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Doces na escola. Ou sobre como as coisas são e como deveriam ser.

Em todo lugar há regras.

E nós, como seres humanos do bem e civilizados, temos de segui-las, certo? Seja na vida, no mundo, no trabalho, entre família ou amigos.

Na escola dos meus filhos, por exemplo, há uma porção de regras. Não pode levar doces. Nem celular ou videogame. Não pode ir sem uniforme. Não pode “vender coisas”, ou chegar atrasado.

Eu, como mãe, faço o que está dentro do meu alcance para as crianças se manterem “dentro da lei”. Por exemplo, organizo para os uniformes estarem sempre à mão, e me responsabilizo pela gritaria correria de todas as manhãs para eles chegarem cedo na aula.

É um momento bem tranquilo do dia, onde tenho tudo sob controle:

(Sim meu filho é a personificação da desordem. Tadinho, puxou a mãe.)

Mas, milagrosamente, conseguimos chegar à tempo quase todo dia.

No entanto, há algumas coisas que fogem do meu controle. Por exemplo, a última moda na turma do meu filho (de nove anos) é levar mercadorias para vender na escola entre amigos. Mais especificamente, balas e pirulitos – pirulitos que viram chiclete valem mais. Também há vendas ilícitas de cards de Pokémon. De folhas de papel A4 (10 por 1 real), de figurinhas da Copa (se não é da copa do mundo, é da Copa América. Se não é copa América, é copa feminina, senão é Champions League.. Enfim. É um negócio sem fim.)

Numa rápida pesquisa sobre essas vendas, descobri que elas são sazonais e ocorrem apenas enquanto durarem os estoques. Ou seja, hoje o Gabriel* vende balas porque a tia deu pra ele um pacote no fim de semana. E o Pedrinho* vende figurinhas porque completou o álbum e sobraram muitas.

Enfim. O giro é rápido.

Naturalmente, meu filho queria participar desse mercado negro comércio interno, e eu, naturalmente, sentei e expliquei para ele que era proibido na escola. Argumentei que crianças lidando com dinheiro e mercadorias podia gerar confusão. Falei que esta prática fere dois itens da legislação do colégio: o que proíbe levar doces E o que proíbe vender coisas. Confere ao marginal praticamente uma pena de prisão perpétua.

E então ele me disse: 

Respondi que ele não é todo mundo (clássico, bingo pra mim). Que o que certo é certo. Que a gente tem que sempre seguir as leis, fazer o que é correto. Etc. Tentei botar moral no pedaço, sabe?

Mas mesmo depois de toda a conversa ele quis porque quis participar da economia escolar e, eventualmente, acabou tendo o seu momento de vender pirulitos que ganhou da avó (contra a minha vontade e ‘escondido de mim’)

Decidi deixar por conta da escola, afinal uma mãe precisa escolher suas batalhas.

O problema piorou quando minha filha de seis anos decidiu também entrar nessa onda. Antes, quando eu dizia para ela não levar doces na escola, ela obedecia. Mas essa semana no carro a caminho do colégio percebo que ela tem um pacote de balas na mão. Que ela ganhou – adivinha – da avó.

EU com voz acusadora: Filha, aonde que você vai com essas balas? (Me sentindo o próprio Lobo Mau para Chapeuzinho Vermelho)

FILHA: Ué, vou trocar com minhas amigas. Todas levam bala pra trocar.

EU: Trocar?

FILHA: É, trocar.

Na minha época trocávamos papéis de carta e selinhos.

Bom, mas pelo menos elas não vão vender.

EU:  Mas filha isso aí não é proibido pela escola? Não pode dar confusão?

FILHA: Não mãe. É tudo combinado: por exemplo, uma bala grande vale duas pequenas. Um pirulito também, porque dura mais.

Oras, até que elas são organizadas. Existem leis entre os fora da lei, afinal.

EU: Mas filha, não é proibido levar bala na escola??

Me deu um beijo e foi para o seu dia, deixando essa mãe que vos escreve um tanto estarrecida, pensando… será que não é cedo para eles descobrirem que nem sempre as coisas são como deveriam ser?

