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Pandemia não rima com paciência

Decidi levá-los ao cinema.
Eu sei. Eu sei que estamos em pandemia. Que devemos evitar locais fechados e ficar em casa, quietinhos, comportados – Eu sei de tudo isso. E estamos ficando.
Mas aquele era o fim de um dia mais exaustivo que o normal.
Deu problema nas aulas online. Deu problema no trabalho. Deu disputa por brinquedo. Deu briga por atenção. Deu choro. Deu pepino na internet. O jantar queimou.
Ou seja, não era nosso dia.
Ninguém aguentava mais.
E então, tomada por uma inspiração do além, anunciei:
Em plena quarta feira fim de tarde.
O efeito foi instantâneo, eles pararam de brigar e saíram correndo se trocar, sem questionar nada. Em segundos estavam prontos.
Feliz com a minha ideia, chamei o elevador e descemos para o carro. Me achando a própria mãe cool, que faz programas diferentes, sai da rotina. Manja?
O cinema era longe. Mas tudo bem, o trânsito vai ajudar! Vamos manter o bom humor, a presença de espírito. Tudo certo. Vai ser bom! Uma mudança de ares bem vinda, um escape gostoso.
O que acontece quando três crianças estão sentadas juntas no banco de trás por mais do que 30 segundos?
Se você respondeu elas começam a brigar, você acertou.
Tudo bem. Inspira, expira não pira. Liguei o rádio e tentei relaxar. Está tocando Wicked Game, um rock tranquilo que não ouço há tempos. Aumento o som, tentando focar no dedilhado do baixo, nos acordes, na voz aveludada do Chris Isaak.
A briga segue, mas eu estou longe.
De repente, minha pequena de três anos anuncia, com sua vozinha delicada:
Caramba, ainda estamos a 16 minutos do lugar. Lanço para ela um olhar acusador. Aliás, se na vida real existisse aquele olhar de filme, que solta faíscas, coitada, eu teria soltado.
Respiro fundo e pergunto, tentando manter a paciência:
EU: Ah meu Ds, Eu não falei que era para fazer xixi ANTES DE SAIR DE CASA???”
Ela apenas me olhava com seus doces olhos azuis. Entredentes, perguntei se ela conseguia segurar um pouco.
Ela fez que sim. Mas, tadinha, sabe o que é pedir para uma criança segurar o xixi por dezesseis minutos?? (Se o waze estivesse correto) É muito!!
Aí já era.
Veja bem, sou uma pessoa bem paciente em geral. Muito tranquila e de bem com a vida. Mas estamos há oito meses em pandemia. Oito. Meses. De. Rotina. Zoada.
Então a coisa desandou. Comecei a tecer um longo e complexo discurso sobre a importância de fazer xixi antes de sair de casa.

Porque agora íamos atrasar no cinema, que com certeza não ia dar para comprar pipoca, e que tudo isso porque eles não tinham a responsabilidade. Afinal, eu não mandei mil vezes fazer xixi antes de sair? Não mandei? Então por que não foram?
(estão conseguindo captar o QUÃO insuportavelmente irritada eu estava? Pois bem)
Aí, paramos num farol vermelho. E eu seguia berrando dando bronca, firme e forte. Uma mão no volante, a outra movendo-se furiosamente enquanto eu gesticulava  sobre os problemas fisiológicos de se segurar o xixi por muito tempo.
Nesse momento um homem se materializou de repente ao lado do carro. Enrolado num cobertor.
Um mendigo.
Eu tenho o hábito de sempre dar alguma coisa quando alguém me pede na rua. Se eu tiver umas moedas, ou um pacote de bolacha ou uma nota de dois reais, eu dou. E se eu não tenho nada, eu pelo menos abro o vidro digo apenas um oi, hoje eu não tenho, desculpe. Estou sem nada. Fica para a próxima. Ou algo assim*.
Então nesse dia eu abro o vidro na maior naturalidade, ainda focada no discurso sobre os problemas da bexiga cheia, berrando com as crianças a plenos pulmões, e na olho rapidamente para o mendigo:
EU: Olha moço, você me desculpa, mas é que eu estou dando uma bronca aqui atrás
O mendigo olhou para mim, atônito, fez que sim com a cabeça, resmungou qualquer coisa e seguiu sua vida.
Fechei o vidro, de repente me sentindo exausta. Brigar cansa, sabe? É muita energia que vai.
Olho para os três e noto que eles estão segurando o riso. De repente me dou conta do nível de ridículo que consegui atingir. É tudo muito absurdo.
Resignada, esboço um sorriso.
Sentindo-se autorizados, eles começam a rir.
Rio com eles, e em segundos estamos os quatro gargalhando.
Seguimos o resto do caminho as gargalhadas, eles confabulando sobre o que o mendigo deve ter pensado e eu me perguntando qual o nível de loucura eu ainda poderia atingir.
Chegamos no cinema em tempo de fazer xixi e comprar pipoca!

