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CoronaPane

Sempre tive este blog como um lugar para falar sobre a maternidade de um jeito honesto, leve, otimista (olá mamães em puerpério!! Juro que passa!). É um lugar que recorro quando quero escrever livremente, comentar causos da vida de mãe, etc.

Mas hoje… eu sentei aqui no computador e, olha, honestamente, só consigo pensar em: corona vírus, corona vírus, corona vírus, pandemia, surto apocalíptico, loucura, economia mundial, escolas fechadas, pane.

Porque… bom, está complicada essa situação apocalíptica, sem prazo para acabar.

Eu não sei como você aí do outro lado da tela está se sentindo, mas eu, do lado de cá, estou mais perdida que agulha no palheiro. Sem muita perspectiva sobre o futuro, andando de um lado para o outro feito barata tonta, comendo a casa inteira enquanto tento manter um nível mínimo de normalidade na rotina das crianças, do trabalho e da casa, e, é claro, a sanidade mental de todos.

Está fácil, Brasil. Aliás, mundo.

O que falar para as crianças nesse momento, quando nem a gente que é adulto entende direito o que está acontecendo e tudo muda a cada segundo?

Explicar sobre o bichinho que se espalha, sobre a importância de lavar bem as mãos, usar o álcool 70% e não tocar/respirar/abraçar/beijar/morder o amiguinho, já era. Tudo isso é coisa de 10 dias atrás. Agora, nem amiguinho tem mais.

Agora o buraco é beeem mais embaixo…

Dependendo da idade, não tem muito o que falar. Por exemplo, minha filha de três anos segue feliz e saltitante, completamente alheia aos últimos acontecimentos do mundo. O maior problema da vida dela é vestir a meia da patrulha canina depois do banho e tomar suco no copo da Minnie com canudo rosa.

Mas os grandes… já se inteiraram de que há algo mais errado do que uma simples gripe. Depois de dois dias detidos em casa, sem aulas, nem poder ver os amigos, minha filha de 7 anos escreveu um conto chamado “Coronavirus” (onde há uma epidemia mas tudo acaba bem quando a protagonista (Bia, se chama) acorda e descobre que tudo não passou de um sonho – já pensou??).

Meu filho de 10 tem pesquisado exaustivamente sobre as maiores pandemias que já assolaram a humanidade.

Estou amando, é super animador:

Aguenta coração.

Eles me perguntam sobre a crise. Me perguntam quando a escola vai abrir de novo. Quando eles vão poder sair para passear.

Se é verdade que a comida do mundo vai acabar. Por quê cancelaram a festinha do David.

Hoje, minha filha veio me perguntar se o bisavô vai ficar bem.

Suspirei fundo e disse que sim, para eles não se preocuparem que vai ficar tudo bem.

Porém, eles são insistentes.

Eu tive vontade de falar, EU NÃO SEI. EU QUERIA MUITO SABER! EU QUERIA DIZER QUE É TUDO UMA PEGADINHA DO FAUSTÃO (o que seria estúpido porque eles não fazem ideia de quem é Faustão)

Mas enfim, não posso responder isso né? Então eu só suspirei e disse, sem pensar muito:

EU: Vai ficar tudo bem tá? Porque a mamãe está aqui.

Veja bem: a mamãe, no caso, sou eu. EU. A mamãe – que “tem tudo sob controle”. A mamãe – que “está lá quando precisa”. Essa mãe aí – a “super poderosa” -, sou eu. EU???

Me senti uma farsa, sério. Mas sabe o quê?

Eles não perceberam. Muito pelo contrário. Para eles foi mais do que suficiente.

Assentiram tranquilamente e seguiram para suas atividades, como se tudo aquilo de repente fizesse sentido. Simplesmente porque a mamãe está aqui.

Às vezes a gente exige tanto da gente, né?

Que essa pandemia acabe logo. Que as pessoas sejam compreensivas e tolerantes umas com as outras. Que os memes continuem chegando (por favor não parem!! Bom humor é o melhor remédio. Precisamos dele neste momento.)

Quem possamos compartilhar amor e bons momentos online.

E que possamos ser fortes e serenas como nossos filhos acham que somos.

