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Sonhos e aspirações

Todo mundo tem sonhos. Sonho de virar estrela de cinema, ou em ser um grande médico, em se tornar empresário, artista, chef de cozinha… Alguns tem uma viagem dos sonhos, a casa dos sonhos. Ou sonhos mais imediatos, como o de passar de ano sem nenhuma recuperação, ou o de conseguir dormir 8 horas inteiras numa só noite.

Minha filha pequena tem um sonho.

Ela quer muito ter cinco anos. A aspiração da vida dela é ter cinco anos. Se você pergunta para ela “O que você quer ser quando você crescer?” Ela vai te responder:

cinco anos 1

Ela acha que fazer cinco anos vai abrir todas as portas do mundo pra ela. Se você já conversou com ela, provavelmente já deve ter ouvido “Porque quando eu fazer cinco anos…”

Com certeza esse sonho é inspirado no irmão, que hoje efetivamente tem cinco anos (e em duas semanas faz seis!!).

Quando eu perguntei para ela por que ela quer ter cinco anos, ela me compilou verbalmente uma lista completa de bons motivos. Com cinco anos ela poderá usar o elevador sozinha (desde que peça autorização pra mamãe), tomar banho sozinha, e fazer lição de casa todos os dias (!!!). Poderá viajar e passar o final de semana com os avós sozinha. Poderá ler sem ajuda os seus livrinhos antes de dormir. Poderá ir à dentista e ganhar uma lanterninha da Frozen (brinde que a doutora dá).

cinco anosEpa! Ficar acordada na-na-ni-na-não..

EU: Filha, isso você não vai poder fazer. Seu irmão tem cinco anos e ele dorme na mesma hora que você.

Então ela pondera um pouco e me pergunta:

FILHA: Mamãe, o que acontece depois de cinco anos?

EU: Hm… Você faz seis anos

cinco 3EU: Não filha, ainda não..

FILHA: Com quantos anos eu vou poder ficar acordada igual você?

EU: só lá pelos dez (inventei uma idade bem longínqua porque, para falar a verdade, não tenho a menor ideia de quando ela vai poder ficar acordada até tarde. Minha experiência como mãe vai até a tenra idade de seis anos)

Mas acho que serviu. Porque ela se contentou com a resposta e saiu andando, pensativa.

Acho que dei um nó na cabecinha dela. Mas vamos ver se amanhã ela continuará querendo fazer cinco ou vai começar a sonhar com o dez…

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É interessante que ela também usa essa idade de cinco anos para se esquivar das coisas… Por exemplo: quando eu pergunto quando a gente vai jogar as chupetas pros peixes, ela sorri e responde: Quando eu tiver cinco anos, mamãe! 

(O que é claro que não é verdade, pretendo tirar este ano… Ela usa a chupeta pra dormir, e gosta tanto que estou com dó de tirar!)

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Três e novembro

Meus filhos ultimamente têm brincado de um novo jogo, que eles chamam de “Vendedor”.  O legal desse jogo é que você pode brincar em qualquer lugar. Em casa, no banho, no carro, na sala de espera do médico, etc. Consiste em fingir que você está comprando e vendendo coisas. Pode ser qualquer coisa, desde uma tampa de shampoo até um telefone ou uma poltrona.

Então ontem já era hora do banho e eles estavam no meio de um desses intermináveis jogos, negociando bravamente se um relógio do mickey que meu filho estava vendendo deveria custar cinquenta e nove, vinte um, ou três reais.

EU: Filhaaa! Vamos tomar o seu banho?

tres e novembro

Hm.. eu diria que é uma gama de produtos bastante diversificada.

EU: Ah, oi vendedora. Quero comprar este óculos.. quanto custa?

FILHA: Custa três e novembro.

EU: hahahaha

(Provavelmente ela quis dizer noventa. Tudo hoje em dia tem o noventa no final, já reparou? Até minha filha de três anos reparou. Espertinho esse noventa, faz você achar que está pagando quase um real a menos do que está pagando na verdade…)

EU: Ah tá meio caro esse óculos, né… e a corujinha?

FILHA: Três e novembro.

Tudo nessa loja custa três e novembro.

EU: Tá legal, vou querer a coruja então. Tem troco pra vinte?

O ‘dinheiro’ nessa brincadeira são cartões de visita. Quer deixar os meus filhos felizes? Dá o seu cartão de visita pra eles. Se der um cartão pra cada um então, eles vão à loucura.

tres e novembro 2

Peguei o meu troco e fui embora.