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*Acredito que mesmo quando não tenho nada para dar, o mínimo que posso fazer é responder com educação ao mendigo. Então eu rapidamente abro um pouco o vidro, dou um sorriso e digo que não tenho nada naquele dia. Quando se está na rua precisando de esmola para viver, um pouco de humanidade cai bem. Se não posso oferecer nada de material, pelo menos um resquício de atenção e acolhimento, eu sempre posso.

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Semana Detox… de telas

Depois de quatro meses de quarentena – é sério isso, quatro meses?? Obrigada China, obrigada morcegos. Obrigada políticos. Obrigada a sei lá quem mais dá para culpar. Obrigada. – decidimos fazer uma semana detox aqui em casa.

“Mas detox? Vocês estão comendo light?”

Não, nada a ver com comida ou dietas radicais abomináveis (conforme vocês puderam ver no post anterior, não estou conseguindo focar nisso no momento). É um detox de telas.

Significa que as crianças ficariam uma semana INTEIRA sem ver televisão ou brincar em tablets, videogames e celulares.

Não que eles fiquem MUITOO. Eles só tem ficado… muito. O consumo de eletrônicos aumentou significativamente durante a pandemia. Antes, éramos super regrados. Eles só podiam usar eletrônicos de sexta feira E de domingo. Não havia discussão.

Agora eu acabo deixando um pouco todos os dias. Porque sou um ser humano exausto.

E como eles estavam se tornando cada vez mais viciados – infelizmente as telas fazem isso com as pessoas… quanto tempo por dia você passa no celular? Já olhou? É assustador – decidimos fazer um detox de telas.

Isto é, uma semana inteirinha sem acesso à telas.

Enfim. Segue um relato de como foi a experiência aqui em casa:

Dia 1:

Muito choro e reclamação. Nos tornamos os piores pais do mundo. Injustos e sem coração.

Eles iam esquecer tudo o que estava acontecendo nos desenhos que estavam acompanhando. E por nossa causa TODOS os moradores do The Sims iriam morrer.

As crianças não sabiam o que fazer com si mesmas. Só sentiam a raiva crescente no peito e buscavam nos punir por fazer uma atrocidade daquelas com eles.

Confesso que quase desisti do plano.

Dia 2:

Insistiram de novo. Tentaram barganhar.

Como vocês podem ver, estava fácil a vida.

Novamente fomos chamados de pais injustos.

Escondo o controle da televisão e os tablets no armário do meu quarto, afinal, como dizia o ditado?

Ah. O que os olhos não veem o coração não sente.

Dia 3:

Começam a lembrar de brinquedos que estavam escondidos nos cantos dos armários e que eles não brincavam faz tempo.

Jogos como Cara a Cara, Lince e Twister são desenterrados e voltam a conhecer a luz do dia.

Passaram MAIS DE UMA HORA entretidos numa brincadeira onde eram policiais investigando um crime (não souberam me explicar qual era o crime, mas me garantiram de que a investigação estava indo bem)

Nem mencionaram as telas.

Dia 4: 

Consigo identificar um novo tipo de companheirismo entre eles. Parecem mais gentis e amigáveis. Brigam menos. A casa parece mais calma e civilizada.