#fiqueemcasa

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A Maria Fedida e a geração dos politicamente corretos

Estávamos no carro.

Eles estavam se matando brigando no banco de trás. Eu, depois de tentar distraí-los, pedir trezentas vezes para ficarem quietos e ameaçar tirar todos os momentos de lazer da vida deles caso continuassem brigando, já tinha desistido e abstraído. Estava totalmente ligada no modo zen, curtindo tranquilamente minha Alfa FM (sou velha), quando noto que no vidro dianteiro há uma espécie de besouro.

Do lado de fora do carro, graças aos céus.

E, bom, quem tem filho e mora na zona urbana como eu, sabe que deparar-se com um besouro é uma sensação. Que gera praticamente a mesma reação de encontrar, sei lá, o Mickey.

Eles param instantaneamente de brigar e começam a prestar atenção no tal bicho (serei eternamente grata a ele por promover a paz no meu carro)

FILHA DE 7 ANOS: Eca, o que é? Uma barata? Que nojo!

FILHO: Não, não é uma barata, sua burra!

Tem necessidade do xingamento? É sério, precisa disso?

EU (com tom de mãe-brava): Não xinga sua irmã filho, pede desculpas, JÁ.

ELE: O quê?? É burra mesmo..

EU (já sem nenhuma compostura): PEÇA DESCULPAS JÁ!!!!

ELE: Tá, tá, desculpa, hunf…

EU (recuperando a compostura): Gente, é uma Maria Fedida! Olha que gracinha.

Os três olham boquiabertos para o bicho. Os mais velhos começam a contar empolgados sobre suas experiências anteriores com marias fedidas.

Minha pequena, ofendídissima e pegando todas as dores da Maria, diz:

FILHA PEQUENA: Não é Maria Fedida!!! Coitada!

Seus irmãos começam a rir da fofurice.

Realmente, a gente ensina eles que não pode xingar, não pode chamar os outros de nomes pejorativos, e aí vem a mãe e diz “olha lá a Maria Fedida”? Como a gente espera que o mundo faça sentido para eles assim?

FILHA PEQUENA: Mamãe, não pode falar fedida. É uma Maria Boazinha…. que tem cheiro ruim.

FILHO, GENTIL: Esse é o nome dela, não é que ela é fedida de verdade.

Enquanto eles debatiam sobre as causas do fedor e do nome dela, a pequena seguia insistindo que estávamos sendo muito rudes por chamar a pobre bichinha com esse nome, como legítima integrante dessa nova geração politicamente correta, onde a gente não pode mais nem cantar direito a música do atirei o pau no gato direito (tem que ser aquela versão “não atire o pau no gato-to porque isso-so não se faz-faz-faz..” sabe??). E todo os contos de fadas já foram censurados faz tempo (por exemplo, na Chapeuzinho Vermelho original, avó e neta morrem comidas pelo lobo, não há caçador salvador da pátria algum). E, bom, nem vou mencionar as palavras que caíram em desuso por serem consideradas politicamente incorretas.

Enfim.

Chegamos ao nosso local de destino em paz, conversando gentilmente sobre besouros e Marias Fedidas. E por isso, serei eternamente grata à Maria Fedida. Ou Maria Boazinha. Seja lá qual for seu nome.

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NOVO GUIA DE VOCABULÁRIO POLITICAMENTE CORRETO PARA GERAÇÃO ALPHA (nascidos pós 2010)

LOBO MAU: animal que segue seus instintos 

PÉ DE MOLEQUE: pé de menino levado/que gosta de bagunça

LADRÃO: indivíduo que promove o furto 

BRUXA MÁ: fada psiquicamente avariada/traumatizada 

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Volta às aulas

FILHO: Mãe, amanhã eu quero ir para a escola bem cedo!! Pra pegar lugar…

Meu filho de dez anos disse isso ontem, um dia antes da volta às aulas.

EU: Cedo tipo que horas?

ELE: Tipo umas seis, seis e meia.

Me lembrei, então, de quando eu era pequena e fazia minha mãe acordar as 5 da manhã no primeiro dia de aula para me levar na escola escolher o meu lugar na classe (valeu mãe!!!) Na época, todas as crianças chegavam 4h -5h – 6h da manhã para conseguirem ser as primeiras a selecionar o seu assento, que seria praticamente o seu lar na escola durante o resto do ano letivo. Seu porto seguro. Um lugarzinho para chamar de seu naquele ambiente nem sempre amistoso chamado escola.