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Brincadeiras a parte, este jogo de vendedor me faz refletir sobre a sociedade de consumo em que nossas crianças estão crescendo e em quão insustentável ela é. Onde vai parar isso? Quantos brinquedos os seus filhos tem? Quanta tralha que você não usa há mais de um ano? A quantidade de coisas a venda que se esfrega na nossa cara todos os dias, as propagandas sem limites, os anúncios que nunca foram tão insistentes e semeiam lá no íntimo aquela urgência em comprar.. Como nossos filhos vão acabar saindo disso tudo? Para se pensar…

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A vaca morrida

Este é um post sobre o dia em que vimos uma vaca morta na estrada.

Você já viu uma vaca deitada no meio da estrada? Eu nunca tinha visto. Foi uma experiência nova para mim e para o meu marido, e um tanto chocante para os meus filhos.

Estávamos viajando já há algumas horas por uma estradinha de duas mãos, cheia de curvas.

A situação dentro do carro era caótica (não vou ilustrar, vou deixar para suas mentes criativas imaginarem os pacotes de biscoitos, restos de maçã, papel kleenex jogados, garrafas de água vazias, etc) quando de repente passamos por uma vaca caída no meio da estrada. Gigantesca, branca. Uma cena chocante. Não havia sangue nem nada, apenas a vaca, e alguns carros parados prestando suas condolências na faixa ao lado*.

Ela estava tão serena que algum desavisado poderia imaginar que ela estava dormindo.

Com dois filhos pequenos no carro, nós não paramos. Deixamos a vaca para trás e continuamos nosso caminho, cada um absorto em seu silêncio, digerindo a cena, quando do banco de trás vem uma vozinha:

vaca morrida 1

Era minha filha.

EU:……. é verdade filha..

FILHA: Que nem eu né?

EU: Isso mesmo. Igual você.

vaca morrida 2

EU (e marido) HAHAHAHAHAHHAHAHA

FILHA: E aí ela fica assim, morrida.

O que eu posso dizer? Foi um aprendizado, passar pela vaca morta. Sem eu precisar falar nada, muitas lições ficaram para as crianças: temos que obedecer a mamãe, dar sempre a mão para atravessar a rua, estar sempre atentos…

Querida vaca da estrada, obrigada por me ajudar na árdua tarefa de educar os meus filhos, mesmo que só por alguns segundos. Sinto muito. Descanse em paz.

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Neste post aqui já falei sobre vacas na estrada. Mas no caso elas estavam vivas.

*Não havia ninguém fazendo contato físico e direto com a vaca, deitado em cima dela e abraçando-a como no filme do Eu Eu Mesmo e Irene. Isso foi um pouco decepcionante, confesso. 

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A mentira

Hoje vou escrever sobre um episódio que me marcou muito este ano.

Nesses quase seis anos de maternidade (uau quase uma pós graduação!!) tem uma coisa que eu aprendi: eu sou o exemplo dos meus filhos. E é muito difícil ser exemplo o tempo todo…

Era um belo dia de sol, e estávamos muito empolgados para ir num novo brinquedão de água que só abre no verão.

MENTIRA 1

Chegamos lá e descubro um pequeno detalhe: a idade mínima para as crianças poderem ir no tal brinquedo era de 6 anos.

Meu filho tem cinco e meio.

Ele já é grandinho e sabe nadar, e neste brinquedão o uso de colete salva vidas era obirgatório. Não achei que teria problema algum ele ir. E quando nos inscrevemos para entrar no brinquedo, ninguém perguntou a idade dele. Deixaram ele entrar direto.

Enquanto ele ia colocando o seu colete, uma turista que estava por lá perto perguntou:

“Que menino bonito! Quanto anos ele tem, seis?”

Eu, com medo de que a mulher pudesse nos delatar para os responsáveis do brinquedo, mexi a cabeça e afirmei que sim. Respondi em voz baixa, quase num sussurro, disfarçando para os meus filhos não escutarem a minha pequena mentirinha branca.

Coletes postos, tivemos uma manhã encantadora no brinquedão, com direito à muita diversão e risadas.

Quando estávamos indo embora (veja bem, já havia se passado mais de duas horas que estávamos lá) meu filho vira para mim e pergunta:

mentira 2

Pega de surpresa, fico sem resposta. O que eu posso dizer? Como explicar para um menino de cinco anos que as vezes uma mentira inofensiva é politicamente aceitável, dependendo do contexto?? Ele terá o discernimento para entender? Ou vai começar a achar que mentir é normal? Será que devo mentir (de novo!!) pra ele e dizer que não, eu não menti para a mulher e ele que se confundiu?

