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À mãe de maiô verde na praia ontem,

Também sou mãe.

Eu era a de azul que estava na barraca atrás de você, enquanto você abraçava e tentava ninar a sua bebê. Quanto tempo ela tem? Uns oito, nove meses? Ela estava quase dormindo no aconchego do seu abraço e quando algum vendedor ambulante passava, ou alguma criança gritava… e ela punha-se a chorar.

Sei bem o que é isso.

Senti sua apreensão ao tentar colocá-la – pela terceira vez – com todo o carinho e cuidado na colcha estendida abaixo do guarda sol. Para que ela dormisse sossegada, afinal, pela piscininha e os brinquedos ao seu lado, presumi que ela já tinha se divertido e visto muita coisa nova por hoje. Era hora de descansar.

Também era o seu momento de se estirar um pouco no sol, tomar uma água de côco, talvez dar um mergulho ou caminhar. Quem sabe abrir o livro que você, otimista, trouxe na bolsa, na esperança de talvez conseguir ler uma ou duas páginas enquanto ouvia o som do mar.

É difícil esse dilema entre ser mãe e mulher, a gente se perde um pouco. Amamos testemunhar cada sorriso e conquista de nosso bebê, mas também ansiamos por nossa hora do respiro. Nosso momento, sagrado. São dois sagrados, o tempo com o bebê e o tempo com nós mesmas. Difícil conciliar.

Ela dormiu, depois de muita resistência – bebês em geral não gostam de dormir, mesmo. Pelo menos os meus também eram assim. E você foi fazer suas coisas. Foi ser um pouco você. Lembrei de quando minha vida era assim, de quando eu podia existir entre as sonecas deles.

É uma fase difícil. Maravilhosa e única, sim! Arrebatadora, divina, apaixonante… mas às vezes tão dura e solitária.

Eu estava atrás de você, olhando os meus pequenos enquanto eles construíam seus castelos e bolos, cavavam buracos pra caçar siri e brigavam pela pá vermelha – mandei brigar baixo para não acordar a sua bebê.

Depois, fui ao mar com eles, e quando voltei, a sua pequena já tinha acordado. Pronta para uma nova aventura sagrada, quem sabe perseguir os passarinhos ou comer mais um pouquinho de areia.

Você conseguiu relaxar um pouco?

Espero que sim.

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Tudo bem vai… Serei mais realista. Abaixo, uma ilustração mais precisa da nossa calma e tranquila manhã na praia:

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O tênis na sala

Chego em casa daquele jeito depois de um dia lotado. Me jogo no sofá. Começo a relaxar o pescoço, sentir os músculos descansarem, quando…. me deparo com eles.

Os sapatos do meu filho.

Como sempre, eles adornam a minha sala de estar, quase como um objeto de arte moderna contemporânea. Sabe? Uma coisa meio conceitual, esparramada entre o sofá e a poltrona.

Mas será possível? Há nove anos (quase dez) ele é meu filho, e há nove anos (quase dez) me pronuncio contra este hábito diário. E olha que não sou das mães mais obcecadas por organização. Aliás, me considero bastante liberal e receptiva à falta de ordem.

Mas não consigo deixar de me perguntar, ali naquele ensolarado fim de tarde, sobre aonde está a dificuldade do meu baixinho (que já não é tão baixinho) em descalçar os raios dos sapatos no quarto. Não estou nem pedindo para que os guarde dentro do guarda roupas – longe de mim!! – peço apenas que os deixe no quarto, e não aqui.

O hábito está tão enraizado nele que secretamente desconfio de que, alguma vez, já deve ter acontecido dele chegar em casa, correr até o quarto e notar que ainda está com os sapatos nos pés. E então dar um suspiro e dizer: “Ah, não!! Esqueci de deixar os meu tênis na sala. Vou lá tirar e já volto”.

Será? Não duvido.

Mas sabe, temos de escolher nossas batalhas, não dá para exigir tudo o tempo todo. Por exemplo, no momento estou focando na causa-toalha-de-banho. Depois de anos muito tempo pedindo e explicando a importância de pendurar a toalha após o uso (deixá-la seca para amanhã, manter o mínimo de organização no lar, etc) eu finalmente consegui!

Considero uma batalha quase vencida. Meus futuros genros e noras poderão reclamar do que for, mas não da toalha jogada na cama.

Já o tênis no armário… essa ainda não posso garantir.