Era um absurdo, mas de certa forma compreensível.

Então, tomada por essa lembrança (que na época me deixava bastante ansiosa, mas que hoje a tomo com afeto e nostalgia) eu compreendo o desejo do meu filho.

Acordamos bem cedo e chegamos na escola uma hora antes do normal. Mochilas, uniformes, material escolar, tudo certo. Prontos para a guerra a seleção dos lugares. Parei o carro e desci com eles.

Meu filho, então, olha para mim e diz:

EU, ultrajada: Como, tchau mãe? Eu vou subir com você.

FILHO: Não vai, não.

EU, contrariada: Vou sim!  Como não?? Primeiro dia de aula! Quero ver sua sala, sua mesa, tudo o mais.

FILHO: Mãe, NENHUMA MÃE SOBE. Eu já estou no quarto ano. Tchau, sério.

EU (Insistente. Porque sou brasileira e não desisto nunca.): Mas filho, e todo o material? Eu te ajudo a carregar lá para cima.

FILHO: Não. Eu levo mãe. Tchau. Obrigado.

EU: Então tá né… um beijo pelo menos?

Ele revira os olhos, olha para os dois lados para ver se não tem ninguém por perto e assente. Sinto um aperto no coração.

Olho para minha filha de 7 anos e me recomponho.

EU: Filha! Sua vez! Vamos? Vamos lá? Vou subir com você.

EU, em choque: Como não? Primeiro ano primário. Lógico que sobem.

FILHA: Não mãe… Ano passado você foi a única.

EU, brasileira insistente: Poxa, como assim filha? E o seu material? Você vai levar sozinha?

FILHA: Sim né. Dur. Eu não sou bebezinha.

Me deu um beijo rápido e fim.

Lá se foram eles, lutar suas primeiras batalhas do ano, longe de mim. E eu fiquei estática com cara de tacho tentando entender como isso aconteceu.

A vida não te prepara para se tornar “desnecessária” para os filhos. Doeu. Mas acho que faz parte, né? E bom, o que eu posso dizer? É todo aquele drama: A gente põe um filho no mundo, sabe… carrega nove meses… para sermos tratadas assim…

Me recompus, saí de lá e fui atrás de um sundae duplo com calda de chocolate e caramelo. Porque eu merecia.

Infelizmente não encontrei NENHUM lugar aberto, afinal, ainda era de madrugada.

Resumo da ópera:

  • Férias: quem está fora quer entrar, quem está dentro quer sair.
  • O tempo passa rápido pra burro (lembre-se disso nos maus momentos também)
  • Falta na cidade de SP estabelecimentos que fiquem abertos 24 horas para eventuais crises emocionais.

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Em tempo: Meu filho acabou com um lugar no canto da segunda fila. De acordo ele, já havia muitos amigos na classe quando ele chegou. Minha filha conseguiu um na primeira fileira.

Ambos estão satisfeitos.

E eu, por fim, ainda não consegui comer o meu sundae. Decidi desenhá-lo para ver se passa a vontade:

Não passou.

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SOS fim de férias para mães exaustas

Fim de férias, fim de festa, fim da energia das mães que estão na função desde meados de dezembro… mas sabe o que não chega ao fim? O ânimo dos pequenos!! Uhuw!! Não importa o dia ou a hora, eles estão sempre à mil e prontos para novas aventuras!

E como você, mãe, está?

ENTÃO, aí vão algumas dicas de atividades para as mães que, assim como eu, estão exaustas para fazer programas muito elaborados mas não querem deixar de participar do jeito-possível.

1- Esconde-esconde.