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* Todos os nomes deste texto foram alterados para preservar a identidade dos fora da lei personagens

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Sobre quando todo mundo pegou Influenza B

A primeira a ter febre foi minha filha do meio.

Foi um febrão, do nada. Seguido de um dia inteiro de total desânimo. Ela deitando pelos cantos da casa, sem vontade de brincar, bagunçar, comer e nem ver televisão.

A parte da televisão me preocupou.

Mas ela só queria ficar deitada, quietinha.

Levei ao hospital. Lotado, não havia nem onde sentar. Peguei-a no colo porque ela mal conseguia ficar em pé. Até sermos atendidas, o exame realizado, termos um diagnóstico e sermos liberadas para voltar para casa levou cinco horas. CINCO HORAS.

Tratamento: 5 dias do Tamiflu. Antitérmico para febre. Muito líquido. Dieta leve. Sem escola ou qualquer atividade por uma semana. E sem contato com os irmãos, principalmente com a irmã pequena, de apenas dois anos.

Sei. Só se trancafiá-la no quarto. Os três, apesar de brigarem direto, são super grudados.

Chegando em casa com ela, eu tento instaurar e manter uma política de isolamento, mas é só eu sair de perto deles por um minuto que quando volto, estão assim:

Maravilha! Bem na cara da irmãzinha.

E é tiro e queda. Dois dias depois, adivinha quem está com febrão? Pois é. A pequena.

Eu, já mais esperta, responsável e experiente, vou ao hospital com um pedido de exame em mãos, para não pegar a monstruosa fila como da outra vez. Mesmo assim, todo o processo leva um tempo, onde brincamos e desenhamos com aqueles brinquedos e giz de cera contaminados da sala de espera do hospital.

Afinal, ela já está doente mesmo né.. fazer o quê. Que brinque com as coisas

Diagnóstico: Influeza B.

Voltamos para casa, e, enquanto estou na cozinha preparando um suco de laranja para as minhas agora DUAS pacientes, meu filho mais velho aparece meio cambaleando e diz, baixinho: “mãe, não estou me sentindo muito bem”.

“Ah, nãooooo filho!! Você também?????”

Mas só de tocá-lo consigo sentir a fervura de sua pele. Dou um abraço. Penso comigo que ele nem precisa fazer exame, seu diagnóstico é mais do que óbvio.

Nesse momento estou sem ação, me sentindo uma espectadora em uma comédia tragicômica. Mas é lógico que vamos fazer o exame. De novo. Mais uma ida ao hospital.

O manobrista já inclusive virou meu ‘brother’, e fez até piadinha:

Engraçadinho. Pergunto para ele se a terceira vez não pode ser por conta da casa (#engraçadinha).

Enquanto esperamos para sermos atendidos, brinco com o meu filho que ele e as irmãs podiam ter combinado de ficar doentes juntos para a gente economizar a viagem e irmos todos ao hospital de uma vez só, em vez de se revezar. Ele ri. Eu rio. E seguimos para a sala de exames. Só para tirar a dúvida do diagnóstico.

Que deu positivo.

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A Vacina da Febre Amarela

Se você mora no Brasil, deve lembrar-se daquele surto da vacina da febre amarela, no ano passado. Lembra?? Todo mundo aflito atrás de uma dose para chamar de sua, os jornais noticiando as filas quilométricas e o desespero.

Fiquei com dó das crianças, que acabaram entrando nessa onda (porque eles são esponjas, escutam os pais comentando, ouvem no rádio, tv, etc, e quando a gente vai ver eles estão fazendo mil perguntas pertinentes e sabendo de tudo), mesmo sendo muito mais informação do que a cabecinha deles é capaz de processar.

Tadinhos. A imaginação não tem fim.

Sempre tem aquela parcela da população que é super precavida e responsável, que consegue perceber quando haverá uma crise ou um surto de vacinas e se antecipam. (Quem são essas pessoas? Aonde vivem? Do que se alimentam?).

Elas dizem coisas como:

Eu, óbvio, não faço parte deste seleto grupo de seres humanos. Não. Por motivos que fogem da minha compreensão, eu acabo procrastinando e sempre deixo para última hora. E quando dou por mim já não há mais a tal da vacina.

