3

Quando a polícia me parou

Essa é uma daquelas histórias em que eu peço para que você, caro leitor, se despir de todo e qualquer julgamento. Eu sei que é normal julgar os outros, que fazemos isso o tempo todo, etc, mas hoje preciso de um pouco de amor de você.

Pronto? Parou de julgar? Então vamos lá.

Era uma tarde quente, e eu levei as meninas para tomar um sorvete.

Saindo da lá (com alguns chocolatinhos a mais do que o previsto), acomodei as duas no banco de trás, sentei no meu lugar, tranquei o carro, liguei e quando comecei a dar marcha ré, o alarme do carro disparou.

Sabe aquele alarme insuportável e alto que atrapalha todo mundo? E que a gente xinga quando escuta tocando por mais do que 10 segundos? Então. Esse.

O que essa mãe inteligente que vos escreve fez então?

a) Parou, desceu e tentou resolver o problema.

b) Como estava muito próxima de casa, pensou “bom, deixa eu chegar em casa que a gente resolve isso”

Se você escolheu a primeira opção, devo dizer que você superestima muito a minha maturidade.

E se você optou por B, você acertou.

Não desci para resolver o problema. Estava todo mundo me olhando. Que vergonha. Eu queria ir embora, e como eu estava muito próxima de casa, pensei “bom, deixa chegar em casa que a gente resolve isso”

E então segui dirigindo, com o alarme disparado até em casa.

As meninas brincando no banco de trás, totalmente alheias à situação. Parei no semáforo e tentei desligar o carro, ligar de novo. Destrancar e trancar. Tentei apertar o botãozinho da chave. Enfim, tentei o que dava para tentar naquele momento. Estava distraída nas minhas vãs tentativas de fazer o alarme parar, quando percebo pelo retrovisor que há pessoas se aproximando do meu carro.

Agachadas. Uniformizadas.

E com armas em punhos.

Tipo cena de filme, quando os agentes se aproximam de uma porta ou de um corredor abaixados tentando se proteger porque não sabem se serão surpreendidos pelos ladrões, sabe?

Imagina a cena.

Antes de entrar em pânico, noto que são policiais. Seis deles. SEIS. Dois vem pelo lado direito do meu carro, quatro pelo esquerdo. Uma viatura policial está estacionada bem atrás de mim, com as luzes piscando. Gente, da onde surgiu isso???

Se o carro está com a sirene ligada ou não, não sei dizer, pois minha audição está toda tomada pelo impiedoso alarme do meu próprio carro. Um policial de cabelo castanho que parece o líder do grupo enfia a arma no meu vidro (que é escuro) e faz sinal para eu abrir.

Estou meio em choque, sem entender. Mas bom, quando um policial armado com cara de mau te manda abrir o vidro você faz o que? Abre, é claro.*

Eis que ele grita para os colegas:

TEM CRIANÇAS!!

Como se ele tivesse acabado de dizer alguma palavra mágica, todo mundo baixa as armas e as esconde.

E então ele olha para para mim e diz, agora mais gentilmente:

Atordoada, encosto ali. Entendo o que está rolando: ele acha que eu roubei o carro e fugi com o alarme tocando. Oras, mas isso faria de mim uma fora da lei muito burra mesmo, né?

Começo a me desculpar, me sentindo envergonhada e totalmente culpada, com a certeza de que provavelmente há algum crime ocorrendo neste EXATO MINUTO em algum lugar nas redondezas e todos esses SEIS policiais não estão ajudando quem precisa de verdade porque foram distraídos por uma motorista sem noção, ou seja, eu.

Minhas filhas olham curiosas para o grupinho fardado que se juntou do lado do carro.

Desligo o carro. Mas o barulho continua.

BIII-BIII-BIIII

EU: Moço, mil desculpas. O carro começou a apitar e como eu estava muito perto de casa decidi voltar correndo, pra ver se resolvo isso lá.

O policial me olha como se eu tivesse algum problema mental. Mas suspira, dá um sorriso e pergunta:

ELE: O carro é seu? Você tem os documentos certinho?

Digo que sim.

BIII-BIII-BIIII

E aí sou tomada por uma ideia. Tiro a chave do contato – que, para ajudar no mico, é enfeitada por um penduricalho colorido de lego, golfinho e coração – dou na mão dele e peço:

EU: Será que você pode virar a chave aí na porta pra mim? Agora me ocorreu, talvez isso resolva.

Com firme delicadeza ele encaixa a chave no buraco, vira e magicamente, para meu alívio total, o insuportável barulho cessa.

O policial sorri.

