. Transcender aquela realidade estreita e míope onde todo mundo culpa todo mundo por tudo, choram, brigam, reclamam, gritam e explodem. Enxergar mais longe.

Então volto até a sala e peço, na minha voz general:

Mãe general em ação!!

A mãe general é beeem mais firme e brava. Mas veja bem, ela não grita histericamente. Não. Ela fala de forma assertiva, ponderada, direta. (Funciona que é uma beleza!) A mãe general é uma pessoa madura e decidida, que sabe o que quer e se comunica com excelência. 

Curiosos (e com um quê de respeito pela mãe general), eles obedecem NA HORA.

No quarto, eu já havia acendido a vela e ligado o celular numa música de cachoeira zen. Manja? Umas flautas relaxantes, uma água que cai. Fico calma só de lembrar.

E então peço, com a voz mais suave:

EU: “Crianças, sentem-se aqui por favor. Cruzem as pernas e olhem a vela um pouco, respirando bem devagar. Nós vamos fazer uma sessãozinha de meditação, porque olha, vocês estão sem condições.”

No primeiro momento eles começam a me zoar. Respiram alto, fingem que estão roncando, engasgando. Fazem sons de pum. Simon simula um ataque respiratório, Stella morre de rir. (Bom, pelo menos estão se entendendo.)

Aguardo, quieta. Eles zoando e brincando com a vela, e eu só esperando, sentada, respirando. Gandhi em ação, tentando passar um espírito de paz, tranquilidade e sanidade mental (foi difícil, palmas pra mim)

Então começo a dizer, numa voz beeeem calma. A própria Monja Coen:

EU: “Sabe, cada um de vocês tem aí dentro um pulmão que trabalha o dia inteirinho pra vocês poderem fazer as suas coisas. Respirem devagar que vocês vão senti-lo.”

Mais barulho de ronco, mais zoeira, mas eu continuo firme e forte, na minha voz pacífica:

EU: “Sintam o quanto o pulmão de vocês pode ficar vazio. Expirem esse ar que está velho aí dentro, que provavelmente foi hoje de manhã pra ir com vocês na escola, e não saiu até agora, porque a gente não respira de verdade durante o dia. Esvaziem tudo, e depois preencham com um pouco de ar novo e fresco.”

Nessa hora eles começam a prestar um pouco de atenção. A zoeira diminui, meu filho puxa o ar, provavelmente preocupado com a qualidade do ar em seu pulmão. As meninas olham para mim em silêncio, atentas.

Continuo:

“Agora aproveitem e tentem sentir o coração de vocês. Coração que pulsa o sangue por toooodo o corpinho de vocês. É por causa dele também que vocês conseguem brincar na escola, comer, caminhar, fazer as coisas que vocês gostam.”

Agora o silêncio é total. Quer dizer, só escutamos as flautas indígenas e os sons da natureza. (E uns carros do lado de fora da janela. São paulo, né, gente). Mas há uma aura de paz, harmonia… uma conexão que se instaurou entre nós. Como se nós quatro estivéssemos 100% presentes ali. De corpo, alma, mente, espírito.

Os três estão de olhos fechados, respirando em silêncio. 


Não sei se é isso que chamam de meditação. Ou de atenção plena.

Estou um pouco chocada. Fomos do caos à paz em minutos. Mas não demonstro nada! Finjo normalidade e sigo o baile. Continuo falando um pouco mais sobre as partes do corpo incrível que eles tem. As mãos, que servem pra tanta coisa. E os pés. E a língua. E os olhos, e o nariz. 

E então paro de falar. Espero algum deles fazer alguma piada sobre para que servem certas outras partes do corpo, mas ninguém faz. Eles seguem em silêncio absoluto, cada um com os próprios pensamentos – sei lá quais.

Nessa hora o Dani chega em casa e abre a porta do quarto. Ele olha a cena como se tivesse entrado na casa errada, ou como se eu tivesse ficado louca. Sinalizo pra ele que sou eu mesma, e que não estou louca, só, bom, zen. O que é uma coisa realmente inédita, mas tudo bem. 

Ele continua com os olhos esbugalhados mas entra na onda. Senta entre as crianças, fecha os olhos e ali fica.

Permanecemos desse jeito até me dar vontade de fazer xixi e eu ter que levantar e interromper o momento (corta clima total – mas em minha defesa, eu já estava com vontade de fazer xixi desde que sentei. O problema é que o xixi das mães sempre fica entre as últimas prioridades da lista.)