Lembro de ter tentado de todas a maneiras: acordar as crianças cedo e chegar horas antes de abrir o posto. Em vão. A fila virava o quarteirão, subia a avenida e já não havia mais senhas. Não contente, liguei em todos os particulares que conhecia e a resposta era sempre a mesma: acabou e estamos sem previsão de chegada. Talvez em março.

E as filas eram tão grandes, mas tão grandes, que se tornaram referência na cabeça do meu filho. Até hoje, quando vemos pessoas enfileiradas num restaurante, no ponto de ônibus, na casa lotérica, etc, ele comenta:

Acabei conseguindo (em março) a bendita vacina.

Todos tomaram, mas até hoje falam no assunto. Me pergunto quando irão esquecer…

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Brincar de cabana

Você brincava de fazer cabana quando era pequeno?

Essa é uma brincadeira muito fácil e é SEMPRE um sucesso. Se você por acaso não teve infância não a conhece, consiste em pegar um lençol antigo (ou uma manta, toalha, o que tiver disponível) e tentar esticá-lo do jeito que der, prendendo-o entre dois móveis, como por exemplo entre dois sofás, formando uma cabana embaixo. Os pequenos piram nisso, colocam a imaginação para trabalhar.. é muito legal.

E no fim, eles acreditam piamente que a cabana deles ficou assim:

Quando na verdade ela é algo assim:

Mas tudo bem né? O importante é eles felizes. E a criatividade à mil.

Eu lembro que brincava MUITO disso com meus irmãos quando era pequena. E hoje em dia meus filhos adoram essa brincadeira também. Tem dias em que eles estão mais inspirados e ficam horas desenvolvendo as melhores técnicas de deixar a cabana esticada e grande (antes de começarem a se matar discutir pela decoração/disposição/espaço/móveis/qualquer assunto da cabana. O que sempre acontece depois de um certo tempo de brincadeira).

Um fator determinante para que ela seja considerada uma cabana de sucesso é se eles conseguem fazer com que fique tudo escuro lá dentro. Logicamente, essa é uma façanha praticamente impossível, mas eu finjo que tento ajudá-los, e fica tudo certo. Depois de um certo tempo tentando eles desistem.

Aí, uma vez montada essa elaborada tenda, eles curtem mobiliá-la, levar livros, lanternas, uma maçã cortada, travesseiros e cobertores, e juram que essa noite sim, eles vão dormir nela.

Bom, essa semana eu estava compenetrada numa leitura enquanto eles montavam uma cabana. Nesse dia em especial os dois estavam super focados e em sintonia, a brincadeira já durava horas sem brigas (o que, como meus leitores já sabem, é uma raridade aqui em casa). Quando de repente eu escuto meu filho de 9 anos comentando com minha filha de 6:

FILHO: Agora só falta fazer um bloquinho de Wi Fi e está pronta.

Um bloquinho de wifi?? Estou intrigada.

EU (precisando me meter no papo): Com assim filho, um bloquinho de wifi? Tipo um modem?

EU: Entendi… e usar o google pra quê por exemplo?

FILHO (após um momento de reflexão): Ah, para se eu precisar pesquisar como fazer fogo, por exemplo.

EU (morrendo de rir): Então tá.

Apresento à vocês caros amigos, a nova geração de montadores de cabanas. Elas são super tecnológicas vêm com wi-fi embutido. Só não possuem fósforos, isqueiros ou boca de fogão.
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*Meu filho fala “desencana”.. o seu também? Acho uma linguagem descolada demais para um menino de nove anos… 

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Tem um bebê em casa

Chegar em casa com a bebê foi um acontecimento muito esperado nessa casa. Bom, lógico, depois de quase quatro anos e meio sem bebê em casa, chegar com ela foi quem nem trazer um ET pra casa. Ou um saco cheio de pirulitos.

Ou uma tarântula.