O grupo de policiais comemora o silêncio com sorrisos compreensivos e palavras encorajadoras.

Peço desculpas novamente. Eles dizem que tudo bem, acontece, mas que um carro com alarme disparado andando pelas ruas de SP é um tanto suspeito, então para tomar cuidado da próxima vez.

Quero enfiar minha cabeça na terra e sumir. Agradeço de novo, peço desculpas de novo. E dirijo as duas quadras que faltavam até chegar em casa tentando não causar mais.

Fico feliz em constatar que chegamos sãs e salvas, sem novos dramas pelo caminho.
__________________________________

* Estou ciente de que poderiam ser ladrões disfarçados de policiais. Mas estava muito real e exagerado para ser mentira… e eu sabia que eu estava fazendo algo de errado. Enfim. Que bom que não eram.

Advertisements
0

A Vacina da Febre Amarela

Se você mora no Brasil, deve lembrar-se daquele surto da vacina da febre amarela, no ano passado. Lembra?? Todo mundo aflito atrás de uma dose para chamar de sua, os jornais noticiando as filas quilométricas e o desespero.

Fiquei com dó das crianças, que acabaram entrando nessa onda (porque eles são esponjas, escutam os pais comentando, ouvem no rádio, tv, etc, e quando a gente vai ver eles estão fazendo mil perguntas pertinentes e sabendo de tudo), mesmo sendo muito mais informação do que a cabecinha deles é capaz de processar.

Tadinhos. A imaginação não tem fim.

Sempre tem aquela parcela da população que é super precavida e responsável, que consegue perceber quando haverá uma crise ou um surto de vacinas e se antecipam. (Quem são essas pessoas? Aonde vivem? Do que se alimentam?).

Elas dizem coisas como:

Eu, óbvio, não faço parte deste seleto grupo de seres humanos. Não. Por motivos que fogem da minha compreensão, eu acabo procrastinando e sempre deixo para última hora. E quando dou por mim já não há mais a tal da vacina.

Lembro de ter tentado de todas a maneiras: acordar as crianças cedo e chegar horas antes de abrir o posto. Em vão. A fila virava o quarteirão, subia a avenida e já não havia mais senhas. Não contente, liguei em todos os particulares que conhecia e a resposta era sempre a mesma: acabou e estamos sem previsão de chegada. Talvez em março.

E as filas eram tão grandes, mas tão grandes, que se tornaram referência na cabeça do meu filho. Até hoje, quando vemos pessoas enfileiradas num restaurante, no ponto de ônibus, na casa lotérica, etc, ele comenta:

Acabei conseguindo (em março) a bendita vacina.

Todos tomaram, mas até hoje falam no assunto. Me pergunto quando irão esquecer…

1

Rainha Vitória

FILHO: Pai?

PAI: Fala filho

FILHO: Por que nosso prédio se chama Rainha Victoria?

PAI: Ah filho, porque ela foi uma rainha da Inglaterra.

FILHO: Mas a rainha da Inglaterra não se chama Elizabeth?

PAI: Sim.

PAI: Porque há muito tempo atrás, antes da Rainha Elizabeth, houve uma rainha chamada Victoria.

FILHO: Ah, então ela era rainha da Inglaterra na época que o prédio foi construído?

PAI: Não filho, quando o prédio foi construído já era Rainha Elizabeth.

FILHO: Então por que deram esse nome pro prédio?

PAI: Por que acharam um nome bonito.

Ele pausa e fica pensativo. Ufa. Acho que se contentou com a resposta.

Mas não…

Luiz é o porteiro que trabalha aqui há uns 20 anos.

PAI: Não, o Luiz não estava aqui quando o prédio foi construído.

FILHO: Então quem foi que escolheu esse nome?

PAI: Não sei, talvez o arquiteto do prédio.

Silêncio. Ele pensa e processa as informações.

FILHO: Mas o arquiteto não é o dono do prédio..

PAI: Tem razão.. então talvez o incorporador.

FILHO: E o que é incorporador?

*suspiro*

E por aí a conversa continuou fluindo por mais um bom tempo.

Fim.

Socorro.

 

3

As coisas bonitas que Ele faz

O que é D’us para você?

Alguém que você procura nos momentos difíceis? Um ser supremo que tudo pode? O criador do universo, do céu e da terra e de todos os seres? Seria o acaso, a natureza, as porções de felicidades, os pequenos milagres diários da vida? Seria – e essa dedico aos mais polêmicos – uma invenção do homem? Ou um velhinho de barba branca que mora no céu e recebe e-mails com cada pedido que a gente faz?