Escuto-os conversando alegremente no meu quarto. Pelo papo, sei que estão brincando de montar um forte na minha cama. Penso em ir lá dar oi, conversar um pouquinho, chamar ele pra recolher o tênis… Como a mãe responsável que eu deveria ser. Que busca sempre educar os filhos, ensinar as coisas…

Mas… não vi eles o dia todo. Não quero chegar assim, já reclamando. Não dá para bancar a mãe chata agora. Aliás, é tão exaustivo ser uma mãe chata. Você não acha? Por mim eu seria sempre uma mãe legal. Quer faltar na escola? Sim! Ver TV a tarde toda e desencanar da lição de casa? Estou dentro! Tomar sorvete para o jantar? Com certeza!

Posso escolher ignorar: simplesmente fingir que nunca vi o sapato aqui, todo errante, entre o sofá e a poltrona. A ideia me parece tentadora.. afinal, amanhã cedo ele já vai ter de usá-lo para ir à escola, mesmo, que diferença faz? Assim, já está mais próximo da porta para ir embora. Será quase um desserviço às nossas atrapalhadas manhãs eu mandá-lo guardar o tênis agora. Oras.

Seria o sapato jogado um sinal de minha negligência materna? Talvez um símbolo da desordem natural da vida? Seria um displicente ato de rebeldia pré adolescente? Ou quem sabe, penso, olhando de relance minha bolsa e casaco que acabei de largar no sofá, seja apenas um ato de entrega, tão doméstico, que nos concedemos ao chegar em casa depois de um dia cheio?

Hoje não será dia de vencer batalhas. Hoje será dia de me unir aos meus pequenos e adoráveis “inimigos” no forte, de repente estourar umas pipocas quentinhas e pedir uma pizza para o jantar.*

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*O jantar foi carne com legumes, arroz, feijão e salada de tomate com palmito. Mas cá entre nós, eu adoraria que tivesse sido pizza. 

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Um belo dia

Um belo dia você acorda e percebe que dormiu uma noite inteira sem ninguém te acordar.

Que você até conseguiu tomar um banho tranquila, sem ninguém ficar te chamando do lado de fora.

Um belo dia você consegue voltar a ler. E a trabalhar. A malhar, a comer e ver sua série –quase- tranquilamente.

Ter até um tempinho de ócio.

Um belo dia você percebe que logo mais vai poder devolver aquele vaso de cristal na mesa da sala.

Um belo dia aqueles passinhos ligeiros e suaves no corredor se tornam passadas firmes e estrondosas.

E ninguém mais grita mãããe, acabei o cocô.

Um belo dia picoca vira pipoca.

E aquele dentinho que você comemorou tanto quando nasceu, cai.

Um belo dia ninguém te pede para ler um livro, porque já sabem fazê-lo por conta própria.

E aquela peça de roupa, que parece que cresceu junto com eles, de repente não entra mais.

Um belo dia eles ficarão com vergonha que você lhes dê um beijo na frente dos amigos.

E você irá se assustar com a altura deles. Com o jeito maduro/retraído/desenvolto/responsável/engraçado/sério/focado de serem.

Um belo dia eles sem querer dirão alguma verdade que vai te tirar dos trilhos e fazer repensar tanta coisa.

Sei que novos belos dias vão chegar. Eles sempre chegam, entre uma garfada e outra, depois do banho quentinho, ou naquele semáforo que sempre atrasa a gente para chegar na escola.

Desejo apenas conseguir apreciar esses belos dias com toda a beleza que cabe à eles.

Afinal, eles não são chamados de belos dias à toa.

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Sobre quando todo mundo pegou Influenza B

A primeira a ter febre foi minha filha do meio.

Foi um febrão, do nada. Seguido de um dia inteiro de total desânimo. Ela deitando pelos cantos da casa, sem vontade de brincar, bagunçar, comer e nem ver televisão.

A parte da televisão me preocupou.

Mas ela só queria ficar deitada, quietinha.

Levei ao hospital. Lotado, não havia nem onde sentar. Peguei-a no colo porque ela mal conseguia ficar em pé. Até sermos atendidas, o exame realizado, termos um diagnóstico e sermos liberadas para voltar para casa levou cinco horas. CINCO HORAS.

Tratamento: 5 dias do Tamiflu. Antitérmico para febre. Muito líquido. Dieta leve. Sem escola ou qualquer atividade por uma semana. E sem contato com os irmãos, principalmente com a irmã pequena, de apenas dois anos.

Sei. Só se trancafiá-la no quarto. Os três, apesar de brigarem direto, são super grudados.

Chegando em casa com ela, eu tento instaurar e manter uma política de isolamento, mas é só eu sair de perto deles por um minuto que quando volto, estão assim:

Maravilha! Bem na cara da irmãzinha.

E é tiro e queda. Dois dias depois, adivinha quem está com febrão? Pois é. A pequena.