É a vez deles te procurarem! Pegue seu livro e escolha um lugar BEM difícil. Se você não está afim de ler, pode pegar o seu tablet com aquela série que você está quase terminando (com fones por favor). Ou, pode ser o seu celular pra você ficar em modo-letargia rodando a tela para baixo sem parar (embora eu não recomende isso). Se quiser ser ainda mais equipada, leva uma barrinha de chocolate (ou de cereal, dependendo se você aderiu ao plano fitness este ano ou não)

IMPORTANTE: Esconda-se num lugar BEM difícil. Não subestime a capacidade dos seus filhos. Se esconda no chuveiro, atrás da porta, no hall de entrada, sei lá. Você que conhece sua casa. Pense num lugar original e difícil de encontrar

Aproveite sua meia hora de paz.

2- Hora do Show!

Fale para as crianças que você A-DO-RA-RIA assistir a um show deles. Pode ser de dança, de música, de piada, de fantoches, do que eles quiserem. Temática livre!! Acomode-se no sofá. Agora relaxe e bom show!

(DICA para quem tem mais de um filho: Altas chances de dar briga, seja pela temática – que cada um vai querer diferente – pela música, pelo ar que cada um respira ou espaço que cada um ocupa na sala. O céu é o limite quando se trata de briga de irmãos, não é mesmo? No pior dos casos, diga que quer shows separados, para você poder olhar para cada um deles direitinho sem perder nenhum movimento.

 

 

3- Brincar de médico

Diga: Crianças, estou muito doente. Preciso de cuidados médicos. Não consigo nem me mexer. Tragam a maleta de médico.

Agora deite-se no chão/sofá/cama e interprete o paciente em coma.

Você tem pelo menos 20 minutos aí, aproveite.

 

4- A boa e velha TV

Escolha um filme que você gosta (de sua infância ou sei lá, o que estiver afim de assistir) e convide-os para uma sessão pipoca exclusiva de fim de férias. Faça um baldão de pipoca e se joga!

 

 

Se tiver mais ideias de atividades para mães exaustas, por favor compartilha aqui ou me manda na minha página do instagram, porque eu ainda tenho uma semana pela frente =)

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Agora, se você tiver algum material em casa e não estiver tãão exausta assim…

5- Hora dos adesivos

Compre uma cartela adesivos. Pode até ser aquelas de etiquetas redondas e coloridas. Aliás, este é um material que vale muito a pena você ter em casa quando quer uma atividade rápida/fácil/indolor e que eles vão achar incrível (assim como massinha).

Dê para eles e manda eles bolarem uma arte bem linda! Podem colar em você, num caderno ou no papel sulfite e fazer uma linda arte com eles.

6- Encontrar bichinhos no jardim

MATERIAL NECESSÁRIO: Um copo plástico e uma pá. Se quiser elaborar mais ainda, uma lupa de brinquedo. Desça com eles no jardim/quintal/gramado qualquer pedacinho de terra ta valendo.  Mande-os catar bichinhos e trazer todos depois para você avaliar. Tatu bolas, joaninhas, formigas, besouros…. 

IMPORTANTE: Lembre-se que eles que são os estudantes da fauna, e você é apenas a bióloga responsável pelo laboratório, e por isso tem que ficar sentada tomando conta da sede e não pode ir ajudá-los (ou seja, ficar sentada sem fazer nada)

(Ah, depois de olharem os bichinhos com curiosidade, pode devolver ao seu habitat natural.)

7- Hora da limpeza.

Material: um balde, água e um pano ou toalha pequena. Ou só um lencinho umidecido, se você estiver realmente exausta.

Mande eles limparem o chão/ a parede/ qualquer coisa. Eles amam limpar (só quando não precisa limpar de verdade, é claro.)

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Tchau 2019 =)

E 2019 chegou ao fim.

Um ano de muito amor e aprendizado, muitas surpresas, bagunça e confusão. Ri, chorei, vivi um monte. Descobri coisas novas, fiz mais amigos. Cheguei nos trinta (pois é). Foi intenso.

Dizem que estamos sempre evoluindo como pessoas, que nunca podemos parar. Oras, se for assim é inconcebível acabar um ano do mesmo jeito que começamos ele, né? Então vai aí um balanço de algumas das lições mais importantes que aprendi em 2019 e que levo para 2020.

1- Aprendi que, afinal de contas, eu não sou assim tão jovem, descolada e moderna quanto eu achava que era… mas tudo bem. A verdadeira juventude está na nossa essência, e já decidi que, pelo menos por dentro, serei sempre jovem.