Sempre me disseram que os mais velhos sofrem com ciúmes, então eu cheguei do hospital super preparada para fazer com que eles se sentissem o mais felizes possível com a nova moradora da casa. Primeiro, entreguei os famosos “presentes que a bebê trouxe” (da onde eles acham que vem esse presente? Do além? Do útero? Que depois de sair um bebê, sai de mim um carrinho de controle remoto e um kit de instrumentos da Peppa Pig? Deixarei essa dúvida no ar porque prefiro não entrar no mérito da questão com as crianças. Uma coisa leva a outra, e não quero que eles me façam MAIS perguntas…)

Aliás, não foi isso o que eles pediram de presente pra quando a bebê nascesse. Quer dizer, foi, mas conforme a gravidez foi progredindo eles foram mudando de ideia a cada mês. No fim minha filha pediu um carrinho de boneca (imaginem ISSO saindo do meu útero) e meu filho – meu pequeno mercenário, vê se pode… – leia mais sobre o tema neste post- pediu 50 R$ (o que pelo menos, pensando por outro lado, é beeem mais fácil de parir né?)

Enfim. Entreguei os presentes. E também algumas balas e pirulitos (como se eu estivesse pedindo desculpa por estar fazendo isso com eles. Tipo: “Filhos agora vocês vão ter que me dividir com uma terceira pessoa… por isso, toma aí uns presentes e doces pra ver se dá uma compensada, e se eu me sinto menos culpada)

Naquele momento funcionou, porque eles ficaram super contentes e excitados. Já minha culpa… Esta me acompanha até hoje, firme e forte. Já virou amiga íntima.

Sentei os dois no sofá de casa e deixei cada um segurar a bebê um pouco. Com todo cuidado do mundo (e rezando por dentro) depositei a pequena trouxinha rosa nos braços deles. Primeiro do meu filho. Depois, nos da minha filha.

Os dois se sentiram grandes e importantes.

FILHA: Posso brincar com ela no meu carrinho de boneca novo????

Por razões óbvias, não permiti. Delicada e gentilmente, afirmei que ela ainda era muito pequena pra brincar no carrinho de boneca. Então eles decidiram que seria uma boa ideia pegar todos os brinquedos de quando eles eram bebês e ficar chacoalhando na cabeça da recém nascida.

Porque com brinquedo de bebê ela pode brincar né?

Só digo uma palavra sobre aquele momento: socorro!!!

Tivemos muitos momentos SOCORRO desde então..

Coitada.

Mas tá dando tudo certo. E o pior é que ela gosta dessa bagunça frenética, é apaixonada pelos irmãos. De vez em quando ela chora porque eles exageram, mas pouco a pouco eles foram aprendendo a dosar as brincadeiras.

E foi assim, no dia a dia, que eles foram aprendendo a lidar com ela. E que eu fui aprendendo a lidar com os três. E que nós cinco fomos sobrevivendo ao primeiro ano da nossa bebê em casa…

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Propina??

Aqui em casa cada filho guarda uma bolsinha de dinheiro. Calma, não é o que vocês estão pensando, uma bolsa cheia da grana.. não. É só um moedeiro em formato de coelhinho (verde pra ele e rosa pra ela) com umas moedas e umas notinhas perdidas que eles já ganharam na vida.

Eu não dou mesada pros meus filhos porque não sou organizada o suficiente pra isso. Já tentei dar uma vez mas como eu mais esquecia do que dava, acabamos abolindo essa moda da nossa casa. (Aceito dicas sobre esse assunto, sei que é ótimo eles saberem administrar seu próprio dinheirinho desde cedo e blá blá blá, mas simplesmente não rolou por aqui)

Enfim. As vezes levo eles na banca cada um com seu moedeiro e deixo eles escolherem o que quiserem – o que é um exercício bacana, porque sempre que eles tem que gastar o próprio dinheiro eles escolhem no máximo uma cartela de selinhos ou uma figurinha. Gibi que custa uns 4 reais eles não compram – muito caro. Quando sou eu que pago eles querem a banca inteira.

Porém, ultimamente tenho notado que meu filho tem tentado comprar as pessoas com esse dinheiro dele.

Veja o exemplo ocorrido há um mês:

FILHO: Mãe, deixa eu convidar um amigo hoje direto da escola?