Tento me lembrar da pesquisa que li a respeito do assunto. As telas deixam as crianças mais agressivas? Menos criativas? Passivas e vegetantes olhando para o nada. Era isso mesmo?

No fundo eu sei que sim. Mas secretamente espero que não.

Dia 5:

É quase como se as telas nunca tivessem existido. Continuam na brincadeira de investigação (curtiram a ideia de policial)

Fizemos o brownie e eles nem brigaram para lamber a forma. As meninas brincam de casinha, médica e cientistas.

O único que ainda sofre  de abstinência é meu filho de dez anos, que precisa desesperadamente ouvir suas músicas (Legião Urbana, Raul Seixas e Engenheiros do Havaí. Não me pergunte como, desconfio de que estou criando um adolescente revoltado dos anos 90.) Ele também quer continuar mantendo a família e a linda moradia que construiu no The Sims.

Dia 6:

Minha filha de três anos encontra o tablet escondido e todas as memórias voltam, uma a uma. Imagino que ela tenha lembrado de si mesma de banho tomado e pijama assistindo a Masha e o Urso depois de um dia cheio. Ela chora.

Pede pelo desenho.

Quero dar – porque sou dessas. Quero dizer:  “parabéns, meu amor, você aguentou muito bem, pode assistir um pouco de netflix.”

Mas o marido segura as pontas. Diz que não.

Vamos nos distrair um pouco.

Levo-a dar uma volta de carro e comprar um picolé. Vemos carros, cachorros e gente. É uma distração excelente.

Voltamos para casa mais calmas.

Mas durante vários períodos do dia lembra do tablet e pede por ele. De vez em quando até chora.

Dia 7:

Cansei.

Estou exausta. Preciso retornar uma ligação, responder vários emails e terminar o meu trabalho.

Libero um pouco de filme depois do banho.

Conclusão:

Crianças vivem mais do que bem sem telas.

A pessoa que mais sofreu com a semana sem telas, fui eu.

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Querido plano de ser fitness,

Como vai você?

Por aqui tudo ótimo. Indo, vivendo, e postergando a sua chegada a cada dia como sempre. Ainda mais agora na quarentena.

Não me leve a mal, te admiro pacas, sei que você faz maravilhas com as pessoas. Deixa elas mais felizes, satisfeitas, saudáveis. Aumenta o amor próprio, a endorfina, a adrenalina.

Mas olha, sinceramente, é muito difícil colocar você em prática.

Por que? Porque tem horas que só um doce salva. No meu caso especificamente, um chocolate. É inegável que me deixa mais calma, mais alegre, mais paciente. O mundo se torna um lugar melhor e eu, uma mãe melhor.

Mas, em respeito a você, Plano Fitness, desde que fiz trinta anos e percebi que não dá pra ser irresponsável pra sempre – porque açúcar faz mal, aumenta o colesterol, diabetes, tira nossa energia, etc – eu vinha tentando deixar para comer doce só quando a situação estivesse mais caótica, sabe? Quando fosse imprescindível MESMO. De repente numa TPM forte, ou naqueles dias em que as crianças estão atacadas.

Mas preciso confessar que estou com a impressão de que, na vida adulta, o doce é imprescindível TODO SANTO DIA. Porque doce é tipo colo de mãe. E me diga, honestamente, quem não precisa de um aconchegante colinho maternal no fim do dia??

Veja bem:

Dia puxado no trabalho? Brigou com namorado/marido? Chocolate.

Crianças estão discutindo há horas e você já não sabe mais o que fazer? Que tal um pedaço de pavê?

O mundo entrou em colapso e está se despedaçando por causa de uma pandemia que parece se agravar a cada dia e nem a ONU sabe mais o que fazer?

CHOCOLATE, CHOCOLATE, CHOCOLATE.

Juro que vai ajudar.

E nem me venha com a história: “Ah, você pode substituir o chocolate ao leite clássico por linhaça pelo meio amargo”

Sejamos honestos: Isso dá certo para alguém? É que nem dizer que você pode substituir um lindo dia de sol na praia, com agua cristalina e cel azulzinho, por um dia frio com trovoadas na praia. Praia é sempre legal, claro. Mas, dependendo do clima, são duas experiências completamente diferentes.