Eu, já mais esperta, responsável e experiente, vou ao hospital com um pedido de exame em mãos, para não pegar a monstruosa fila como da outra vez. Mesmo assim, todo o processo leva um tempo, onde brincamos e desenhamos com aqueles brinquedos e giz de cera contaminados da sala de espera do hospital.

Afinal, ela já está doente mesmo né.. fazer o quê. Que brinque com as coisas

Diagnóstico: Influeza B.

Voltamos para casa, e, enquanto estou na cozinha preparando um suco de laranja para as minhas agora DUAS pacientes, meu filho mais velho aparece meio cambaleando e diz, baixinho: “mãe, não estou me sentindo muito bem”.

“Ah, nãooooo filho!! Você também?????”

Mas só de tocá-lo consigo sentir a fervura de sua pele. Dou um abraço. Penso comigo que ele nem precisa fazer exame, seu diagnóstico é mais do que óbvio.

Nesse momento estou sem ação, me sentindo uma espectadora em uma comédia tragicômica. Mas é lógico que vamos fazer o exame. De novo. Mais uma ida ao hospital.

O manobrista já inclusive virou meu ‘brother’, e fez até piadinha:

Engraçadinho. Pergunto para ele se a terceira vez não pode ser por conta da casa (#engraçadinha).

Enquanto esperamos para sermos atendidos, brinco com o meu filho que ele e as irmãs podiam ter combinado de ficar doentes juntos para a gente economizar a viagem e irmos todos ao hospital de uma vez só, em vez de se revezar. Ele ri. Eu rio. E seguimos para a sala de exames. Só para tirar a dúvida do diagnóstico.

Que deu positivo.

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A Vacina da Febre Amarela

Se você mora no Brasil, deve lembrar-se daquele surto da vacina da febre amarela, no ano passado. Lembra?? Todo mundo aflito atrás de uma dose para chamar de sua, os jornais noticiando as filas quilométricas e o desespero.

Fiquei com dó das crianças, que acabaram entrando nessa onda (porque eles são esponjas, escutam os pais comentando, ouvem no rádio, tv, etc, e quando a gente vai ver eles estão fazendo mil perguntas pertinentes e sabendo de tudo), mesmo sendo muito mais informação do que a cabecinha deles é capaz de processar.

Tadinhos. A imaginação não tem fim.

Sempre tem aquela parcela da população que é super precavida e responsável, que consegue perceber quando haverá uma crise ou um surto de vacinas e se antecipam. (Quem são essas pessoas? Aonde vivem? Do que se alimentam?).

Elas dizem coisas como:

Eu, óbvio, não faço parte deste seleto grupo de seres humanos. Não. Por motivos que fogem da minha compreensão, eu acabo procrastinando e sempre deixo para última hora. E quando dou por mim já não há mais a tal da vacina.

Lembro de ter tentado de todas a maneiras: acordar as crianças cedo e chegar horas antes de abrir o posto. Em vão. A fila virava o quarteirão, subia a avenida e já não havia mais senhas. Não contente, liguei em todos os particulares que conhecia e a resposta era sempre a mesma: acabou e estamos sem previsão de chegada. Talvez em março.

E as filas eram tão grandes, mas tão grandes, que se tornaram referência na cabeça do meu filho. Até hoje, quando vemos pessoas enfileiradas num restaurante, no ponto de ônibus, na casa lotérica, etc, ele comenta:

Acabei conseguindo (em março) a bendita vacina.

Todos tomaram, mas até hoje falam no assunto. Me pergunto quando irão esquecer…

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Sobre perdas e lutos

Se tem um programa que eu amo fazer com as crianças é ir à livraria. Além de ser perto de casa e”kid-friendly”, a diversidade de olhares que existe lá dentro é incrível! Cada livro traz uma história, uma perspectiva diferente sobre o mundo, e eu adoro poder mostrar isso para as crianças.

Então, depois da livraria aqui perto de casa passar seis meses fechada para reforma, ficamos eufóricos quando ela reabriu há algumas semanas. E, é claro, para comemorar a sua volta, combinei que cada um poderia escolher um livro.

Chegamos, empolgados, já cumprimentando Susana, a gentil e simpática vendedora da área infantil que conheço há anos.

Então minha filha responde, solenemente:

“Sério?” pergunta Susana, confusa.

“É. Mas um bebê morreu na barriga da minha mãe, e aí ele não conseguiu nascer, e aí ficou ‘só’ três”.

(Detalhe no ‘‘ três.)

A vendedora olha para mim não sabendo o que responder. Dou um sorriso e digo que isso aconteceu faz tempo, e que não sei o que aconteceu que minha filha está adorando falar desse assunto agora, mas que está tudo bem, não se preocupe. Susana sorri, e seguimos batendo papo.