EU: Filho, hoje não dá… a gente tem compromisso

FILHO: Vai mãe, por favor??

EU: Não dá, mesmo! Outro dia você chama.

 

EU: Oi???

E aí eu expliquei pra ele que não adianta pagar, que a gente não muda os pensamentos de uma pessoa dando dinheiro pra ela (será??) e que isso não é uma coisa bonita de se fazer. Afinal, tá na ‘funça’ de mãe né, criar filhos corretos e íntegros, não corruptos ou subornadores.

Eis que nesse final de semana fomos viajar com uns amigos e no sábado de manhã minha amiga me conta, morrendo de rir:

(Rafa é o amiguinho, filho dela, que estava com a gente na viagem)

EU (também rindo né, porque ninguém é de ferro): e o que você falou pra ele?

AMIGA: que por um real eu não acordava, mas por vinte dava pra gente conversar.

Algum dia ele aprende. Espero. Socorro.

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Para quem ficou com a dúvida: não, ele não aceitou a negociação e não pagou os vinte reais. E o Rafa continuou dormindo até as 11 da manhã. 

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A história da calcinha

Para ler esta história você precisa se despir de todo e qualquer julgamento. Eu sei que é normal julgar os outros, fazemos isso todos os dias, blá blá blá.. Mas eu queria contar essa situação do jeitinho que aconteceu e me sentiria mais a vontade se meus queridos leitores me acompanhassem nessa empreitada livres de avaliações.

Era dia de “fundo do mar” na colônia de férias da minha filha. Ou seja, todo mundo ia fantasiado de seres do fundo do mar. Obviamente, minha filha nada influenciada pela mãe, ama as princesas da Disney e optou usar o seu lindo vestido da princesa Ariel- ou da Pequena Ariel, como ela a chama (para quem não sabe quem é, estou me referindo à Pequena Sereia. A princesa mais linda da Disney. Dê um google.)

Acordamos animados e minha filha se vestiu sozinha.

EU: Uaaau que linda você ficou!!

Escolhemos uma presilha de estrela do mar, penteamos o cabelo, colocamos uma sandália verde e VOILA! Prontas.

Verifiquei se todos estavam devidamente calçados, comidos, etc, e fomos para o carro.

Da minha casa até a colônia de férias dá uns 15 minutos.

Já havíamos percorrido mais da metade do caminho quando minha filha anuncia solenemente (como quem conta que foi à padaria comprar pão):

EU (incrédula): COMO SEM CALCINHA?? VOCE NAO PÔS CALCINHA????

Nem pensei em verificar se ela estava de calcinha antes de sair de casa. Afinal de contas, é uma coisa bem óbvia de se pôr. Não? Em geral o primeiro item da nossa vestimenta. E normalmente minha filha sai COM calcinha, como qualquer pessoa normal. Deve ter sido a empolgação em colocar a fantasia.

O fato era: minha filha estava sem calcinha. E adivinha? Na mochila dela justo hoje não tinha troca de roupa… Por que? Porque hoje não era dia de piscina. E porque Murphie e suas leis imperam sempre né?

Opções:

1- voltar pra casa pegar uma calcinha – fora de questão, eu tinha uma reunião e não daria tempo de refazer todo o percurso.

2- comprar uma calcinha no caminho – Hm. Boa. Se eu encontrar alguma coisa aberta antes das 9h da manhã. 

3- ir sem calcinha – por motivos óbvios, fora de questão. Nem sei porque coloquei como uma opção plausível. 

Bom, achei uma loja aberta. UMA. Daquelas de roupas francesas carésimas, que mancham só de olhar, e a criança assim que põe o vestido suja de molho de tomate ou de suco. O que a loja francesa estava fazendo aberta antes das 9 da manhã? Não sei. Talvez estivesse no fuso horário europeu.

Mas, no desespero, vamos tentar né? Vai que esteja em promoção. Vai que eles estejam distribuindo brindes justo hoje. E numa onda de otimismo desses Vai Que, lá fui eu.

Abri o jogo com a vendedora (impecável, diga-se de passagem.)

EU: Moça, minha filha saiu sem calcinha, preciso comprar uma calcinha. Você tem?