Entende o que quero dizer? Sem condições. O chocolate amargo ajuda? Quebra um galho. Mas não me diga que um chocolate 80% cacau é a mesma coisa que uma panela morninha de brigadeiro.

Aliás, durante  a quarentena, poucas coisas são mais aconchegantes e terapêuticas do que comer algo bem quentinho, recém saído do forno.

Porque o que a gente faz o dia todo em casa, além de tentar manter algum resquício de rotina e gritar com as crianças para tentar manter a paz no lar (sei que parece contraditório, você ter de gritar para conseguir a paz. De certa forma é, mas quem está pensando em ser coerente num momento como esses né?).

Enfim, segue algumas ideias de coisas que a gente pode fazer e, com certeza, resultará num lar mais feliz e harmonioso:

Biscoitinhos amanteigados (com canela, se preferir)

Brigadeiros enroladinhos com confetes coloridos.

Bolo de cenoura com calda de chocolate.

E quando as crianças estão naquela brigalhada sem fim, que sempre acontece em algum momento da semana  – afinal, compreensível, sem amigos, sem escola, na companhia do outro o dia inteiro – e você já tá com vontade de chorar, qual é o melhor caminho?

Comer bis (ou similares) na cama, todo mundo junto. Intercalando um preto e um branco, e jogar conversa fora.

Então, plano fitness, como eu disse. Te admiro pacas. Mas vai ficar para a próxima.

Quem sabe depois da pandemia eu não me animo?

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*** estão me chamando de velha por utilizar o termo PACAS. Pode isso, produção?

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Maquiagem pra que te quero?

Estou sentada no computador terminando um texto, quando minha filha de três anos aparece e diz que quer me maquiar.

Olha, não é por mal, mas ser maquiada por ela não é das minhas atividades favoritas, sabe? Prefiro brincar de massinha, de lego, de uno… de stop, de desenho… De qualquer coisa. Mas ela simplesmente ama e está decidida.

Então vamos lá né? Tantos dias confinados de quarentena, não dá pra se esquivar da maquiagem pra sempre.

Tento convencê-la a maquiar a si mesma. Sento com ela, pego o celular e mostro uns videos de pessoas se maquiando.

EU: Viu filha? Você pode se maquiar, em vez de maquiar a mamãe, você vai ficar linda!

Ao que ela me responde:

Que bom!!

E claramente eu não sou né? Isso que ela quis dizer. Mas tudo bem.

Pelo menos em matéria de auto estima estamos indo indiscutivelmente bem!

Ela sai correndo em direção ao banheiro, e pelo som sei que ela está abrindo a maquiagenzinha dela (que deve ter uns dois anos, tá velha e provavelmente não faz nada bem para minha pele, que ora decide ter 15 anos e enche de espinha, ora decide que já deu dessa vida e resseca um monte mas vamos ignorar o fato né?) e organizando tudo na pia.

Eu sigo no computador trabalhando, rezando para ela se distrair com alguma coisa no caminho, afinal, crianças de três anos são muito dispersas sabe? Você manda ir fazer xixi ela faz tudo, menos xixi. Você manda pôr sapato pra sair, ela esquece o que foi fazer e volta com um trenzinho de lego.

Mas nesse dia, é óbvio que ela não se distrai. Na verdade está super empolgada.

ELA: Mãe, tudo pronto! Vem!

Então eu vou, né. E a maquiagem rola solta.

E então, depois de ela passar batom pela minha testa, enfiar sombra na minha orelha e pintar meu cabelo com lápis de olho, eu fico mais ou menos assim:

Viva a quarentena!

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Os fantasmas vieram para o chá

Vamos deixar essa corona-pane de lado um pouco, e focar por um breve momento na mente dócil e completamente alheia aos problemas da vida real de minha pequena de três anos?

Eu estava dormindo. (Quem é mãe sabe a emoção que é este momento do dia.)

Dormia gostoso na minha cama, com meu edredom. Quando de repente, não mais que de repente, senti o corpinho quentinho da minha pequena de três anos entrando do meu lado e se aninhando em mim.