Bom, para a minha filha de 4 anos, D’us é uma linda princesa de vestido que arrasta no chão e que mora num castelo rosa-brilhante-de-flores.

Bem gráfico assim mesmo. E ela adora falar de D’us assim, do nada.

E num belo domingo, desses que a gente fica em casa sem fazer nada, meu marido perguntou pra ela ao notá-la concentrada olhando pela janela através do horizonte:

PAPAI: Filha o que você está olhando aí?

Profundo o negócio hoje né?

PAPAI: E o que você tá pensando sobre D’us?

FILHA: Estou pensando nas coisas bonitas que ela faz (ela = D’us)

PAPAI: Sério? Que legal filha… tipo que coisas?

E ela suspira, com ar de sabedoria, e responde:

FILHA: Ah, tipo o meu irmão.

Ah claro, tipo o irmão com quem ela por acaso acabou de se matar por um bichinho de pelúcia.

Sem mais.

______________________________________________

Conclusões dessa história:

1- Não tente entender as brigas do seus filhos. Se ninguém estiver se machucando, DESENCANA e vai cuidar da sua vida. Demorei pra aprender essa lição, mas assumo que minha vida mudou MUITO depois de começar a agir assim.

2- Minha filha de 4 anos pensa nas “coisas bonitas que D’us fez”… (Não sei se isso é bem uma conclusão, mas o fato ainda me espanta um pouco… tipo…  o quanto VOCÊ pensa em D’us? E nas coisas bonitas que Ele fez?)

0

Lista de férias

Chegaram as férias! A época mais esperada pelas crianças e temida pelos pais. Compilei uma lista de 15 coisas que pretendo fazer com eles nesse período tão calmo e tranquilo do ano. Vamos ver se consigo realizar todas:

1. fazer uma fotografia de família bonita – daquelas que a gente põe roupa combinando e encontra um ponto da casa que está arrumado pra fazer o clique. Todo mundo tem que sair sorrindo e para isso a gente suborna as crianças com doces e sorvetes.

2. pintar um quadro (a ideia é despertar o picasso – ou tarsila, van gogh, ou romero britto… vai de gosto pessoal – que existe dentro de nós. Consiste em comprar telas, pinceis, e um jogo de tintas. Ah, e forrar a casa inteira com jornais e deixar lenços umedecidos a disposição)screen-shot-2016-12-20-at-3-38-20-pm

3. fazer um bolo (por mais que a gente faça durante o ano letivo é sempre com um pouco de pressa, e nunca dá tempo de fazer a cobertura)

 

4. fazer uma refeição “bem saudável” (pizza, hot dog, hamburger… o que der na telha)

5. tomar um banho de chuva (parece um pouco clichê… mas não é. Honestamente, não lembro quando foi a última vez que meus filhos realmente curtiram uma chuvinha de roupa e tudo!! Lembro que eu na infância fiz isso algumas vezes e foi TÃO gostoso)

6. pular numa poça de lama (sonho deles desde que eles assistiram a Peppa pela primeira vez..)

7. entrar na piscina e sair só quando a pele estiver bem enrugadinha (ou “chupadinha”, como eles chamam.. porque nas férias não tem hora pra nada.. o importante é ser feliz. E gastar muita energia)screen-shot-2016-12-20-at-2-56-31-pm

8. dormir tarde (ok, tarde pra meus filhos dormir tarde é dormir as 21h. Mas tá valendo, super aventureiros!!)

9. fazer uma casinha de caixa de sapato (tenho uma caixa de um tênis do meu filho guardada há mais de seis meses esperando por esse momento. O tênis inclusive já rasgou e se tornou inutilizável. Por que eles duram TÃO pouco??)

10. acompanhar o crescimento do nosso pezinho de feijão (porque no dia a dia a gente esquece de olhar como cresceu de um dia por outro e de repente as crianças já veem a planta pronta crescida!!)

11. tomar um sorvete extravagante (com direito a cauda de chocolate, MMs, cerejas, suspiros, e quantos acompanhamentos a gente quiser!! – se bem que conhecendo meus filhos, já sei que vou acabar comendo o negócio inteiro e eles vão ficar cheios depois de três colheres)screen-shot-2016-12-20-at-3-07-48-pm

12. assistir com eles um filme da minha infância (porque hoje em dia tem muito seriado infantil… tipo Peppa, Patrulha Canina, episódios do Lego e dos Angry Birds, Mickey Mouse Club House, Masha e o Urso… na minha época não existia essas modernidades, se a gente quisesse ver TV era ou filme da Disney ou programação da TV Cultura)

 

13. fazer um caça ao tesouro pela nossa casa (também na minha programação há meses mas no dia a dia simplesmente não dá tempo)

14. não ter pressa pra nada (fazer tudo com calma e tranquilamente, com horários um pouco mais flexíveis. Tipo deixar eles acordarem a hora que quiserem – o que na verdade não muda nada porque eles acordam TODO DIA entre 6:30 e 7 horas. Inclusive domingos e feriados ou quando vão dormir mais tarde...)