MOÇA (com um sorriso gentil): Não trabalhamos com roupas íntimas… Mas temos biquini.

Legal!! Biquini é uma ótima!!

EU: Pode ser!

Aí ela me mostra o tal do biquini.

Preço: R$ 359,00. Não é mentira. É sério.

Fora de cogitação.

Agradeci e saí da loja.

Já tinha perdido uns 3 minutos nessa parada.

Voltei pro carro e tive uma luz:

EU: FILHO DA SUA CUECA PRA SUA IRMÃ!! E VESTE SUA SUNGA.

Eu acho que eu devia estar com uma cara muito nervosa, porque eles nem discutiram. Em segundos minha filha estava de cueca e meu filho de sunga.

E seguiram seus dias como se nada tivesse acontecido. Minha filha de cueca e meu filho de sunga. Irmão é pra isso mesmo, né?

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Mães sob pressão

Olho pra minha bebê de 4 meses e sinto um aperto no coração.. ela mal nasceu e já tem tanta pressão em cima dela! Pressão para mamar direito, para fazer cocô direito, para dormir a noite toda. Para ser uma criança “calminha”. Para mamar no peito até 18 meses. Para adorar a hora do banho.

Poxa, deixa a criança ser feliz!! Deixa a mãe ser feliz! É tanta cobrança em cima deles… e automaticamente em cima de nós, mães também. Porque eles são nossa cria, então se não está tudo 100% certinho com eles, a culpa é nossa né??

O bebê tem 6 meses e ainda acorda a noite? Tem 10 meses e ainda não sabe engatinhar? A criança tem um ano e meio e não anda ainda? Olha, vai ver porque é problema fisiológico! Tem 3 anos e escapa xixi? Fim de mundo!! Tirou nota baixa na prova?? Põe na aula de reforço! Seu filho é bom em esportes? Fala inglês fluente né?? Já sabe nadar?

Socorro! Quantas coisas que precisamos ensiná-los a fazer! A escovar os dentes direito. Lembrá-los de fazer a lição de casa. Manter as unhas cortadas em dia (só aqui em casa são 60 unhas pra cortar – tirando as minhas!). E acertar um jantar que todo mundo na casa gosta, então?? Missão impossível. Isso sem mencionar nosso dever mínimo de educá-los para se tornarem pessoas boas, íntegras, honestas, trabalhadoras, esforçadas….

Quanta pressão, que responsabilidade! Já fiquei tensa só de pensar.

E como se não bastasse nós mesmas nos cobrando, inseguras com nossas decisões o tempo todo – porque mãe é muito boa em se culpar e se cobrar, (ou não, pode ser que você seja uma mãe super segura de si. Te admiro!!! Queria ser assim!) –  a gente é criticada por um monte de gente na rua, no shopping, no supermercado, em festas... Inclusive por outras mães…

Gente, qual é? Estamos todas no mesmo barco, lutando dia pós dia para conseguir educar nossas crianças no mundo doido de hoje. Ninguém nasceu sendo mãe. Ninguém sabe direito o que está fazendo nesse pandemônio que é a maternidade. A gente faz o que acha que tá certo. É na base do erro e acerto. E pior: o que dá certo pra mim pode não dar certo para você! Cada casa é uma casa… 

Mãe sempre erra, não importa o quanto ela tente acertar.
Enfim! Por uma maternidade mais leve, com menos julgamentos e muito, mas muito mais amor, por favor!!

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PS: pra completar, a gente tem que fazer tudo o que foi citado acima E ainda estar lindas, magras, bem vestidas, com a ginástica e alimentação em dia, realizadas profissionalmente, e com o cabelo maravilhoso. Que mundo injusto.

Ufa, cansada só de digitar… vamos dar um tempo?! Aceitar mais, culpar e julgar menos?

Um brinde a todas nós, mães e mulheres maravilhas. Cara, de verdade, tiro o meu chapéu para você que tem um, dois, três.. cinco filhos (guerreira!!!!). Vamos nos dar um tapinha nas costas, somos todas Mulheres Maravilhas meeeesmo.

E ai de quem disser o contrário.