Tentei relutar, mas estava tão gostoso.

E eu estava tão cansada.

“DESENCANA”, pensei.

Abracei ela e voltei a fechar os olhos.

Nada contra quem faz o uso de cama compartilhada, sério. Cada um com suas escolhas!! Mas durante a noite eu particularmente prefiro que eles durmam em suas respectivas camas, por motivos de:

 

Bom, naturalmente, na manhã seguinte acordei quebrada e falei pra mim mesma: Débora, aprende de uma vez que isso não dá certo com você.

O problema foi que naquela noite ela veio, de novo.

Dessa vez eu estava preparada… Despertei, determinada. Peguei ela no colo e a levei para sua própria cama. Fiquei ali um pouco, um zumbi total, e quando senti que dava para dar aquela fugida ninja do quarto, voltei pra minha cama.

Deu certo.

No dia seguinte, perguntei por que ela havia acordado à noite de novo.

ELA: Porque eu estou com medo.

Medo?? De quê, eu perguntei.

Dos fantasmas, ela disse.

Ah, que amor!! Acho que todos passam por isso em algum momento.

EU: Mas filha, não tem fantasma…

FILHA, ultrajada: Tem sim!!

E eu lá vou discutir com a doce imaginação de uma menina de três anos?? Não, né?

EU (me achando esperta): Mas eu mando todos embora quando te coloco pra dormir, meu amor.

Sei…

EU: Então o que você quer fazer? Quer mandar eles para o quarto do seu irmão?

(Notem que sou uma mãe extremamente madura. Parabéns pra mim.)

FILHA, pensativa: Não vai dar certo… eles vão voltar mesmo assim, porque eles gostam de mim.

(Oras, pelo menos em matéria de auto estima estamos indo bem!!)

EU: Já sei, então vamos fazer um cantinho para eles? Uma caminha, com cobertor, travesseiro? Aí eles vão saber que é pra ir pra lá.

(tradução: To topando qualquer coisa pra você perder o medo, dormir tranquila e não me acordar mais a noite)

FILHA (considerando a ideia): E colocar lá no quarto do meu irmão?

EU (ops!!): Sim!!

FILHA (super empolgada): Vamos!!!

Dito e feito.

Pegamos a caminha de bonecas dela, forramos com o lençol de boneca e cobertor. Improvisei um travesseirinho. Depois, ela pediu para fazermos um desenho com uma placa explicative e me disse:

FILHA: Pra eles saberem que aqui é a caminha deles mamãe.

EU: Claro filha, acho importante, senão eles se perdem, né? Já pensou? Vamos fazer um desenho BEM LINDO!!!.

Fazemos o desenho.

EU: Pronto! Está bom assim?

Graças aos céus.

Porém, passam alguns instantes e…

FILHA: Mas mãe…. falta a comidinha!!!!

Ah, beleza.

Vou até a caixa de comidinhas de brinquedo e começo a separar um bolo de mentirinha, uma xícara de chá da Ariel, de repente uma maçã de plástico… Planejo um lanche completo e nutritivo para os nossos visitantes.

Mas não é suficiente para ela.

FILHA, indignada: MÃE!!! Tem que ser comida de verdade!!!

EU: Ah jura?? Ok! O que você quer dar? Fala pra mamãe.

(tradução: To topando qualquer coisa pra você perder o medo, dormir tranquila e não me acordar a noite)

FILHA: Arroz com franguinho.

EU, incerta: OK!

FILHA: No prato da Peppa. Ele gosta da Peppa.

Então fomos de Peppa mesmo.

 

Resumindo:

Tem uma caminha de boneca super aconchegante, com um desenho de fantasmas e e um pratinho da Peppa com arroz e frango à milanesa cortado em cubinhos especialmente para a família de fantasmas. Dentro do quarto do meu filho de dez anos.

 

Resultado:

Essa noite ela dormiu feliz e não acordou durante a noite.

 

Problema:

A comida é perecível e não pode ficar lá, parada. Vou ter de trocar.

 

Mas vamos que vamos!! Quarentena sem fantasmas já está valendo.