Quando volto do banheiro todos já estão de volta a sala, brincando, como se nada tivesse acontecido. Mas algo aconteceu. Naquela noite ninguém mais brigou. E nem no dia seguinte. Eles se trataram com mais intimidade, mais afeto… Como se… se respeitassem mais. Sei lá. A si mesmos e um ao outro.

Tudo bem, no outro dia já estavam de volta à vida normal, brincando, brigando e discutindo. Talvez devêssemos começar a meditar todos os dias? De repente depois do banho….

Acho que preciso comprar mais velas.

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O dia em que a privada entupiu

Um dos marcos do amadurecimento de nossos filhos é quando eles aprendem a usar o banheiro sozinhos. Não é emocionante?? Todo mundo lembra do momento em que eles param de gritar pela casa MAAAAE, ACABEI, e de repente já sabem se virar sozinhos, dar a descarga, lavar as mãos. 

São praticamente mini adultos. 

Pois bem. Essa semana eu estava “tranquila” no meu home office quando de repente: 


Vou até lá verificar o tamanho do estrago. 
Para preservar você, meu querido leitor, vou poupá-los dos detalhes sórdidos. Direi apenas que a água estava tão alta que fiquei com medo de transbordar. 

Acesso o meu cérebro em busca de conhecimentos prévios sobre o assunto. Sei que devo esperar a água descer e depois tentar de novo. Fico ali olhando pro vaso, mas a água desce a meio centímetro por hora.
Não tenho tempo pra isso, preciso voltar ao trabalho. 

Coloco o cesto de lixo do banheiro em cima da tampa privada como um sinal de NÃO USAR. Meus filhos são tão preguiçosos que se verem o cesto lá em cima jamais se dignificarão a tirar – eles mesmo se retiram dali e vão para o meu banheiro.

Na hora seguinte eu fico voltando ao banheiro de meia em meia hora e dando a descarga, jogando coisas que já ouvi falar que funcionam (como água quente, coca cola e bircabonato de sódio) com a esperança de que o conteúdo da privada tivesse a bondade de se retirar para o lugar a que pertence. 


Mas isso não acontece.

Espero mais uma hora (levo filho na atividade, busco filha da casa da amiga) e tento de novo. Nada.
Quando percebo que aquilo não vai dar certo, apelo para o meu amigo fiel, que nunca me deixa na mão:




O primeiro resultado que aparece é um anúncio pago de uma desentupidora 24 horas. Envio uma mensagem e eles respondem na mesma hora, explicando que enviam uma equipe até o local para fazer uma avaliação e passam um preço. Só precisam do meu CEP. 

Equipe? Avaliação? Pelo amor de deus, é uma privada entupida. Não física quântica. Passo meu CEP e eles respondem que tem disponibilidade imediata. 
Acho suspeito. 

Ele só vai me passa um valor quando estiver dentro da minha casa? Acho MUITO suspeito. E ainda mais, estou sozinha com os três. Já pensou se é golpe? 


Agradeço e digo que vou tentar resolver sozinha. 
Se eu consegui parir três crianças, o que é uma privada entupida? Se eu consigo manter a sanidade mental (quase) todo santo dia, o que é uma privada entupida? 

Saber desentupir uma privada aliás é o MÍNIMO que você tem que saber para se tornar um adulto maduro. Digno de ter uma casa. Pronto, virou questão de honra. 

Me sinto empoderada e decidida. 

Arregaço as crianças e chamo as crianças: 


MISSÃO: Comprar material necessário para desentupir essa joça. 
Eles se animam e em minutos estão prontos na porta. 
“Vou levar minha lanterna” diz minha filha. “E eu vou levar biscoito”.  Saímos munidos de mantimentos e materiais. Estou confiante. Não tem como dar errado! 

Vamos até o mercado, mas lá não tem desentupidor. 


“CRIANÇAS, VAMOS!” Saímos correndo do mercado e entramos no carro, velozes e furiosos.

Em 5 minutos chegamos, e outro gentil vendedor me oferece dois produtos IMPRESCINDÍVEIS para se desentupir uma privada:
1-Diabo verde (líquido mágico que você joga lá) (27,90)
2-Um desentupidor (aquele que é uma borracha presa num pau de madeira (28,10)


p.p1 {margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.5px Muli} p.p2 {margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.5px Muli; min-height: 16.0px} span.s1 {font-kerning: none}
Munidos com nossas novas ferramentas, voltamos para casa. Jogamos o diabo verde e rezamos. 
Depois, enfio o desentupidor lá dentro. E sabe o que acontece? 