2- Que a gente tem uma mania compulsiva da nossa geração de querer resolver tudo e superar cada vírgula da nossa vida. Mas a descoberta do ano foi que… nem sempre a gente consegue. Nem tudo na vida a gente supera, e tudo bem! A vida segue. E, se tivermos sorte, com mais significado.

3- Aprendi que nem sempre podemos controlar os acontecimentos. Gostamos muito de acreditar que sim – talvez por ingenuidade ou arrogância – acreditamos que temos esse poder supremo sobre tudo. Mas a vida sempre surpreende e mostra que não, não temos.

4- Que as pessoas são diferentes, e cada uma tem suas próprias prioridades. Às vezes a gente discorda e tenta discutir  e argumentar, mas será que vale a pena? Afinal, prioridade é uma coisa muito pessoal.

5- … mas em tempos de internet e redes sociais, o wifi é definitivamente uma prioridade geral da nação.

6- Aprendi que às vezes a gente é muito rígido com a gente mesmo, e precisamos sempre lembrar de nos tratar com mais amor e gentileza. Preste atenção em como trata os outros. Agora pare e pense se você consegue ser naturalmente assim com você também…

7- Aprendi que grande parte da vida é escolha. Nós as tomamos com base nos conhecimento e vontades que temos no momento em que as tomamos. E tudo bem. Cabe a nós lidar com as consequências delas.

 

8- Que têm dias em que as lembranças chegam com tudo e a saudade bate mais forte. E dói e é difícil. Mas que há 99% de chance de sobrevivermos à ela.

9- Que os adultos definitivamente precisam de magia tanto quanto as crianças. A gente acha que cresceu e por isso não precisa/pode/deve mais brincar e se divertir. De jeito nenhum! Preste atenção em como você tem dado toques de mágica à sua vida.

10- Aprendi que (para o total desespero do meu ego) às vezes eu sou super-substituível… E tudo bem. Sobrevivi à isso também.

11- Mas que às vezes, também, eu sou insubstituível!

Obrigada a todos que me seguem. Não sei como agradecer, sério.

Feliz 2020 para nós! Vamos que vamos =)

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À mãe de maiô verde na praia ontem,

Também sou mãe.

Eu era a de azul que estava na barraca atrás de você, enquanto você abraçava e tentava ninar a sua bebê. Quanto tempo ela tem? Uns oito, nove meses? Ela estava quase dormindo no aconchego do seu abraço e quando algum vendedor ambulante passava, ou alguma criança gritava… e ela punha-se a chorar.

Sei bem o que é isso.

Senti sua apreensão ao tentar colocá-la – pela terceira vez – com todo o carinho e cuidado na colcha estendida abaixo do guarda sol. Para que ela dormisse sossegada, afinal, pela piscininha e os brinquedos ao seu lado, presumi que ela já tinha se divertido e visto muita coisa nova por hoje. Era hora de descansar.

Também era o seu momento de se estirar um pouco no sol, tomar uma água de côco, talvez dar um mergulho ou caminhar. Quem sabe abrir o livro que você, otimista, trouxe na bolsa, na esperança de talvez conseguir ler uma ou duas páginas enquanto ouvia o som do mar.

É difícil esse dilema entre ser mãe e mulher, a gente se perde um pouco. Amamos testemunhar cada sorriso e conquista de nosso bebê, mas também ansiamos por nossa hora do respiro. Nosso momento, sagrado. São dois sagrados, o tempo com o bebê e o tempo com nós mesmas. Difícil conciliar.

Ela dormiu, depois de muita resistência – bebês em geral não gostam de dormir, mesmo. Pelo menos os meus também eram assim. E você foi fazer suas coisas. Foi ser um pouco você. Lembrei de quando minha vida era assim, de quando eu podia existir entre as sonecas deles.

É uma fase difícil. Maravilhosa e única, sim! Arrebatadora, divina, apaixonante… mas às vezes tão dura e solitária.

Eu estava atrás de você, olhando os meus pequenos enquanto eles construíam seus castelos e bolos, cavavam buracos pra caçar siri e brigavam pela pá vermelha – mandei brigar baixo para não acordar a sua bebê.