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CoronaPane

Sempre tive este blog como um lugar para falar sobre a maternidade de um jeito honesto, leve, otimista (olá mamães em puerpério!! Juro que passa!). É um lugar que recorro quando quero escrever livremente, comentar causos da vida de mãe, etc.

Mas hoje… eu sentei aqui no computador e, olha, honestamente, só consigo pensar em: corona vírus, corona vírus, corona vírus, pandemia, surto apocalíptico, loucura, economia mundial, escolas fechadas, pane.

Porque… bom, está complicada essa situação apocalíptica, sem prazo para acabar.

Eu não sei como você aí do outro lado da tela está se sentindo, mas eu, do lado de cá, estou mais perdida que agulha no palheiro. Sem muita perspectiva sobre o futuro, andando de um lado para o outro feito barata tonta, comendo a casa inteira enquanto tento manter um nível mínimo de normalidade na rotina das crianças, do trabalho e da casa, e, é claro, a sanidade mental de todos.

Está fácil, Brasil. Aliás, mundo.

O que falar para as crianças nesse momento, quando nem a gente que é adulto entende direito o que está acontecendo e tudo muda a cada segundo?

Explicar sobre o bichinho que se espalha, sobre a importância de lavar bem as mãos, usar o álcool 70% e não tocar/respirar/abraçar/beijar/morder o amiguinho, já era. Tudo isso é coisa de 10 dias atrás. Agora, nem amiguinho tem mais.

Agora o buraco é beeem mais embaixo…

Dependendo da idade, não tem muito o que falar. Por exemplo, minha filha de três anos segue feliz e saltitante, completamente alheia aos últimos acontecimentos do mundo. O maior problema da vida dela é vestir a meia da patrulha canina depois do banho e tomar suco no copo da Minnie com canudo rosa.

Mas os grandes… já se inteiraram de que há algo mais errado do que uma simples gripe. Depois de dois dias detidos em casa, sem aulas, nem poder ver os amigos, minha filha de 7 anos escreveu um conto chamado “Coronavirus” (onde há uma epidemia mas tudo acaba bem quando a protagonista (Bia, se chama) acorda e descobre que tudo não passou de um sonho – já pensou??).

Meu filho de 10 tem pesquisado exaustivamente sobre as maiores pandemias que já assolaram a humanidade.

Estou amando, é super animador:

Aguenta coração.

Eles me perguntam sobre a crise. Me perguntam quando a escola vai abrir de novo. Quando eles vão poder sair para passear.

Se é verdade que a comida do mundo vai acabar. Por quê cancelaram a festinha do David.

Hoje, minha filha veio me perguntar se o bisavô vai ficar bem.

Suspirei fundo e disse que sim, para eles não se preocuparem que vai ficar tudo bem.

Porém, eles são insistentes.

Eu tive vontade de falar, EU NÃO SEI. EU QUERIA MUITO SABER! EU QUERIA DIZER QUE É TUDO UMA PEGADINHA DO FAUSTÃO (o que seria estúpido porque eles não fazem ideia de quem é Faustão)

Mas enfim, não posso responder isso né? Então eu só suspirei e disse, sem pensar muito:

EU: Vai ficar tudo bem tá? Porque a mamãe está aqui.

Veja bem: a mamãe, no caso, sou eu. EU. A mamãe – que “tem tudo sob controle”. A mamãe – que “está lá quando precisa”. Essa mãe aí – a “super poderosa” -, sou eu. EU???

Me senti uma farsa, sério. Mas sabe o quê?

Eles não perceberam. Muito pelo contrário. Para eles foi mais do que suficiente.

Assentiram tranquilamente e seguiram para suas atividades, como se tudo aquilo de repente fizesse sentido. Simplesmente porque a mamãe está aqui.

Às vezes a gente exige tanto da gente, né?

Que essa pandemia acabe logo. Que as pessoas sejam compreensivas e tolerantes umas com as outras. Que os memes continuem chegando (por favor não parem!! Bom humor é o melhor remédio. Precisamos dele neste momento.)

Quem possamos compartilhar amor e bons momentos online.

E que possamos ser fortes e serenas como nossos filhos acham que somos.

#fiqueemcasa