O PAU SE DESCONECTA DA BORRACHA


Como eles não me pregam a borracha no pau? E defeito de fábrica ou é sempre assim? Agora, além de 
uma privada entupida tenho uma borracha enorme grudada lá dentro.


É o famoso: quando você acha que não dá pra piorar… 

Nisso, as crianças já estão aos berros de tanto rir. 

Simon trouxe o ipad e começou a me filmar, e Lea, a pequena está histérica porque quebramos o mais novo integrante dessa casa – o desentupidor. 

Crianças de 4 anos podem ser extremamente sensíveis e delicadas. 

Bom, vou pular a parte em que eu pesco a borracha com o pau de madeira, e despejo praticamente todo o diabo verde lá dentro.

Só sei que de repente (mais de 1 hora depois) a coisa flui e a privada instantaneamente está nova! Linda, agua cristalina, descargando que é uma maravilha. 

Se existisse um anúncio de vasos sanitários, ela seria a modelo perfeita. 

As crianças estão eufóricas e orgulhosas de si mesmas  – como não estar?

Depois do banho, preparamos milk shakes em comemoração. Afinal, a ocasião merece. 

Resumo da ópera: 

1. Você é capaz de mais coisas do que imagina.

2. Crianças adoram participar de pepinos domésticos – faça-os participar sempre que der. 

3. E mais importante: não menospreze as possibilidades de aprendizados diários. Até uma privada entupida pode te ensinar algo.

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A viagem que quase não foi (parte 1)

Então nós íamos para Disney.

Eu não podia acreditar, nós íamos para a Disney! O suprassumo das viagens com crianças, o lugar tido como o mais feliz do mundo, a terra do Mickey Mouse! (Tudo bem que criança se diverte em qualquer lugar, na chuva, na rua, na fazenda e, bom, obviamente, na Disney.)

A ideia era esperar chegar mais perto da data para dar a notícia às crianças, afinal, para quê deixar todo mundo ansioso antes da hora? E juro que eu tinha intenção de cumprir com o plano. Mas os dias foram passando e descobri que eu não tinha maturidade alguma para esconder uma notícia de tamanha magnitude.

Resultado: Contei faltando três semanas.

Não preciso dizer que eles ficaram em êxtase.

Ah, um detalhe: eu iria sozinha com os três. Simon, na época com sete anos, Stella com cinco e Lea com sete meses. Ou melhor, eu ia viajar sozinha com os três do Brasil até Miami, onde encontraria uma amiga que mora lá e também tem três filhos, e juntas iríamos para Orlando fazer uma farra boa. Eu tinha uma porção de milhas para vencer no fim do mês, os filhos da minha amiga estariam de férias, então foi um match.

Não preciso dizer que foram áudios e áudios de whatsapp para combinar todos os detalhes, decidir hotel, parques, lanches, horários.

Estávamos todos em êxtase.

A parte mais legal de ir para a Disney é que você já começa a viajar antes mesmo de entrar no avião. Aliás, hoje é assim com todas as viagens. Hoje em dia você pode fazer pesquisas no Google e descobrir quais os melhores pontos turísticos, os melhores restaurantes e passeios antes mesmo de tirar o seu passaporte.

Se por um lado isso é ruim tira um pouco do mistério e da magia do lugar, por outro, você já chega pronto para a guerra. Já sabe em quais brinquedos ir, quanto tempo vai ficar em cada fila, em qual lugar vale mais a pena comer e até onde planejar as paradas do xixi (relevantes quando se tem filhos pequenos).

Existe até um aplicativo que mostra em tempo real o tamanho da fila de cada brinquedo (juro), e você pode acessar de qualquer lugar do planeta.

Então, dias antes da viagem, vira e mexe eu estava no trânsito ou na fila de supermercado, e abria o aplicativo para ver o que estava rolando em matéria de fila.

Sinceramente? Isso não fazia nada bem para meus níveis de ansiedade.

Inspira, expira, não pira. Se estamos indo para a chuva, é para se molhar. Se for para surtar por causa de fila melhor não ir.  

Pois bem. decidimos hotel, parques, refeições. Escolhemos até roupas combinando e mandamos fazer camisetas iguais para todos, estilo excursão.

Repassamos a programação duzentas vezes. Fizemos um calendário de contagem regressiva que íamos riscando, dia pós dia. As crianças estavam empolgadas. Eu estava empolgada. Minha amiga de Miami estava empolgada.