Reflito um pouco sobre as minhas opções. Lembro da história de minha amiga Márcia, fisioterapeuta, de quando ela era pequena. Um dia, a vizinha que vendia pano de pratos tocou a campanhia procurando a mãe dela, provavelmente para mostrar os novos modelos da coleção. Márcia então chamou a mãe pela porta, e esta, por sua vez, se escondeu e fez um acentuado ‘não’ com o dedo indicador, sinalizando com os lábios “Diga que eu não estou!!”.

Este foi o dia em que Márcia aprendeu a mentir, e ela lembra-se dele até hoje. Quase 35 anos depois.

Entre todas as opções que voam pela minha mente, a história da Márcia, os prós e contras de cada saída, eu finalmente escolho a reposta mais honesta que pude:

mentira a

Fui até a mulher, que estava a uns 10 passos de distância. Falei qualquer amenidade sobre o clima, ou sobre como estava cheio o parque. E voltei até os meus filhos, que me observavam atentamente.

Guardamos nossas coisas e fomos embora, em silêncio.

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Palavra mágica

Em tempos de Mickey Mouse Club House…

FILHA: Mamãe, to com fome. Tem chocolate?

(Pois é, ela já nasceu com necessidade de chocolate e tudo. Bem menina mesmo..)

EU: Tem maçã cortada, serve?

FILHA: Tá bom, então eu quero maçã cortada

EU: Qual é a palavra mágica??

miska muska

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PS: Pra quem não sabe o que isso significa, ou nunca assistiu Mickey Mouse Club House.
PS2: eu estava me referindo à magia do Por Favor.

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Sobre casamentos

Oi Gente
Pra quem não lembra meu nome é Debora e eu costumava escrever neste blog há muito tempo atrás. Mas aí eu parei. Por que eu parei? Não sei! A correria, o dia a dia, a falta de inspiração pra escrever (canalizada pra outra área, mas ok isso é assunto de outro post).

A boa notícia é que depois de tanto tempo eu voltei pra continuar postando as aventuras da família em quadrinhos. Por onde começar depois de tanto tempo? Bom, meu filho hoje é um grande cirurgião que passou meses viajando com os Médicos sem Fronteiras e hoje atende nos melhores hospitais de SP. Minha filha cresceu, se formou em economia, criou o seu próprio fundo de investimentos, casou e já tem um bebê.

Brincadeira não passou taaaaanto tempo assim.

Não.. Meu filho está com 5 anos e 9 meses e minha filha acaba de completar 3 anos. Não mudamos muito desde a última vez.

A cena de hoje aconteceu esta semana no carro. Era uma manhã como outra qualquer, estávamos saindo da garagem para ir à escola. Quando minha filha…

casar 1

EU (meio embasbacada sem saber o que responder): Sim filha, mas só quando você crescer.

E então meu filho, irmão mais velho protetor resolve entrar no papo:

casar 2

EU (precisando de mais detalhes sobre esse assunto.. Desde quando uma menina de 3 anos se preocupa com casamento?): mas com quem você vai casar?

Ao que ela responde:

casar 3

 

Olha aí o édipo minha gente… Freud tarda mas não falha.

FILHO: Mas com amigo do papai não pode!!

FILHA: Por que não??

casar 4

Nessa hora eu já não sabia se ria ou se chorava… porque criança não mede palavras, elas são sinceras e ponto final.

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Quando eles estão amigos

Irmãos. Uma relação tão ambígua. E é tão difícil tentar descrevê-la.

Uma hora se amam. Uma hora se odeiam. Se tornam rivais de primeira. Mas logo essa rivalidade evapora e dá lugar a um companheirismo sem igual. E eles, que há pouco pegavam no pé um do outro, em questão de minutos se tornam os mais fiéis parceiros no crime.

As vezes eles estão brigando tanto que me fecho no banheiro por alguns segundos para respirar.

Mas o texto de hoje descreve uma parte carinhosa dessa relação. É uma daquelas cena fofas e raras, que as vezes nós temos a sorte de estar por perto bem na hora para testemunhar.

Era uma tarde como outra qualquer…

FILHO: Irmãzinha!!  vamos pular na cama da mamãe?

FILHA: vamos vamos vamos

IRMAOSS 1

Se tem um programa que eles amam, é pular na minha cama. Eles estão reclamando que não tem nada pra fazer e você está sem criatividade para inventar brincadeiras?? Manda pular na cama.

Não tem erro.

irmaoss 3

Mas minha pequena não conseguia subir sozinha. A cama estava alta para as suas perninhas.

Então…

IRMAOSS 2

Como assim fazer um banquinho? Eu me perguntei..

Mas logo entendi:

irmaosss

E continuaram pulando, felizes e gargalhantes, até a próxima briga.