Depois, fui ao mar com eles, e quando voltei, a sua pequena já tinha acordado. Pronta para uma nova aventura sagrada, quem sabe perseguir os passarinhos ou comer mais um pouquinho de areia.

Você conseguiu relaxar um pouco?

Espero que sim.

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Tudo bem vai… Serei mais realista. Abaixo, uma ilustração mais precisa da nossa calma e tranquila manhã na praia:

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O tênis na sala

Chego em casa daquele jeito depois de um dia lotado. Me jogo no sofá. Começo a relaxar o pescoço, sentir os músculos descansarem, quando…. me deparo com eles.

Os sapatos do meu filho.

Como sempre, eles adornam a minha sala de estar, quase como um objeto de arte moderna contemporânea. Sabe? Uma coisa meio conceitual, esparramada entre o sofá e a poltrona.

Mas será possível? Há nove anos (quase dez) ele é meu filho, e há nove anos (quase dez) me pronuncio contra este hábito diário. E olha que não sou das mães mais obcecadas por organização. Aliás, me considero bastante liberal e receptiva à falta de ordem.

Mas não consigo deixar de me perguntar, ali naquele ensolarado fim de tarde, sobre aonde está a dificuldade do meu baixinho (que já não é tão baixinho) em descalçar os raios dos sapatos no quarto. Não estou nem pedindo para que os guarde dentro do guarda roupas – longe de mim!! – peço apenas que os deixe no quarto, e não aqui.

O hábito está tão enraizado nele que secretamente desconfio de que, alguma vez, já deve ter acontecido dele chegar em casa, correr até o quarto e notar que ainda está com os sapatos nos pés. E então dar um suspiro e dizer: “Ah, não!! Esqueci de deixar os meu tênis na sala. Vou lá tirar e já volto”.

Será? Não duvido.

Mas sabe, temos de escolher nossas batalhas, não dá para exigir tudo o tempo todo. Por exemplo, no momento estou focando na causa-toalha-de-banho. Depois de anos muito tempo pedindo e explicando a importância de pendurar a toalha após o uso (deixá-la seca para amanhã, manter o mínimo de organização no lar, etc) eu finalmente consegui!

Considero uma batalha quase vencida. Meus futuros genros e noras poderão reclamar do que for, mas não da toalha jogada na cama.

Já o tênis no armário… essa ainda não posso garantir.

Escuto-os conversando alegremente no meu quarto. Pelo papo, sei que estão brincando de montar um forte na minha cama. Penso em ir lá dar oi, conversar um pouquinho, chamar ele pra recolher o tênis… Como a mãe responsável que eu deveria ser. Que busca sempre educar os filhos, ensinar as coisas…

Mas… não vi eles o dia todo. Não quero chegar assim, já reclamando. Não dá para bancar a mãe chata agora. Aliás, é tão exaustivo ser uma mãe chata. Você não acha? Por mim eu seria sempre uma mãe legal. Quer faltar na escola? Sim! Ver TV a tarde toda e desencanar da lição de casa? Estou dentro! Tomar sorvete para o jantar? Com certeza!

Posso escolher ignorar: simplesmente fingir que nunca vi o sapato aqui, todo errante, entre o sofá e a poltrona. A ideia me parece tentadora.. afinal, amanhã cedo ele já vai ter de usá-lo para ir à escola, mesmo, que diferença faz? Assim, já está mais próximo da porta para ir embora. Será quase um desserviço às nossas atrapalhadas manhãs eu mandá-lo guardar o tênis agora. Oras.

Seria o sapato jogado um sinal de minha negligência materna? Talvez um símbolo da desordem natural da vida? Seria um displicente ato de rebeldia pré adolescente? Ou quem sabe, penso, olhando de relance minha bolsa e casaco que acabei de largar no sofá, seja apenas um ato de entrega, tão doméstico, que nos concedemos ao chegar em casa depois de um dia cheio?

Hoje não será dia de vencer batalhas. Hoje será dia de me unir aos meus pequenos e adoráveis “inimigos” no forte, de repente estourar umas pipocas quentinhas e pedir uma pizza para o jantar.*

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*O jantar foi carne com legumes, arroz, feijão e salada de tomate com palmito. Mas cá entre nós, eu adoraria que tivesse sido pizza.