O que nos aguardava era viagem muito calma e tranquila, como vocês podem imaginar.

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Abundância

Essa história começa num consultório médico. 

É fim do dia, e minha filha mais velha está passando por um procedimento chatinho envolvendo anestesia, pinças e curativos. 

O doutor é distinto e gentil, e escuta música clássica enquanto trabalha. O único som do ambiente é a valsa de Chopin que toca solene na rádio Cultura FM. 

É nesse momento que a minha pequena Lea, que está lá só de acompanhante, aponta muito interessada para a decoração e pergunta: 

O doutor, muito solícito e didático, explica: 

Para quê? Eu te pergunto…

Stella, que estava tratando o machucado, quase pula da maca com a risada frenética. 

A palavra abundância é nova para elas. 

E pelo visto, muito engraçada.

Elas começam a exclamar a palavra abundância uma para a outra, como se fosse um mantra. 

Um mantra hilário. 

E continuam assim até o fim da consulta.

Que bom que o médico é tranquilo e leva na esportiva. 

E foi assim que um dia aterrorizante de procedimentos médicos se tornou o dia em que elas tomaram conhecimento da palavra abundância.

Digamos que o resto do dia foi abundante em matéria de diversão e farra.

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A tapioca chegou a minha casa

Eu sei, eu sei. Estou cinco anos atrasada. Talvez mais. 

Tudo começou um mês atrás. Meu filho chegou para mim e perguntou:

FILHO: “Mãe, por que a gente nunca faz tapioca?”

Ele havia acabado de voltar da casa de um amigo, onde aprendeu a incrível arte da tapioca. 

Oras, o que posso responder? Apenas a verdade, nada mais que a verdade:

EU: “Porque eu não sei fazer tapioca, filho.” 

Ele olha pra mim incrédulo.

Entro na defensiva, afinal  estou na quinta série  maturidade as vezes nos falta, mesmo quando somos adultos. 

EU (super madura): “Mas olha, eu sei fazer almôndega, lasanha, batata gratinada…” começo a enumerar.

Ele revira os olhos pra mim e começa a vasculhar o armário da cozinha.

ELE: “Não tem tapioca?” 

EU: “Não, não tem, filho” 

Quando a tapioca virou febre alguns anos atrás, comprei para experimentar e não curti. Pareciam bolinhas de isopor grudadas e sem gosto nenhum. Na época ninguém em casa gostou e o saco inteiro acabou indo parar no lixo.

ELE: “É porque você não sabia fazer, mãe.” Ele insiste. “É gostoso, sério.”

Pois bem, me dou por vencida.

Pego a minha bolsa e saímos para comprar a tal da tapioca. 

Na volta, ele arregaça as mangas e começa a me ensinar essa arte culinária. A cozinha se transforma num caos instantâneo, mas tudo certo, o importante é incentivar a independência, não é mesmo?

Vamos que vamos.

Ele despeja a tapioca, mexe a panela, remexe, espalha o queijo. Admiro sua desenvoltura na cozinha – até pouco tempo atrás ele nem sabia como usar os botões do microondas. 

Aliás, ele nem alcançava o microondas.

ELE: Tá pronto mãe.”

Olho para a tapioca. 

A massa granulada dobrada como um wrap de queijo derretido, e todo o amor e independência do meu filho refletidos naquele pequeno prato de sobremesa. 

Sentamos na mesa e comemos juntos. Ele, satisfeito consigo mesmo. Eu, com uma pontada de orgulho, não vou negar. 

De repente a tapioca pareceu muito mais deliciosa do que eu me lembrava. Um verdadeiro manjar dos céus. Será que é isso o que chamam de Comer Afetivo

Ele finaliza:

ELE: “E se você passar cream cheese, fica muito bom.” 

E não é que ficou mesmo?

Tudo isso pra dizer que a tapioca chegou com tudo na minha casa, marcando uma nova fase de independência alimentar das crianças. Desde então foram frigideiras e frigideiras de lanchinhos e cafés da manhã de tapioca – sempre de queijo. 

Nós até tentamos uma de banana, mas não deu certo! Tivemos de jogar fora. 

Faz parte do jogo né? 

Nem sempre as 

coisas funcionam. 

E tudo bem. 