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As coisas bonitas que Ele faz

O que é D’us para você?

Alguém que você procura nos momentos difíceis? Um ser supremo que tudo pode? O criador do universo, do céu e da terra e de todos os seres? Seria o acaso, a natureza, as porções de felicidades, os pequenos milagres diários da vida? Seria – e essa dedico aos mais polêmicos – uma invenção do homem? Ou um velhinho de barba branca que mora no céu e recebe e-mails com cada pedido que a gente faz?

Bom, para a minha filha de 4 anos, D’us é uma linda princesa de vestido que arrasta no chão e que mora num castelo rosa-brilhante-de-flores.

Bem gráfico assim mesmo. E ela adora falar de D’us assim, do nada.

E num belo domingo, desses que a gente fica em casa sem fazer nada, meu marido perguntou pra ela ao notá-la concentrada olhando pela janela através do horizonte:

PAPAI: Filha o que você está olhando aí?

Profundo o negócio hoje né?

PAPAI: E o que você tá pensando sobre D’us?

FILHA: Estou pensando nas coisas bonitas que ela faz (ela = D’us)

PAPAI: Sério? Que legal filha… tipo que coisas?

E ela suspira, com ar de sabedoria, e responde:

FILHA: Ah, tipo o meu irmão.

Ah claro, tipo o irmão com quem ela por acaso acabou de se matar por um bichinho de pelúcia.

Sem mais.

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Conclusões dessa história:

1- Não tente entender as brigas do seus filhos. Se ninguém estiver se machucando, DESENCANA e vai cuidar da sua vida. Demorei pra aprender essa lição, mas assumo que minha vida mudou MUITO depois de começar a agir assim.

2- Minha filha de 4 anos pensa nas “coisas bonitas que D’us fez”… (Não sei se isso é bem uma conclusão, mas o fato ainda me espanta um pouco… tipo…  o quanto VOCÊ pensa em D’us? E nas coisas bonitas que Ele fez?)

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O tal do parto

Toda grávida tem um certo receio do parto. Não tem jeito, dá medo. O que entrou na gente menor do que um grão de areia  vai sair com mais ou menos cinquenta centímetros e pesando três quilos. Fala sério, é pra dar medo em qualquer um, né? E uma das maiores dúvidas das gestantes é: como saber que é hora de ir pro hospital? No último mês cada dia é possível. Será que vai ser no sacolão, no cinema, na festa de uma amiga?

Imaginamos a cena básica: no meio da noite, a gente com dor, acorda nosso parceiro. “Amor acho que vai nascer!!!” Aí ele dá a mão pra gente, com todo o carinho, e iniciamos juntos a contagem das contrações no relógio, calmamente.

Ou a gente imagina que vai ser pega de surpresa. Numa consulta simples de nono mês, você ainda está de 37 semanas, e o médico te examina e fala “Querida, você está super dilatada! Vai nascer hoje a noite.”

Podemos ser mais dramáticas e achar que a nossa bolsa vai estourar em um lugar público. Que grávida nunca pensou nisso? A bolsa rompendo no meio do supermercado, a gente ficando toda molhada. E as pessoas correndo ao nosso auxílio, gritando “Vai nascer!! Vai nascer!!!!” Algum engraçadinho já com o iPhone em mãos filmando a cena toda, esperando que nos deitemos no chão e que demos à luz ali, entre os frios e os enlatados.

Gente, não é bem assim. Parto DEMORA. Salvo algumas exceções, grande parte do trabalho de parto consiste em esperar. Esperar a dilatação completar, esperar o anestesista chegar, esperar o bebê descer. É uma longa espera.

Bom, decidido que é hora de ir pro hospital, vem toda aquela emoção, ligamos para os familiares e vamos correndo para o carro (se você resolver ir de taxi como eu, tem que entrar fazendo cara de paisagem, senão ele não te leva, com medo que você dê a luz no banco de trás). A entrada e saída do carro é um trampo com todas as malas – a sua, a do bebê, a do pai, a das lembrancinhas, a dos docinhos e o tal do quadro da maternidade que ficamos meses planejando. Parece que vamos sair de férias por um mês.