IRMAOSS 1

15. último (e meu preferido): deixar eles ficarem desocupados. Simplesmente brisando, olhando para o teto e pensando na imortalidade da alma ou algum outro assunto irrelevante.

2

Irmãos, uma doce relação?

Eles brigam por quem vai usar primeiro o shampoo no banho. Depois, pelo sabonete. Brigam por quem vai entrar primeiro no carro. Por quem ganhou mais sucrilhos, porque a mamãe é injusta, ela deu mais pro meu irmão (ã). Brigam pelas páginas que tem os livros que a gente lê antes de dormir. “O dele (a) é bem mais longo que o meu!! Isso não é justo!” Aliás, a palavra “injusta” é bastante empregada aqui em casa. Geralmente dirigida à minha pessoa.

Brigam por quem vai escolher o filme. Pelo lugar no sofá. Por quem vai entrar primeiro no banho. Depois por quem vai sair primeiro do banho. Brigam pelas canetinhas, pelos lápis de cor, pelos carimbos e pela tesoura sem ponta.

Brigam todo jantar pelo copo de peixinho – só tem um desses copos em casa. E nem é um copo TÃO legal assim. É bem simples, para ser honesta. Na última briga pelo tal do copo, arremessei-o em cima da geladeira, e lá ele ficou (o copo, não os filhos). Tive uma semana mais pacífica depois disso, estou pensando em deixá-lo por lá.

Brigam pelo telefone, pelo iPad, por quem vai pular na cama elástica primeiro (Colocaram uma cama elástica embaixo do meu prédio. Quando ela chegou eu achei que seria uma excelente ideia). Brigam pelas peças do lego (- tem dias que eu preciso contar uma por uma e dividi-las precisamente para cada um ter o exato número de peças que o outro tem). Brigam pela poltrona giratória da sala, pela música que vai tocar no carro, por quem vai falar primeiro. Pelo espaço que o corpo de cada um ocupa na casa – eu nem sabia que era possível brigar por causa disso. Mas descobri que é, sim.

Brigam quando estão jogando memória. Brigam quando estão montando o quebra cabeça do Nemo. Brigam quando jogam Uno, e quando jogam cartas. Brigam tanto, mas tanto, que eu desconfio que eles acordam todas as manhãs pensando “com que briga será que vamos estrear o dia de hoje?”

brigam

Agora com licença que preciso buscá-los da escola e me preparar psicologicamente para a próxima briga no carro…

2

Ameaças não cumpridas

Lembram que nesse post falei um pouco sobre o perigo de não cumprir as ameaças que a gente faz com os filhos?

Então. Segue abaixo um diálogo com o meu filho de seis anos, ocorrido há pouco mais de um mês:

mente

Oi????

EU: Claro que não meu amor! Mamães nunca mentem. Mamães sempre falam a verdade.

FILHO: Não é verdade.. porque lembra aquele dia que você falou que se eu batesse na minha irmã você não ia me levar no parque de bicicletas?

EU: Sei.. (mentira, não faço ideia do que ele está falando.. acho que faz uns 4 meses que não vou no parque das bicicletas) o que que tem ?

FILHO: Então, eu bati nela. E você esqueceu que você falou que não ia me levar e acabou me levando no parque da bicicleta.

Eu não faço a menor ideia de quando foi isso. Tenho uma vaga memória de uma briga e uma ameaça “escapada” da minha boca. Mas acho que mandei essa situação lá pro meu inconsciente, porque apaguei da cabeça.

Me recompus e respondi:

EU: Filho, se eu te levei é porque você depois fez algo que mereceu ir para o parque. Pediu desculpas, fez uma boa ação. – (Ou sei lá eu!!)

E ele, pra me ajudar (e com a memória de ferro que eles sempre tem), responde:

FILHO: Não não, não pedi desculpas não. Mas tudo bem. Depois a gente fez as pazes mesmo.

ameac%cc%a7a2

E foi-se embora. Acho que se contentou com a minha resposta.

Enfim. Tome cuidado com as ameaças que você faz.

Elas podem se virar contra você.