 

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5 coisas que eu deveria aprender com minha filha de 4 anos

1. AMOR PRÓPRIO


“Mamãe, eu não estou linda?” Ela pergunta, depois de se maquiar (como só uma criança de quatro anos pode se maquiar), enquanto dá rodopios alegres em frente ao espelho. Seu sorriso vai de orelha a orelha. Ela está genuinamente feliz com o que vê no espelho. Auto aceitação e amor próprio são coisas tão óbvias que nem passam pela sua cabeça.
Enquanto isso, quando foi a última vez que você se olhou no espelho e perguntou a si mesma “MEU DS DO CÉU! Eu não estou linda?!”

2- DIZER NÃO


Filha, vamos arrumar o quarto? Não.
Vamos guardar seus brinquedos? Não.
Vamos colocar uma roupa para sair? Não!
Ela é mestre nessa arte.

E eu, mesmo depois dos trinta, sigo ainda ensaiando um não aqui e um acolá.

3-A CAPACIDADE DE MARAVILHAR-SE COM OS MENORES ACONTECIMENTOS


Ver um cachorro na rua, apertar o botão do elevador ou inventar uma brincadeira nova: tudo é motivo para sorrir, maravilhada, como se nada no mundo fosse mais especial do que aquilo. Entrar no banho quentinho. Colocar o pé no mar, encontrar uma concha legal. Fazer biscoitos de chocolate. Achar uma joaninha é ganhar na loteria!

4-SER LIVRE


Moça, aonde você vai com essa sacola? Moço por que você tem uma capinha de celular amarela? Por que por que por que por que??
Se sentir livre para falar o que se tem vontade de falar e perguntar o que quer. E para sair de casa do jeito que der na telha. Quer ir de pijama? Vai. Quer ir de fantasia da Elsa? Sem problemas. Ultimamente a moda tem sido sair com um sapato diferente em cada pé.
Ser livre é ser espontâneo, autêntico, curioso. Não ter medo de julgamentos, de se expor, de errar e tentar de novo. De ter sonhos grandes e pequenos e ir atrás deles sem medo de ser feliz.

5- SER DETERMINADA


Crianças de quatro anos não desistem. Elas tentam, tentam e tentam mais. Elas confiam, persistem, e seguem persistindo. Eles caem e levantam, caem de novo. E de novo. E quantas vezes forem necessárias. Já pensou se crianças desistissem? Não aprenderiam a andar ou se comunicar. A ler, escrever, ou a fazer qualquer coisa. Enquanto isso as inseguranças podem deixar nós, adultos, paralisados por anos a fio…

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Todas as estrelas no céu

EU: “Olhem só as estrelas, que lindas, crianças!” 

Chamo as crianças para admirarem o céu estrelado comigo. É uma raridade um céu estrelado em São Paulo.

Simon e Stella, do alto de seus 11 e 8 anos, olham para cima sem emoção alguma e reviram os olhos com sua leve arrogância juvenil como se já não aguentassem mais a mãe idosa lhes apontando algo tão banal quanto a natureza.

Mas Lea, de 4 anos, olha para cima maravilhada. Que delícia que é uma crianças de quatro anos!!

Ficamos ali, nós duas, em silêncio alguns minutinhos, apreciando o céu escuro com seus pontinhos luminosos, que são quase impossíveis de enxergar em São Paulo. Foram meses difíceis, marcados por perdas irreparáveis, dores agudas. Momentos de medo e incerteza. Então é gostoso estar junto com quem se ama. É bom se distrair.

Até que ela pergunta, de repente:

FILHA: “Mamãe, né que todo mundo que morre mora no céu?”

Olho para ela. Seus olhos brilham e seu rostinho reluz com a sabedoria e a compreensão ingênua que só as crianças têm. Uma visão de mundo só delas, que inevitável e infelizmente vai sendo desconstruída com o tempo. Ela insiste:

Suspiro fundo e respondo:

EU: “Não sei, filha.” 

Porque eu não sei mesmo. Para onde vão os nossos queridos, nossos amores, as pessoas que nos deixam aqui para ir para outra dimensão?

Eles vão para outra vida? Somem? Evaporam? Confesso que tenho pensado muito nisso nos últimos meses. Desde que essa pandemia começou e que tantas pessoas queridas se foram.

FILHA: “Vão sim, mãe. Eles moram no céu, junto com as estrelas. O nono. A Marisa. O vizinho. A irmã da sua amiga.”

Ela começa a listar com seus pequenos dedinhos as pessoas amadas que perdemos nos últimos seis meses. Pessoas que nos deixaram com muita dor e uma saudade tão grande que nem cabe na gente.

Sinto o coração apertar. 