Chegando no hospital a ansiedade bate forte. Será que vou conseguir fazer parto normal? Será que minha cesária vai dar certo? Será que vai demorar ou vai ser rapidinho? Eu quando cheguei no hospital achei que iam me tirar do carro numa maca, me levar correndo pra sala de parto, uma gritaria tipo E.R. Mas não, tudo correu muito calmamente. Cheguei, esperei, meu marido preencheu o protocolo, fizeram a triagem para confirmar que eu de fato estava em trabalho de parto (aparentemente meus gritos não foram suficientes). E tudo isso sem nada de pressa, no maior bate papo animado. Aí, constatado que realmente era hora de nascer, me colocaram numa cadeira de rodas (finalmente !!!) e me levaram até a sala.

Me vestiram num aventalzinho branco, colocaram uns tubinhos na minha veia, mediram minha pressão e falaram “agora espera”. E fiquei lá, meio esquecida. Morrendo de dor, xingando quem aparecesse na minha frente, e todo mundo em volta agindo normalmente, realizando suas funções do dia a dia. Era um entra e sai de enfermeiras na sala, trazendo coisa, levando coisa, conversando sobre a festa da semana que vem e sobre o placar do jogo do Corinthians. E eu lá, naquela situação.

Quando eu achava que aquilo não ia acabar nunca, que a dor ia durar para sempre, chegou meu anestesista, santo doutor Eduardo. E pronto, em quinze minutos o mundo se tornou um lugar mais bonito. De repente eu percebi que na verdade meu marido era um fofo de estar la do meu lado me dando a mão – e não mais um canalha idiota e culpado por toda a dor que eu estava sentindo. Até as enfermeiras de repente pareceram mais simpáticas e solícitas. O mundo voltou a ser um lugar civilizado. Fiz piadinhas para a câmera de video e reparei em como a sala de parto era muito mais aconchegante e charmosa do que eu imaginava quando tudo começou.

Passada a fase ESPERA, chegou a hora de nascer. E de repente todos os presentes na sala se posicionaram numa plateia organizada: o pediatra, o ajudante do pediatra, as enfermeiras, o seu médico, o assistente do seu médico, o anestesista, e mais um enfermeiro que estava de passagem pra sua hora de almoço, ouviu a confusão e resolveu entrar. Aquela bagunça toda: faz força, mais força, mais um pouco de força. Nasceu?? Nasceu!!! Tira o bebê, dá pro pediatra, cuida da mãe. E depois de se certificarem de que está tudo bem, pesarem e medirem a criança, me ofereceram o meu pequeno e lindo prêmio: um embrulho minúsculo de touquinha na cabeça, parecendo um joelhinho amassado, que era a cara do pai.

Bom, aí eu aprendi algumas lições. Que as dores do parto e do pós parto não tem nada de romântico. Que as contrações são de morrer, a cicatrização é complicada, o peito parece que vai explodir com a descida do leite. Que você fica pálida, andando que nem uma pata, e ainda tem que sorrir e se arrumar para as visitas que vem pra te parabenizar. Mas faz parte do pacote, e rola uma pressão para sair do parto linda, magra e recuperada – não rola?? Aprendi que cada mulher é uma mulher, e que cada parto é um parto. (Conheço gente que não sente nada de dor, gente que grita até não poder mais. Tenho uma amiga que não percebeu que estava em trabalho de parto e deu a luz em casa. Uma que ficou treze horas internada esperando a dilatação completar até nascer. Outra que fez cesárea marcada. Uma que a bolsa estourou no meio da noite enquanto ela dormia. Outra que depois de passar da data, foi para indução. Tem uma conhecida minha que deu a luz no carro – afinal seu bebê resolveu nascer as seis e meia da tarde de uma sexta feira chuvosa em plena Avenida Rebouças).

Mas acima de tudo aprendi que mesmo que você jure com todas as suas forças que nunca mais vai passar por essa agonia de novo e que considere loucas todas as mulheres que vão para o segundo filho, depois de uns meses você esquece de toda a dor e desespero – e aí fica pronta para ter o seu próximo pacotinho.

Dessa vez rosa, quem sabe?