E então me lembro que, algumas semanas atrás, meu filho veio me perguntar se eu tinha um bebê “que não nasceu”.

Respondi que sim, meio pega de surpresa, até porque nunca comentei com ele do ocorrido. Ele deve ter ouvido eu falar sobre isso com alguém. Expliquei que às vezes as coisas dentro da barriga da mãe não se desenrolam muito bem e aí o bebê pode acabar não nascendo.

Ele escutou, processou a ideia e, sem mais perguntas, se afastou. Então, imagino que ele deve ter corrido contar para a irmã de seis anos, porque alguns minutos depois foi ela quem me apareceu com perguntas. Ela, diferente do irmão, estava completamente obcecada pelo assunto:

Conforme ela ia perguntando, eu respondia. Me pareceu importante dar abertura para ela poder elaborar a ideia, mesmo sendo uma história dolorida. E eis que, poucos minutos depois, ela de fato cansou do assunto e seguiu a vida.

Irmãos mais velhos são sujeitinhos fofoqueiros, não são? Acabo me lembrando de quando eu era pequena e descobri como os bebês são feitos. Segundos depois, fui correndo contar tu-di-nho para a minha irmã dois anos mais nova (que, diga-se de passagem, lidou com a ideia com muito mais classe e maturidade do que eu, que estava absolutamente chocada)

Enfim. Chamo as crianças para ver as novas edições dos livros do Monteiro Lobato. Lemos meia dúzia de histórias. Conversamos mais um pouco com a Susana. Corremos de um lado para o outro querendo absorver cada novo canto da livraria.

E então – em meio à vários: não, não pode dois. O combinado foi um livro só, lembra? A Susana pode separar para a próxima vez. Só um pra cada um, meu povo, só um, já falei… – finalmente, escolhemos um livro para cada e vamos para casa.

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Brincar de cabana

Você brincava de fazer cabana quando era pequeno?

Essa é uma brincadeira muito fácil e é SEMPRE um sucesso. Se você por acaso não teve infância não a conhece, consiste em pegar um lençol antigo (ou uma manta, toalha, o que tiver disponível) e tentar esticá-lo do jeito que der, prendendo-o entre dois móveis, como por exemplo entre dois sofás, formando uma cabana embaixo. Os pequenos piram nisso, colocam a imaginação para trabalhar.. é muito legal.

E no fim, eles acreditam piamente que a cabana deles ficou assim:

Quando na verdade ela é algo assim:

Mas tudo bem né? O importante é eles felizes. E a criatividade à mil.

Eu lembro que brincava MUITO disso com meus irmãos quando era pequena. E hoje em dia meus filhos adoram essa brincadeira também. Tem dias em que eles estão mais inspirados e ficam horas desenvolvendo as melhores técnicas de deixar a cabana esticada e grande (antes de começarem a se matar discutir pela decoração/disposição/espaço/móveis/qualquer assunto da cabana. O que sempre acontece depois de um certo tempo de brincadeira).

Um fator determinante para que ela seja considerada uma cabana de sucesso é se eles conseguem fazer com que fique tudo escuro lá dentro. Logicamente, essa é uma façanha praticamente impossível, mas eu finjo que tento ajudá-los, e fica tudo certo. Depois de um certo tempo tentando eles desistem.

Aí, uma vez montada essa elaborada tenda, eles curtem mobiliá-la, levar livros, lanternas, uma maçã cortada, travesseiros e cobertores, e juram que essa noite sim, eles vão dormir nela.

Bom, essa semana eu estava compenetrada numa leitura enquanto eles montavam uma cabana. Nesse dia em especial os dois estavam super focados e em sintonia, a brincadeira já durava horas sem brigas (o que, como meus leitores já sabem, é uma raridade aqui em casa). Quando de repente eu escuto meu filho de 9 anos comentando com minha filha de 6:

FILHO: Agora só falta fazer um bloquinho de Wi Fi e está pronta.

Um bloquinho de wifi?? Estou intrigada.

EU (precisando me meter no papo): Com assim filho, um bloquinho de wifi? Tipo um modem?

EU: Entendi… e usar o google pra quê por exemplo?

FILHO (após um momento de reflexão): Ah, para se eu precisar pesquisar como fazer fogo, por exemplo.

EU (morrendo de rir): Então tá.

Apresento à vocês caros amigos, a nova geração de montadores de cabanas. Elas são super tecnológicas vêm com wi-fi embutido. Só não possuem fósforos, isqueiros ou boca de fogão.
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*Meu filho fala “desencana”.. o seu também? Acho uma linguagem descolada demais para um menino de nove anos…