Acho que ela percebe. Porque pega minha mão e com sua certeza infinita, diz:

FILHA: “E se você ficar com saudades é só olhar para cima, tá?”

Deixo a dica para todos os saudosos como eu.

Não sei se funciona.

Mas é uma ideia. 

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Chupeta, pra que te quero?

Lembro-me de quando cheguei com meu primeiro filho da maternidade, onze anos atrás. Eu e meu marido havíamos decidido que não daríamos chupeta a ele. Para quê, dizíamos, chupeta é coisa de pais preguiçosos, que não querem verdadeiramente se dedicar à acalmar e educar os filhos.

Pois é. Eu já fui essa mãe, juro. Durou 5 dias.

Corta para algumas noites mal dormidas mais tarde: fui à farmácia, comprei meia dúzia de chupetas e passei a dar graças aos céus por elas existirem. Elas eram mágicas!! Graciosas, com o design fantástico, anatômico e colorido, e, o mais importante: faziam meu filho fechar o berreiro se acalmar. A paz e o silêncio voltaram a reinar no meu lar. Eu podia finalmente ver uma luz no fim do túnel.

Lembro-me deste momento,  observando meu bebê sugando a chupeta, num quase êxtase de paz. Perguntando-me o que mais eu jurei que jamais faria e mais tarde acabaria fazendo (muitas coisas, já adianto por aqui. Mas isso é coisa para outro texto.)

Enfim. Cortamos para quase três anos depois. Meu bebê já é um marmanjão, fala tudo, usa o banheiro quase como adulto e até ganhou uma irmãzinha. O dentista jura que se eu não tirar a chupeta ele ficará dentuço feito a Mônica e terá problema de mordida. Além disso, a chupeta em uma certa idade não é muito aceita socialmente. Então o que temos de fazer? Tirar a santa chupeta.

Mas tirar a chupeta de uma criança nunca é uma coisa fácil. Envolve livrar-se de hábitos antigos e adquirir novos. Envolve sair da zona de conforto. Envolve amadurecer para a próxima etapa. Envolve abrir mão de algo pelo qual se tem uma enorme dependência. Já pensou? Se agora na vida adulta alguém chega para você e diz:

“Veja bem querido, o seu uso exacerbado de celular te faz um mal danado, teremos que jogar ele fora. Mas não se preocupe, vou deixar você escolher um brinquedo bem legal no lugar do seu celular!!!”

Você manda a pessoa para onde? Pois é. Enfim, chegou a hora de tirar a tão amada chupeta. Aquela companheira para todas as horas, que dava alento nos momento difíceis, ajudava a aplacar o choro e a dor. Levo o meu pequeno herói de três anos de idade para o parque, onde jogamos as chupetas para os peixes no lago.

Foram três dias de sofrimento, talvez mais. Mas ele conseguiu superar com estoicismo e se acostumar com a nova realidade – porque crianças se acostumam com tudo.

Bom, minha segunda filha decidiu que gostaria de dar suas chupetas aos pássaros. Há uma linda árvore aqui no meu bairro que foi apelidada de Árvore das Chupetas, e quando chegam à idade certa, crianças de todas as ruas vêm e amarram suas chupetas nos galhos, despedindo-se delas com água nos olhos, dor no coração e uma coragem que eu nunca vi.

Foi difícil, mas sobrevivemos.

Por fim, chegou a vez de minha terceira filha. Já entrou nessa vida com dois irmãos-professores mais velhos. Esperta, rápida no raciocínio, não acredita em fada do dente, nem em coelhinhos dos ovos de chocolate e muito menos em animais falantes. Quando perguntei se ela queria dar a chupeta para os pássaros ou para os peixes, ela respondeu:

Achei sensato. Então perguntei o que ela queria fazer – porque claramente ela sabia muito mais do assunto do que eu. Demoramos para decidir como faríamos, mas por fim ela decidiu trocar as chupetas por uma linda boneca de pano que ela viu na Tok Stok.

Resoluta, ela entrou na loja com sua sacolinha de chupetas e pediu para a moça o que queria. Pagou a boneca em chupetas (só que não) e fomos embora. Decidida, bem resolvida e num nível de determinação que as pessoas só atingem depois dos quarenta. Olhei para ela num misto de orgulho e dor. Sabia o que viria a seguir, naquela noite, quando ela deitasse para dormir.

A noite doeu. E assim seguiu-se por várias noites. Ainda dói um pouco, na verdade.

Crescer não é fácil. Mas é preciso.